O Pão de Açúcar vai fechar? Entenda a situação financeira da varejista
O Grupo Pão de Açúcar (GPA) tem enfrentado dias turbulentos no mercado. Esta semana, a ação da companhia enfrentou sua maior queda diária desde maio do ano passado, recuando mais de 17%. Conseguiu recuperar uma boa parte dessas perdas na sessão seguinte, mas não resistiu à aversão ao risco que toma conta do mercado com os conflitos no Oriente Médio, restando pouco fôlego para zerar as perdas.
GPA (GPA/Divulgação)
Desde o ano passado, a companhia passa por uma série de mudanças, em sua estrutura acionária, de governança e executiva. Esta semana, foram anunciadas novas trocas na diretoria e no conselho de administração. Rodrigo Manso renunciou ao posto de diretor de relações com investidores, sendo substituído por Pedro Vieira Lima de Albuquerque, que acumulará a função com o atual cargo de vice-presidente executivo financeiro. Manso permanecerá na companhia como diretor não estatutário.
A empresa também informou a renúncia de Rodolpho Costa Neves Francisco ao cargo de membro do conselho de administração. A vaga permanecerá aberta até a assembleia geral prevista para março.
Como se já não bastasse tanto assunto no noticiário, o GPA também informou que fez um pedido incidental de tutela cautelar na arbitragem contra o Casino, seu ex-controlador. A varejista busca bloquear a participação de cerca de 22,5% que o grupo francês ainda detém na companhia, impedindo a venda ou transferência das ações, avaliadas em cerca de R$ 347 milhões, até que haja uma decisão final na disputa.
Além disso, a Fitch Ratings rebaixou o rating corporativo do GPA de “A”, com observação negativa, para “CCC”, movimento que aumentou a pressão sobre os papéis da companhia.
Por outro lado, animou o mercado a notícia que companhia contratou assessoria jurídica especializada em reestruturação de dívidas. O GPA assinou com o escritório Munhoz Advogados, que atua em processos de renegociação e reorganização financeira.
Nas notas explicativas das últimas demonstrações financeiras da companhia, a administração da companhia registrou a existência de condições que colocam em dúvida a capacidade de continuidade operacional do negócio.
A avaliação se ancora, principalmente, na estrutura de liquidez do grupo ao fim de 2025. Segundo o balanço, o GPA encerrou o exercício com capital circulante líquido negativo em torno de R$ 1,22 bilhão, reflexo de um volume elevado de dívidas a pagar no curto prazo. Apenas em 2026, a companhia terá de enfrentar o vencimento de aproximadamente R$ 1,7 bilhão em empréstimos e debêntures, enquanto que o caixa e os ativos de curto prazo da empresa não são suficientes para cobrir esses pagamentos sem que a companhia tome novos empréstimos.
A varejista, que controla as bandeiras Pão de Açúcar e Extra, divulgou que contratou assessoria jurídica para reforçar a liquidez da companhia, o que não afeta suas operações do dia a dia, como o relacionamento com fornecedores, clientes e parceiros. Segundo o grupo, as iniciativas incluem negociações para alongamento de prazos de dívidas financeiras, redução do custo financeiro e de despesas, além da monetização de créditos tributários.
A companhia também negou que haja qualquer discussão em andamento sobre um eventual pedido de recuperação judicial.
Os números mais recentes mostram aumento da alavancagem da empresa. A relação entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) subiu para 2,4 vezes no fim de 2025, ante 1,6 vez no ano anterior. Já a dívida líquida avançou para R$ 2,08 bilhões, frente a R$ 1,39 bilhão em 2024.
Esse cenário ocorre em meio a um ambiente desafiador para o varejo brasileiro, pressionado por taxas de juros elevadas e pelo alto nível de endividamento das empresas do setor.
Relembre a disputa entre GPA e Casino
A controvérsia tem origem em autos de infração da Receita Federal relacionados à suposta dedução indevida de amortizações de ágio no IRPJ dos anos-calendário de 2007 e 2013. A cobrança estimada é de R$ 2,55 bilhões — valor que representa mais da metade das contingências fiscais provisionadas pelo GPA.
O ágio, nesse caso, refere-se ao valor adicional pago em aquisições societárias, que pode ser amortizado e deduzido para fins fiscais. A Receita contesta essas deduções. O GPA sustenta que os procedimentos foram realizados de forma regular e afirma que defenderá sua posição nas esferas administrativa e judicial.
A disputa ganhou novo capítulo em abril de 2025, quando o Casino comunicou que as garantias anteriormente prestadas em favor do GPA nesses processos fiscais deixariam de ser exigíveis, em razão de seu plano de salvaguarda na França — mecanismo semelhante a uma recuperação judicial.
Sem as garantias, o GPA iniciou, em maio de 2025, uma arbitragem na Corte Internacional de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional (CCI) para preservar seus direitos. O objetivo é assegurar que, caso a companhia venha a ser condenada de forma definitiva a pagar os tributos, possa ser ressarcida pelo ex-controlador.
Agora, ao pedir a tutela cautelar, a varejista tenta proteger o que chama de “resultado útil do processo”. Em outras palavras, busca evitar que o Casino se desfaça de ativos no Brasil antes do desfecho da arbitragem.
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