O paradoxo do Trump Phone: nacionalista por fora, chinês por dentro
O smartphone T1, lançado pela Trump Mobile, parece ser uma versão do HTC U24 Pro, modelo apresentado pela taiwanesa HTC em 2024, segundo análise do engenheiro Shahram Mokhtari. A avaliação foi publicada nesta semana e comparou a estrutura interna dos dois aparelhos.
O T1 foi anunciado em maio deste ano. À Reuters, Pat O’Brien, CEO da Trump Mobile, afirmou que os aparelhos seriam os primeiros dispositivos montados nos Estados Unidos e que a empresa poderia lançar, no futuro, um smartphone com a maior parte dos componentes produzida no país.
Segundo Mokhtari, a semelhança pode ser explicada pelo uso de um ODM, sigla em inglês para Original Design Manufacturer, fabricante responsável por projetar e produzir dispositivos para outras marcas.
Na avaliação dele, o U24 Pro provavelmente usou um fornecedor chinês desse tipo sem adquirir exclusividade sobre o design, o que teria permitido o reaproveitamento do projeto no T1.
Algumas caixas do U24 Pro trazem a etiqueta “produzido na China”, segundo o The Verge. Fora das grandes empresas de hardware, como Apple e Huawei, é comum que fabricantes de celulares recorram a ODMs para desenvolver e fabricar seus aparelhos.
Ao abrir e escanear os dois celulares, Mokhtari afirmou que a parte interna dos modelos é quase exatamente a mesma. O formato, a disposição dos componentes, a posição dos parafusos e até os lacres antiviolação coincidem, segundo o engenheiro.
A semelhança também apareceu na placa-mãe. De acordo com a análise, a placa do HTC funcionou no T1, indício de que os dois aparelhos usam a mesma base eletrônica. Ambos contam ainda com o SoC, sigla para System on Chip, da Qualcomm Snapdragon 7 Gen 3.
Diferenças aparecem na memória e na bateria
Apesar da estrutura semelhante, há diferenças em alguns componentes. O encapsulamento que reúne memória e armazenamento não é o mesmo: o U24 Pro usa pacote da SK Hynix, enquanto o T1 utiliza Micron, com 12 GB de memória e 512 GB de armazenamento.
Para Mokhtari, essa diferença não muda substancialmente a conclusão da análise. Ela pode estar ligada a limitações da cadeia de suprimentos, aos efeitos de tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ou a outros motivos considerados corriqueiros pelo engenheiro.
A principal diferença identificada por Mokhtari está na bateria: o T1 tem 19,35 Wh, enquanto o HTC U24 Pro tem 17,23 Wh. O carregamento também muda. O T1 oferece 30 W, enquanto o modelo da HTC chega a 60 W.
O engenheiro também questionou a ficha técnica do T1, que informa tela de 6,78 polegadas. Para ele, o painel parece idêntico ao do U24 Pro, de 6,8 polegadas, embora possa haver uma pequena diferença que não foi possível medir.
Montagem nos Estados Unidos depende de critérios regulatórios
O site da Trump Mobile descreve o T1 como um produto de “performance premium, orgulhosamente americano” e com “design orgulhosamente americano”. A formulação evita afirmar diretamente que o aparelho é integralmente produzido nos Estados Unidos.
Nos EUA, a Comissão Federal do Comércio regula o uso de alegações como “feito nos Estados Unidos”. Pelas regras citadas pelo The Verge, para um produto ser considerado fabricado no país, seus componentes precisam ser substancialmente produzidos ali, o que encareceria significativamente um celular.
A regra é menos objetiva quando a alegação envolve montagem. Para que um produto seja considerado montado nos Estados Unidos, os critérios passam por uma montagem principal e substancial no país, ponto que pode se tornar central para a forma como a Trump Mobile apresenta o T1 ao mercado.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: