O Mercado por Elas: O mercado que as mulheres estão construindo no imobiliário

Por Elisa Rosenthal 25 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O Mercado por Elas: O mercado que as mulheres estão construindo no imobiliário

Em agosto de 2019, organizei o primeiro encontro do que viria a ser o Instituto Mulheres do Imobiliário (MI), em São Paulo. Na abertura , disse que meu maior desejo era que um movimento como este não precisasse existir. Que o dia em que a causa feminina não precisasse ser elucidada seria o dia em que teríamos alcançado nosso objetivo pela equidade. Sete anos depois, não chegamos lá. Contudo, não estamos mais sozinhas.

O IMI cresceu para mais de 8 mil membros em 14 estados. E ao redor dele surgiram outros movimentos dentro das principais entidades de classe do setor. Para esta edição especial, ouvi três deles, organizados pelo Creci-Cofeci Conselho dos Corretores de Imóveis, Ibradim - Instituto Brasileiro de Direto Imobiliário e SecoviSP- Sindicato da Habitação.

O que os números dizem

Mulheres representam 54% dos profissionais do setor imobiliário (Brain Inteligência Estratégica, 2025) e mais de 40% dos corretores habilitados no país, um crescimento de 144% na última década, segundo o Cofeci. São também 52% dos interessados em compra de imóveis (DataZap, 2024).

Mas quando o olhar sobe na hierarquia, o retrato muda. Apenas 28% das profissionais percebem que os cargos de liderança são ocupados por mulheres (Datastore/Mulheres do Imobiliário). E 61% já sofreram assédio sexual, moral ou verbal no trabalho, das quais 21% não denunciaram por medo de perder o emprego.

Esses números explicam por que os movimentos abaixo existem. E por que ainda precisam existir.

A conquista mais recente é também a mais simbólica: a Resolução 1.555/2025, aprovada por unanimidade em outubro de 2025, que tornou o Cofeci-Creci o único conselho de classe no Brasil a garantir isenção de anuidade para corretoras mães: por nascimento, adoção ou em casais homoafetivos. A ideia nasceu de um encontro de mulheres corretoras em Curitiba e foi encampada pelo presidente nacional, João Teodoro.

A diretora Izabel Maestrelli destaca um diferencial estrutural que poucos conhecem: "Na corretagem de imóveis, homens e mulheres recebem exatamente a mesma remuneração — um diferencial importante em relação a outras profissões, onde a desigualdade salarial ainda chega a 30%."

Ao longo do ano, realiza dezenas de eventos em todo o Brasil, campanhas como Outubro Rosa e Novembro Azul, ações solidárias e encontros de capacitação profissional com temas como educação financeira, financiamento imobiliário e oratória. Em março, cada Creci estadual define sua própria pauta: "Seguimos na busca por equidade, respeito, e trabalho sem assédio."

A resolução de maternidade, embora histórica, já aponta para seu próximo capítulo: ainda não contempla mães que perderam o bebê durante a gestação, pois exige certidão de nascimento. A conquista é real e o caminho, também.

O grupo nasceu dentro do Instituto Brasileiro de Direito Imobiliário com um propósito preciso: fortalecer a presença feminina justamente onde as regras do setor são escritas. "Embora haja uma presença expressiva de mulheres no setor, ainda existia a necessidade de fortalecer sua visibilidade, incentivar a troca de experiências e promover oportunidades de exposição, de desenvolvimento e liderança", explica Luciana Ismael, presidente do IBRADIM, a primeira mulher a ocupar o cargo na história do instituto.

O grupo realiza ao longo do ano rodas de conversa, painéis, encontros de networking e produção de conteúdo. Em março, promove seu encontro anual que já está na 5ª edição. Neste ano, o tema foi o patriarcado, a violência contra as mulheres e a releitura dos contos de fadas. Em edições anteriores, o grupo debateu assédio, racismo estrutural e a economia do cuidado.

Sobre o impacto de mais mulheres nas mesas onde as normas são decididas, Luciana é direta: "A diversidade não é apenas uma questão de representatividade, mas um fator que qualifica o processo de tomada de decisão e fortalece o próprio desenvolvimento do setor."

Secovi-SP — Projeto de Desenvolvimento das Lideranças Femininas (lançado em novembro de 2024)

O maior sindicato da habitação do Brasil deu seus primeiros passos formais nessa pauta há pouco mais de um ano. O projeto nasceu, nas palavras da equipe, "organicamente, a partir de constatarmos a necessidade e relevância da presença de mais mulheres nas esferas de liderança."

Hoje, 56% da liderança interna do Secovi-SP é composta por mulheres. No final de 2025, duas profissionais foram promovidas a Gestoras Administrativas Estratégicas, respondendo diretamente à Presidência. Eventos como o ENACON e o "Secovi com Você" são capitaneados por mulheres.

A entidade é direta sobre onde a equidade ainda tem mais espaço a conquistar: "Os segmentos de imobiliárias e administradoras de condomínios já apresentam uma representatividade feminina maior. O setor de incorporação é onde o índice é menor e onde colocaremos esforços para equilibrar” afirma Sarah Miranda, Assessora de Empreendorismo e Inovação.

A incorporação, onde se concentram os maiores capitais e as maiores decisões do setor, segue sendo o território de menor presença feminina na liderança. Nomear isso já é um avanço.

O que essas iniciativas nos ensinam

Nenhum desses resultados veio de cima para baixo. Cada vez mais mulheres passam a acreditar que há redes, entidades e colegas que as amparam, criam ambientes cada vez mais seguros e que denunciar, em caso de assédio, vale a pena. Isso também é resultado desse trabalho.

Mas há uma fronteira que ainda não cruzamos de forma consistente: a inclusão dos homens no debate. A equidade não se constrói apenas entre mulheres: ela exige aliados que compreendam que um setor mais diverso é um setor mais forte. O IMI tem sido pioneiro nessa frente: este mês, o SOMA Leaders trouxe o tema da equidade de gênero para uma conversa com homens do setor, não como espectadores, mas como participantes ativos. A reação revelou o que já suspeitávamos: há interesse e abertura e também há ainda muito a construir juntos.

Ainda desejo o dia em que esse movimento não precise existir. Mas hoje sei que esse dia só virá quando as mulheres não precisarem mais provar que são capazes e que pertencem ao setor, e quando os homens entenderem que essa luta também é deles.

Elisa Rosenthal é fundadora e presidente do Instituto Mulheres do Imobiliário, autora de "Proprietárias" e "Degrau Quebrado", conselheira externa da ACPO Empreendimentos e colunista da Exame.

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