“O humano vai valer mais na era da IA”, diz líder do Wellhub no Brasil

Por Leo Branco 10 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
“O humano vai valer mais na era da IA”, diz líder do Wellhub no Brasil

A inteligência artificial deve aumentar o valor do trabalho humano dentro das empresas. Mas, para Ricardo Guerra, CEO do Wellhub no Brasil, isso cria outro desafio: manter as pessoas mentalmente saudáveis num ambiente cada vez mais acelerado.

A discussão apareceu no RH Summit 2026, realizado nos dias 5 e 6 de maio no Expo Center Norte, em São Paulo. O evento reuniu cerca de 6.000 participantes presenciais e teve como um dos principais temas o impacto da IA sobre produtividade, liderança e saúde mental no trabalho.

Na avaliação de Guerra, o RH entrou em uma nova fase porque a “matéria-prima” das empresas mudou.

“O ser humano vive num ambiente tóxico para ele”, afirma. “Velocidade, excesso de informação, vício em tela, comparação constante. Isso tem gerado ansiedade, depressão e burnout.”

Segundo ele, o avanço da inteligência artificial acontece justamente no momento em que as empresas enfrentam aumento de afastamentos por saúde mental, esgotamento emocional e dificuldades de concentração dos funcionários.

“O humano vai se tornar ainda mais relevante daqui para frente”, diz. “Um talento que utiliza IA da forma correta se torna ainda mais valioso para qualquer empresa.”

Para ele, isso transforma o RH em uma área mais estratégica do que em qualquer outro momento recente.

“É a área que vai seguir cuidando desses talentos para que eles possam tomar boas decisões, ter bons julgamentos e conseguir refletir sem ser automático.”

O cérebro humano não acompanha a velocidade da tecnologia

Durante a entrevista à EXAME, Guerra repetiu várias vezes a ideia de que o cérebro humano opera hoje num ritmo incompatível com o excesso de estímulos do ambiente digital.

“O nosso cérebro começa a sofrer porque o hardware dele não é atualizado”, afirma. “O celular vai para a versão 1, 2, 3, Pro Max. O cérebro continua o mesmo.”

Segundo ele, o problema não está apenas na tecnologia em si, mas na forma como as pessoas passaram a viver conectadas.

“As pessoas ficam mais se importando com o que os outros pensam, querem estar atualizadas de tudo o tempo inteiro.”

Na visão do executivo, esse ambiente elevou o nível de desgaste emocional dentro das empresas.

“A matéria-prima que entra nas organizações ficou mais desafiadora para gerar valor.”

Ele afirma que o RH acabou assumindo um papel que antes era distribuído entre diferentes instituições da sociedade.

“A única organização hoje que de fato está se mobilizando para mudar a saúde são as empresas”, diz. “O governo não tem grandes programas. A sociedade não tem grandes programas.”

O impacto da NR-1 nas empresas

A nova NR-1 foi um dos temas mais debatidos do RH Summit deste ano. A norma amplia a responsabilidade das empresas sobre riscos psicossociais e saúde mental no ambiente de trabalho.

Segundo Guerra, companhias que já investiam em programas de bem-estar precisarão fazer ajustes menores.

“Essas empresas já têm avaliação psicossocial e plano de gestão de risco.”

Ele cita como exemplo um cliente do Wellhub que possui 52.000 funcionários usando a plataforma e outros 22.000 utilizando ferramentas de terapia.

“Para essas empresas muda pouco.”

O cenário é diferente, segundo ele, para organizações que ainda tratavam saúde mental apenas como benefício secundário.

“Muitas empresas não estão levando a sério o potencial de melhorar seus ambientes e melhorar suas performances.”

Na avaliação dele, a principal mudança da NR-1 não é burocrática.

“Existe diferença entre quem faz para cumprir agenda e quem transforma cultura”, afirma.

Segundo Guerra, empresas que apenas oferecem benefícios registram adesão entre 25% e 30% dos funcionários. Já companhias que incorporam bem-estar à rotina conseguem índices próximos de 70% ou 80%.

“Não vejam a NR-1 como obrigação. Vejam como oportunidade de transformar o bem-estar.”

Como empresas aumentam adesão a programas de bem-estar

O Wellhub trabalha hoje com quatro pilares de engajamento para aumentar o uso de programas de saúde física e mental nas empresas.

O primeiro é ampliar o número de pessoas dentro da plataforma.

“O segundo é frequência”, diz Guerra. “Quanto maior a frequência, menor a probabilidade da pessoa parar.”

O terceiro pilar é variedade.

Segundo ele, pessoas que combinam musculação, corrida, pilates, nutrição, terapia e cuidados com sono tendem a permanecer mais tempo em atividades ligadas a bem-estar.

“Quanto maior a variação de atividades, melhor para o ser humano viver mais e viver melhor.”

O quarto ponto é o fator social.

Isso inclui familiares dentro dos programas, desafios internos entre equipes e grupos ligados a atividades específicas.

“Crossfit vira tribo. Corrida vira tribo. Beach tennis vira tribo.”

Segundo Guerra, a formação desses grupos ajuda a sustentar mudanças de hábito.

“Nós somos seres que respondemos à repetição e à conformidade.”

Ele compara esse processo ao ambiente familiar.

“Filhos de pais sedentários têm muito menos chance de se tornar adultos ativos.”

O papel da liderança

Na avaliação do executivo, líderes têm influência direta sobre a forma como equipes lidam com saúde física e mental.

“Os líderes precisam falar sobre bem-estar.”

Segundo ele, quando gestores comentam sobre corrida, academia ou hábitos ligados à saúde, esse comportamento tende a se espalhar pela empresa.

“Quando isso começa a florescer, a cultura sustenta a transformação.”

O próprio Guerra diz usar a rotina pessoal como exemplo dentro da companhia.

“Hoje de manhã eu já fiz academia, jogo tênis, corro.”

Pai de três filhos, ele afirma que tenta equilibrar viagens de trabalho e atividades ao ar livre com a família.

“Tempo de tela das crianças é porque elas não têm coisas melhores para fazer.”

IA deve ampliar distância entre profissionais

Para Guerra, a inteligência artificial deve criar uma diferença grande entre profissionais que conseguem utilizar a tecnologia e aqueles que não conseguem.

“A diferença entre alguém que consegue lidar com IA e alguém que não consegue vai ser maior do que foi inglês ou pacote Office.”

Ele acredita que o RH terá papel importante nessa adaptação.

“A IA potencializa o humano. Cada humano passa a valer mais, operar mais e fazer mais coisas.”

Ao mesmo tempo, afirma que o excesso de velocidade e informação tende a aumentar a pressão sobre trabalhadores.

“O mundo se torna mais complexo.”

Segundo ele, isso reforça a necessidade de investir em saúde mental e capacidade cognitiva.

“O bem-estar prejudica nossa memória, nosso pensamento e nossa capacidade de tomar decisão.”

Além da saúde emocional, Guerra afirma que áreas de RH passaram a lidar com novos problemas ligados à vida financeira dos funcionários.

Em 2025, segundo ele, apostas online apareceram como um dos principais temas levados aos departamentos de recursos humanos.

“O ano passado foi o ano das bets.”

Agora, afirma, o foco passou a ser endividamento.

“Tem família comprometendo 30% da renda com dívida.”

Segundo ele, isso cria um ciclo parecido com o de doenças emocionais.

“Gerir doença é caro. Melhor gerir prevenção.”

O Wellhub prepara agora novas ferramentas de inteligência artificial dentro da plataforma, incluindo um “AI Coach” para ajudar usuários a acompanhar hábitos de saúde e bem-estar.

A empresa também trabalha em integrações voltadas a desafios coletivos e formação de comunidades internas nas empresas.

“Tudo isso gera engajamento e ajuda as pessoas a seguir nessa jornada.”

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