‘O impacto no preço do gás de cozinha será zero’, diz presidente da Petrobras
Rio de Janeiro - Em meio à volatilidade provocada pelo conflito no Oriente Médio, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirma em entrevista exclusiva à EXAME, que o consumidor brasileiro não deve sentir impacto no preço do gás de cozinha, mas faz uma ressalva.
“Com o subsídio do governo federal, o impacto no preço do gás de cozinha é zero, mas para isso todas as condições de contorno precisam persistirem”, diz a presidente.
Segundo Chambriard, a Petrobras está tomando medidas para evitar qualquer repasse, mas o preço final não depende apenas da estatal.
O preço do gás de cozinha, assim como o de combustível, depende também do preço das distribuidoras, segundo a presidente, que reforça que desde 2020, quando a companhia vendeu a Liquigás, o preço das refinarias de GLP nem sempre condiz com o preço das distribuidoras, que operam de forma independente.
“As vendas das distribuidoras da Petrobras tinham a premissa de baratear o produto para o consumidor final, mas anos depois a gente vê que o que aconteceu foi o exato oposto. Foi um ônus exacerbado para a sociedade”, diz a presidente.
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Como funciona o mercado de gás de cozinha
Para entender o cenário, Chambriard detalha como o GLP é estruturado no Brasil.
O gás de cozinha mais comum é o botijão de 13 quilos, usado nas residências. Pela regulação, porém, o GLP considerado de utilidade pública inclui recipientes de 2 a 90 quilos (faixa que representa cerca de 70% do mercado).
Já o gás comercial e industrial é vendido em botijões maiores, de 90 a 250 quilos, ou a granel. Esse segmento é majoritariamente abastecido por importações. E foi justamente essa parcela que sofreu maior pressão recente.
“O que a gente tinha aqui era um gás doméstico feito em território nacional, complementado por um gás importado com um preço absurdamente impactado pela guerra Irã-Estados Unidos”, afirma a presidente.
O leilão que foi revertido
Diante da alta do gás importado, a Petrobras realizou um leilão em 31 de março para lidar com a pressão de preços. A prática, segundo a presidente, já era utilizada para evitar impacto no mercado residencial. Mas, desta vez, o movimento foi revisto para o gás industrial.
No leilão, a Petrobras vendeu um volume equivalente a 11% do consumo previsto para abril. A disputa elevou os preços rapidamente: os lances começaram com ágio de cerca de 30% sobre o valor de refinaria e chegaram a até 117% em alguns lotes, mais que o dobro do preço original.
“Nesse meio do caminho, com uma certa aflição, mais rápido do que devia ter sido, a Petrobras vai e faz um leilão”, diz. “Só que quando a Petrobras fez o leilão, ela não observou os ditames de uma regulação muito nova, de poucos dias antes, que era a medida provisória 1.349”.
A Medida Provisória nº 1.349/2026, editada em março, criou um regime emergencial para garantir o abastecimento e conter a alta do diesel e do gás (GLP). O texto autoriza a concessão de subsídios a produtores e importadores (incluindo até R$ 1,20 por litro de diesel importado) e também estabelece punições para casos de aumento abusivo de preços ou negativa injustificada de fornecimento de combustíveis. As multas podem variar de R$ 50 mil a R$ 500 milhões, além da possibilidade de interdição das instalações do fornecedor.
Com a criação dessa medida provisória, que prevê subsídio ao gás importado, a companhia mudou de estratégia.
“A gente não precisa do leilão. Pode se beneficiar do subsídio do governo federal e garantir a entrega do gás sem onerar o bolso do consumidor,” diz a presidente.
O leilão movimentou cadeiras no conselho da Petrobras nesta segunda-feira, 7, e segundo a presidente foi preciso fazer uma adaptação de perfil.
“Em momentos de crise, há pessoas que nos ajudam muito, que estão junto o tempo todo, mas nem todo mundo funciona sob pressão. E numa crise, a gente funciona sob pressão”, diz a presidente.
Devolução de valores do leilão
Além da estatal não repassar o aumento de preço para o consumidor em relação ao gás de cozinha e de contar com o subsídio do governo, a Petrobras formalizou nesta quarta-feira, 8 de abril, a aprovação da neutralização dos efeitos do leilão de GLP realizado no fim de março.
Na prática, a estatal irá devolver aos clientes a diferença entre o Preço de Paridade de Importação (PPI) e os valores ofertados no certame, além de garantir a entrega integral dos volumes contratados.
A empresa também avalia aderir ao programa de subvenção ao GLP importado, previsto em medida provisória. Caso isso ocorra, os valores cobertos pelo subsídio também poderão ser devolvidos aos clientes.
Imagem, inflação e estratégia
Mais do que uma decisão econômica, Segundo a presidente, evitar o repasse é também uma forma de conter efeitos inflacionários.
“A inflação acaba onerando todos os produtos. O Brasil é um país que tem uma memória inflacionária alta. Se aumenta o gás de cozinha, o sapato aumenta, a pasta de dente aumenta e por aí vai”, diz.
Para Chambriard, que lidera a companhia desde maio de 2024, o momento exige serenidade e coordenação entre os diferentes agentes do setor, para que empresa e sociedade atravessem a crise global com menor impacto.
“Queremos que o brasileiro enxergue a Petrobras como parceira do desenvolvimento nacional, e do seu próprio bolso.”
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