O medo silencioso da maternidade: 42% das mães temem prejudicar a carreira ao priorizar os filhos

Por Layane Serrano 10 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O medo silencioso da maternidade: 42% das mães temem prejudicar a carreira ao priorizar os filhos

A maternidade mudou de fase, e as empresas ainda não acompanharam essa transformação. Se antes ter filhos costumava acontecer no início da vida profissional, hoje a decisão chega em um momento mais estratégico da carreira, quando muitas mulheres já ocupam posições de média liderança, lideram projetos relevantes e acumulam anos de experiência.

O grande desafio é que o mercado de trabalho continua operando sob estruturas desenhadas para trajetórias lineares, em que disponibilidade total ainda é frequentemente associada a comprometimento profissional.

Um levantamento do Infojobs revela que 42% das mães e gestantes dizem não se sentir à vontade para priorizar demandas dos filhos sem medo de prejudicar o crescimento profissional. Além disso, 30% afirmam ter percebido aumento nos questionamentos sobre horários e dedicação ao trabalho após a maternidade.

Os dados mostram que o receio de perder espaço continua presente — mesmo entre profissionais já consolidadas no mercado.

Entre as mulheres ouvidas pela pesquisa, 48% têm 35 anos ou mais. Deste total, 28% têm mais de 45 anos e 20% estão entre 35 e 44 anos. O movimento revela uma mudança importante no perfil da maternidade no Brasil: ela acontece mais tarde e em um período de maior responsabilidade profissional.

Na prática, isso amplia os impactos da chegada dos filhos na carreira.

“A maternidade passou a acontecer em momentos diferentes da carreira e isso exige que as empresas revejam não apenas políticas internas, mas a forma como enxergam desenvolvimento, permanência e crescimento profissional ao longo da vida”, afirma Ana Paula Prado, CEO da Redarbor Brasil, grupo detentor do Infojobs.

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Mulheres desaceleram a carreira por falta de suporte

O estudo também evidencia fragilidades estruturais do mercado de trabalho para mulheres com filhos. Hoje, 36% das mães e gestantes estão desempregadas e apenas 2% ocupam cargos de liderança sênior ou diretoria.

Ao mesmo tempo, muitas acabam reduzindo suas ambições profissionais por perceberem falta de apoio corporativo. Segundo a pesquisa, 25% já deixaram de se candidatar a vagas de maior responsabilidade porque entendiam que a empresa não oferecia condições para equilibrar carreira e família.

Outras 13% afirmam ter optado por se estabilizar na posição atual para conseguir conciliar as prioridades pessoais e profissionais.

O cenário cria um ciclo silencioso dentro das organizações: enquanto algumas mulheres conseguem avançar e se tornam referência, outras desaceleram a carreira diante da ausência de políticas consistentes de apoio.

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Flexibilidade e liderança inclusiva ganham peso

Na avaliação das entrevistadas, o avanço profissional após a maternidade depende menos de discursos e mais de mudanças concretas na cultura das empresas.

Mais da metade das mulheres ouvidas aponta políticas reais de flexibilidade e apoio corporativo como fator essencial para conciliar maternidade e crescimento profissional. O índice chega a 54%.

Além disso, 53% destacam a importância de lideranças inclusivas, especialmente gestores capazes de compreender que maternidade não reduz comprometimento nem potencial de entrega.

O dado reforça uma tendência crescente nas discussões sobre futuro do trabalho: o desafio das empresas não é apenas contratar mulheres, mas garantir condições para que elas permaneçam, cresçam e liderem após a maternidade.

O custo da incompatibilidade entre maternidade e carreira

Para especialistas, o problema vai além da retenção de talentos e revela uma questão estrutural do mercado de trabalho.

Quando empresas mantêm modelos rígidos de produtividade e disponibilidade, acabam empurrando mulheres para escolhas que não deveriam existir.

“Quando maternidade e carreira são tratadas como caminhos incompatíveis, todos perdem. A profissional, que vê seu potencial limitado, e a empresa, que desperdiça talento. O avanço real passa por criar estruturas de apoio para que nenhuma mulher precise escolher entre crescer no trabalho e estar presente na família”, afirma Prado.

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