O mundo deles

Por Diogo Castro e Silva 23 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O mundo deles

Existe uma tentação, quando se analisam Trump, Xi e Putin, de os tratar como um fenômeno conjunto — três líderes septuagenários e disruptivos que o acaso reuniu no mesmo momento histórico. É uma leitura confortável, mas errada. O que os une não é o temperamento nem o estilo; é algo mais profundo e mais perigoso para quem toma decisões de negócio: os três governam através do espelho retrovisor, e o futuro que constroem é um reflexo idealizado de um passado com o qual cada um deles procura ajustar contas.

Xi Jinping fala compulsivamente do Século da Humilhação — o período que vai da Primeira Guerra do Ópio, em 1839, à Proclamação da República Popular, em 1949. Para Xi, esse capítulo só se fecha com a reunificação com Taiwan. Não se trata apenas de território. Trata-se da narrativa de que a China voltou ao lugar que lhe é devido no centro da ordem mundial. Taiwan é o último capítulo por escrever.

Putin olha para o fim da União Soviética — entendida não no seu conteúdo ideológico, que despreza, mas como uma continuação do Império Russo, que venera — como uma das maiores tragédias geopolíticas do século 20. A Ucrânia não é para Putin uma questão de fronteiras ou de recursos. É uma questão existencial: a própria ideia de uma nação ucraniana com identidade própria contradiz o mito fundador russo que Putin abraçou como missão pessoal. Os territórios importam menos do que apagar essa ideia nefasta.

Trump é o caso aparentemente mais mundano, mas não menos determinado. As suas convicções econômicas formaram-se nos anos 80 do século passado, quando os déficits comerciais com o Japão dominavam a agenda americana, e a ideia de que os EUA eram sistematicamente explorados pelos seus parceiros comerciais se instalou no imaginário popular. Essa leitura nunca foi atualizada. São irrelevantes para Trump os dados que mostram que os EUA prosperaram como nunca na ordem por si mesmos criada após 1945. O que conta é a narrativa da exploração — e a convicção de que a arquitetura de alianças construída ao longo de 80 anos é um fardo, não um ativo.

O que conecta esses três retratos não é apenas a psicologia. É uma consequência estrutural que transforma radicalmente o ambiente em que empresas e investidores operam: a concentração absoluta do processo de decisão e suas resultantes opacidade e imprevisibilidade.

Estamos perante aquilo que se pode chamar de um neomonarquismo. Os círculos de decisão são extraordinariamente reduzidos, a dissidência interna é sistematicamente afastada, e a capacidade do próprio Estado de produzir análise independente vai sendo minada. Isso é culturalmente mais coerente com as tradições russas e chinesas de governo. No caso dos EUA, é uma ruptura histórica com uma tradição de impessoalidade institucional que foi, ela própria, um dos fundamentos da credibilidade americana no mundo.

Os exemplos são concretos. Quando a administração Obama negociou o acordo nuclear iraniano, centenas de profissionais de diferentes departamentos estiveram envolvidos num processo de quase dois anos. O secretário de Energia era um físico nuclear. O documento final tinha 159 páginas, sem contar anexos. Nas conversações recentes com o Irã, que antecederam a guerra, os EUA estiveram representados por Steve Witkoff e Jared ­Kushner — dois homens de negócios imobiliários.

Na China, a Comissão Militar Central tinha sete membros quando Xi iniciou seu terceiro mandato, em 2022. Hoje tem dois — Xi e o general responsável pela campanha anticorrupção. Trinta e seis generais e tenentes-generais foram oficialmente purgados desde 2022; outros 65 se desconhece o destino. O cenário de uma invasão a Taiwan ficou mais próximo porque vozes contrárias nas Forças Armadas foram afastadas ou mais longe pelo impacto operacional da purga? Ninguém, suspeito, com exceção de Xi saberá dizer.

A guerra na Ucrânia foi decidida por Putin sozinho. Até quase a véspera do conflito, os próprios comandantes operacionais desconheciam que a invasão estava iminente. Do ponto de vista da análise clássica, a guerra é um desastre estratégico para a Rússia: alienou o seu principal cliente energético, alargou a Otan, provocou a fuga de cerca de 3 milhões dos seus cidadãos mais qualificados, agravou uma crise demográfica acentuada e vassalizou a relação com Pequim. Mas para Putin a guerra era necessária para recolocar a Rússia no centro da agenda geopolítica mundial e para concretizar o legado que escolheu para si mesmo.

Para empresas e investidores, o custo desta realidade não é apenas a instabilidade — é a ilegibilidade.

A análise geopolítica tradicional assenta em pressupostos que deixaram de ser válidos: que os atores estatais perseguem interesses nacionais definíveis e relativamente estáveis, que existe um processo deliberativo que filtra os impulsos dos líderes, que as instituições funcionam como amortecedores entre a psicologia individual e a decisão de Estado. Nenhum desses pressupostos se aplica hoje a Washington, Moscou ou Pequim da mesma forma que se aplicava há dez anos.

O que fica é a necessidade de análises mais psicológicas do que estruturais. Quais são as linhas vermelhas que cada um desses líderes definiu para si mesmo em razão da narrativa histórica que abraçou? Do que é que cada um deles precisa para poder chamar de vitória? Onde estão os limites do que cada um está disposto a sacrificar para não trair a missão que se atribuiu?

São perguntas menos confortáveis do que as que a análise tradicional fazia. Mas são as perguntas certas. Num mundo onde três homens com visões de mundo formadas décadas atrás tomam decisões que afetam cadeias de abastecimento, fluxos de capital e marcos regulatórios globais, a resiliência substitui a eficiência como virtude cardinal. Não porque a eficiência deixou de ser desejável — mas porque construir sistemas que dependem de um ambiente previsível se tornou uma forma sofisticada de assumir risco geopolítico sem o nomear. Estranhamente, numa altura em que deveríamos discutir o futuro, estamos — pelas mãos de Trump, Xi e Putin — presos ao passado por eles idealizado. Ou como dizia William Faulkner: “O passado nunca está morto. Nem sequer é passado”.

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