O lugar que reconectou Porto Alegre ao Guaíba e virou um negócio de milhões — mesmo com a enchente
Na última sexta-feira de março, quem passava pelo South Summit, evento de inovação que acontece em Porto Alegre, podia testemunhar uma das cenas mais tradicionais dos gaúchos: o famoso pôr do sol com céu alaranjado — talvez a vista mais fotografada nos pampas.
E não foram poucas pessoas. Mais de 24 mil passaram pelo South Summit neste ano. E quem circula pelo evento acaba, inevitavelmente, passando pelo Cais Embarcadero, um complexo de bares e restaurantes instalado nos antigos armazéns do Cais Mauá, às margens do Guaíba, hoje um dos espaços mais movimentados da capital gaúcha.
Entre mesas cheias, música ao vivo e gente caminhando pela orla, o que se vê ali vai além de um polo gastronômico. O Cais Embarcadero virou, em poucos anos, um novo ponto de encontro da cidade — e um exemplo de como um espaço público pode ser transformado em um negócio que combina lazer, turismo e geração de receita.
Inaugurado em 2021, o complexo recebe mais de 3 milhões de visitantes por ano. E, mesmo depois de enfrentar um dos momentos mais críticos da sua história recente — as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 —, o espaço, administrado pela DC Set, não só se recuperou como voltou a crescer.
A enchente que quase parou o projeto — e acelerou sua reconstrução
Quando as águas tomaram parte de Porto Alegre em maio de 2024, o Cais Embarcadero foi diretamente impactado. O espaço ficou fechado por cerca de 200 dias, interrompendo a operação de um dos principais polos de lazer da cidade.
A resposta, no entanto, foi rápida. Em vez de esperar a resolução de questões contratuais ou de reequilíbrio econômico, os operadores decidiram reconstruir o espaço imediatamente. “Era obrigatório botar aquele negócio de pé”, afirma o CEO da DC Set, Rodrigo Mathias.
A reconstrução exigiu um investimento de aproximadamente R$ 15 milhões — um aporte relevante para um ativo que já havia passado por um processo recente de revitalização. Ainda assim, a decisão foi estratégica: manter o Cais ativo era também preservar sua relevância na cidade.
A retomada das operações aconteceu acompanhada de melhorias na infraestrutura e de uma reorganização do espaço. Mais do que recuperar o que havia sido perdido, o projeto voltou mais estruturado — e com ainda mais visibilidade. O impacto simbólico também foi importante. Em um momento em que Porto Alegre buscava se reconstruir, o Cais passou a representar não apenas um espaço de lazer, mas um sinal de retomada da vida urbana.
Qual é o modelo de negócio
O sucesso do Cais Embarcadero não está apenas na localização privilegiada ou na vista para o Guaíba. Ele está, principalmente, no modelo de operação.
Hoje, o espaço opera com uma taxa de ocupação entre 90% e 95% , o que indica um nível alto de demanda e um mix de operações bem calibrado. Restaurantes, bares e cafeterias convivem com propostas diferentes de preço e experiência, formando um ambiente que busca atender públicos variados. Essa diversidade é intencional. Por ser um espaço público, a ideia é manter uma oferta democrática. “A gente quer que seja atrativo para todos os perfis”, diz Mathias.
O fluxo, no entanto, ainda segue um padrão comum a parques e espaços abertos: maior concentração nos fins de semana. Um dos focos da operação agora é aumentar a frequência durante a semana, com eventos e ativações que incentivem o público a ocupar o espaço em outros momentos.
Eventos como o próprio South Summit ajudam a consolidar esse movimento. O Cais se tornou uma extensão natural da programação da cidade, recebendo visitantes que transitam entre negócios, lazer e turismo. Esse papel híbrido — ao mesmo tempo ponto turístico, polo gastronômico e espaço de convivência — é o que sustenta o modelo. Não se trata apenas de consumo, mas de permanência.
Quais são os próximos passos do Embarcadero
O desempenho do Cais Embarcadero abriu espaço para um novo passo: transformar o conceito em algo maior do que um único endereço. O primeiro movimento nessa direção é o Square Embarcadero, projeto que levará a lógica do Cais para outro ponto de Porto Alegre, em um formato mais urbano e integrado a um empreendimento imobiliário.
A ideia é replicar o conceito de convivência e experiência, mas adaptado a um novo contexto. “É usar a força dessa marca em um ambiente que une lazer, gastronomia, cultura e diferentes públicos”, afirma Mathias.
Apesar do interesse de outros projetos, a expansão deve ser controlada. A empresa descarta um modelo de licenciamento amplo e prefere manter a operação própria, garantindo consistência na experiência.
Isso indica que o Cais pode se tornar mais do que um espaço físico — uma espécie de plataforma de desenvolvimento urbano baseada em experiência.
Por enquanto, no entanto, o principal ativo continua sendo o próprio Guaíba. Ao fim de cada tarde, quando o céu começa a mudar de cor e as mesas se voltam para o horizonte, o Cais Embarcadero entrega aquilo que nenhuma estratégia de negócios consegue fabricar: um motivo simples para as pessoas ficarem.
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