O inusitado bairro dos EUA onde carros são proibidos
Tempe, uma cidade ao leste da capital de Phoenix, no Arizona, abriga o curioso bairro de Culdesac – o primeiro bairro moderno dos Estados Unidos onde carros são proibidos.
Pontilhado por restaurantes, lojas, praças, e parques, sua arquitetura inspirada no Mediterrâneo faz com que visitantes esqueçam que estão no coração dos Estados Unidos. Uma comunidade unida resulta em churrascos mensais, academias, eventos semanais e uma animada zona comunal. Culdesac inclui até piscinas e uma clínica médica.
O website oficial do bairro, com uma área de 17 acres, detalha suas instalações: 21 negócios locais, mais de 20 plantas únicas de apartamentos, dois parques para cachorros, mais de 50 espaços destinados para churrascos e mais de três quilômetros de caminhos feitos especialmente para andarilhos e ciclistas. Além disso, residentes têm acesso a US$ 1.000 em benefícios de transporte, para circularem pela cidade além do bairro.
Sobre isso, o site diz: “Firmamos parcerias com as principais empresas de mobilidade do mundo para oferecer a você as maneiras mais acessíveis e convenientes de se locomover pela cidade. Como residente, você terá direito a viagens ilimitadas e gratuitas no metrô, viagens compartilhadas e por aplicativo gratuitas ou com desconto, além de patinetes [elétricos] da Bird a poucos passos de distância.”
Sustentabilidade
Aberto em 2023, o bairro ainda está em expansão. Quando estiver totalmente completa em alguns anos, com 760 moradias e 1.000 residentes, a comunidade sustentável poderá prevenir cerca de 3.000 toneladas de emissão de gases do efeito estufa para a atmosfera anualmente, estima a BBC.
Na mesma nota, o bairro evita o uso de ar-condicionado, essencial para a cidade, que teve 143 dias com temperaturas acima de 38 graus em 2025.
Para lidar com as temperaturas, a arquitetura e engenharia do distrito se inspiram novamente em cidades do Mediterrâneo e do México, que também enfrentam calor extremo: todos os prédios, inclusive os telhados, são pintados de branco, como as cidades em Mykonos, na Grécia. A tinta branca reflete a energia solar, resfriando o bairro.
Devido a ausência de veículos – e do espaço que eles ocupariam, como em estacionamentos – o bairro é capaz de implementar outra medida de resfriamento: ao construir os prédios lado a lado em grande proximidade, as construções fornecem sombra constante umas para as outras ao longo do dia, independentemente da posição do sol.
Uma mistura dessas medidas, juntamente com o fluxo de ar e a falta de asfalto, cria um microclima. Um estudo da Universidade de Harvard de 2023, ano de fundação do bairro, determinou que a temperatura do solo de Culdesac era de 17 a 22 graus Celsius mais baixa do que as calçadas convencionais de áreas adjacentes.
Bairro de Cuidesac, em Tempe, Arizona: carros banidos (Divulgação)
Comunidade unida
A falta de veículos e a ênfase em caminhadas e bicicletas resultam em uma comunidade mais unida, pois se encontram com frequência nas calçadas do bairro. As dezenas de negócios que operam no bairro, incluindo restaurantes mexicanos premiados e diversas lojas sustentáveis, contribuem para uma comunidade ativa. Regras especiais permitem que empresários conduzam negócios diretamente a partir de seus apartamentos, o que alimenta o empreendedorismo.
Em dias de mercado, a música ao vivo soa por entre os caminhos, aproveitando a ausência de poluição sonora causada por ruas e carros. A comunidade, unida por sua preocupação com a sustentabilidade, naturalmente cria fortes laços entre indivíduos com a mesma mentalidade, superando outro dos males, talvez menos considerados, de áreas focadas em carros: a solidão.
Com cerca de 78% dos americanos indo para o trabalho de carro, de acordo com um censo de 2023 do governo dos Estados Unidos, a interação com outras pessoas é menor. E a solidão pode ter diversos efeitos adversos na saúde, como depressão, declínio cognitivo e até mesmo doenças cardíacas.
A Dra. Stephanie Cacioppo, uma neurocientista que pesquisa os efeitos da solidão no cérebro, diz em um artigo publicado na plataforma do Instituto Nacional do Envelhecimento dos EUA:
“A angústia e o sofrimento causados pela solidão crônica são muito reais e merecem atenção. Como uma espécie social, temos a responsabilidade de ajudar nossos filhos, pais, vizinhos e até mesmo estranhos que se sentem sozinhos, da mesma forma que trataríamos a nós mesmos. Combater a solidão é nossa responsabilidade coletiva.”
Em outras palavras, uma comunidade unida e interativa é uma comunidade mais saudável. Daniel Parolek, o arquiteto por trás do bairro Culdesac, diz para a BBC:
"Assim que os carros são retirados, há muito mais oportunidades para criar uma comunidade vibrante e próspera."
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