O golpista dos vinhos e os milhões de dólares arrecadados

Por Alexandra Forbes 20 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O golpista dos vinhos e os milhões de dólares arrecadados

Dia desses um poderoso empresário que coleciona grandes vinhos do Velho Mundo me contou, inconformado, que vinha de perceber que as garrafas de Pichon Lalande (um dos maiores tintos bordaleses) que comprara em um leilão em Nova York eram falsas. Respondi que deveriam ter vindo de alguma venda do John, um conhecido falsário cuja empresa é citada no Sour Grapes, o documentário mais bombástico já feito sobre a falsificação de vinhos. “É, foi ele mesmo!”, retrucou.

Não entendo como é que tantos bebedores contumazes de Borgonhas e Bordeaux de primeiríssima linha caem no conto desse e de outros vigaristas. Desde minha infância meu pai repete seu ditado favorito: o pior burro é o que não aprende. De burro, o enófilo em questão não tem nada, então só posso concluir que se trata de um fenômeno que eu definiria como “rico vai com os outros” ou, como diriam os gringos, peer pressure.

O tal John produzia discos de hip hop até decidir bandear para a casa de leilões que sua família fundou três gerações atrás, para ter uma fonte de renda mais segura.

Em 1998, criou o braço de vinhos raros da empresa e logo fez as vendas dispararem, graças em grande parte à atmosfera festiva dos leilões que organizava, onde embebedava seus convidados com garrafas raras e caras. Ele usa a mesma fórmula de sucesso de lá para cá: privatiza restaurantes de prestígio, faz os garçons servirem copiosamente magnums de grandes châteaux e domaines, e vai passando de mesa em mesa bajulando e dando tapinhas nas costas da turma. Em geral são homens ricos que anseiam por ter ícones como Pétrus, Cheval Blanc e Romanée Conti em suas adegas, para estarem bem à vista quando receberem visitas em casa.

John ficou amigo do maior falsificador de vinhos da história, o Rudy Kurniawan, protagonista do Sour Grapes. Em 2006, arrecadaram 35 milhões de dólares em dois leilões que armaram juntos, nos quais havia muito vinho fake. Isso catapultou a casa de leilões do John ao primeiro posto mundial, deixando as vetustas Christie’s e Sotheby’s a comer poeira.

A primeira pista de que era tudo uma farsa foi a magnum que ele comprou em um desses leilões, supostamente de Pétrus 1921 — safra em que o mítico château bordalês nem sequer produziu magnums. Kurniawan amargou dez anos em uma cela de prisão, mas seu amigão John escapou de ser condenado e continua soltinho, frequentando jantares vínicos nas casas de milionários que, apesar das evidências, continuam arrematando garrafas caríssimas que ele segue leiloando.

Enquanto houver ricos que vão com os outros, haverá pilantras os rondando, ajudados em seus golpes pela desinformação que a IA e as redes sociais só fazem multiplicar.

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