O Paraguai que chega à copa: Itaipu, agronegócio e a economia do nosso vizinho
O Paraguai, vizinho do Brasil, não é conhecido como uma equipe formidável nos gramados. Apesar de nunca terem levantado a taça da Copa do Mundo, qualificaram-se para uma miríade de edições e, em sua melhor performance, chegaram às quartas de final em 2010. Esse ano, no Grupo D, enfrentarão os EUA nesta sexta-feira, 12, às 22h, e também competirão com a Austrália e a Turquia na fase de grupos. Regionalmente, conquistaram dois títulos da Copa América.
Para além das arenas, o Paraguai é, todavia, uma das economias que crescem mais rapidamente na América Latina.
Em 2025, registrou sua maior taxa de crescimento no PIB em 12 anos: 6,6%. No ano passado, todos os setores reportaram lucro, liderados pelo agronegócio, energia, serviços e construção, de acordo com um comunicado do Banco Central paraguaio.
A figura foi maior do que as expectativas: as previsões da Bloomberg haviam estimado o crescimento do país em 5,8%. Em comparação, a média do crescimento médio do PIB na América do Sul em 2025 foi de 2,9% — por sua vez, o Brasil registrou uma expansão de apenas 2,3% no ano passado.
Crescimento econômico e Itaipu
Usina hidrelétrica de Itaipu fornece o Brasil e o Paraguai com energia, investimentos e lucro (diegograndi/envato)
O recorde paraguaio fecha, com chave de ouro, três anos consecutivos de rápido crescimento, de quase 5% por ano, alimentado pela demanda doméstica e pelas exportações de soja e de carne.
O acordo do Mercosul com a União Europeia promete melhorar ainda mais as perspectivas paraguaias, já que seus produtos terão acesso inédito aos mercados europeus.
E a boa fase não é de hoje: nos últimos 20 anos, a pobreza no Paraguai caiu de mais de 50% para apenas 16% em 2025, segundo dados do Banco Mundial.
Nessas duas décadas, um terço da população do país saiu da linha da pobreza, definida pela ONU como renda inferior a US$ 3 por dia, com outros 300 mil superando essa condição somente nos últimos dois anos.
Por trás dessa superação estão políticas do governo centradas em emprego e produtividade — o aumento dos salários foi o principal motor da redução da pobreza, apura o Banco Mundial, com os maiores lucros concentrados na parcela mais pobre da população.
" O progresso do Paraguai tem se concentrado nos fundamentos da criação de empregos: infraestrutura que reduz custos, aumenta a produtividade e permite que as pessoas se conectem à crescente geração de valor econômico; um marco regulatório que permite que as empresas invistam e incentiva a criação de empregos; e programas que fortalecem as capacidades dos trabalhadores, diz um relatório do Banco Mundial."
A infraestrutura que expande o acesso à energia e conecta a atividade econômica é fundamental para a criação de empregos e o estímulo à economia. No cerne desse âmbito está a usina hidrelétrica de Itaipu, coadministrada pelo Brasil e pelo Paraguai e localizada em Foz do Iguaçu, no Paraná.
O Paraguai consome cerca de 30% da energia produzida pela usina, o que corresponde a quase 80% de toda a energia consumida no país, e vende o restante ao Brasil.
Além da energia limpa e acessível, Itaipu também é uma importante fonte de lucro para ambos os países. Segundo informações do site oficial da represa, Itaipu Binacional, somente em 2024 a represa gerou US$ 14,5 bilhões em royalties para as tesourarias do Paraguai e do Brasil, dos quais US$ 1,2 bilhão foram distribuídos diretamente entre seis estados e mais de 300 municípios. Além disso, milhares de turistas que visitam a represa todo ano também contribuem para os lucros binacionais.
Segundo o Banco Mundial, o foco do país em energia limpa, devido à represa, atrai investimentos estrangeiros em manufatura e indústrias verdes.
Alinhados com os EUA e rivais da China
Santiago Peña, presidente do Paraguai, busca abrir sua nação ao investimento estrangeiro, e se alinha principalmente com a administração de Donald Trump (Paolo Blocco/Getty Images)
Eleito em 2023, o presidente conservador do Paraguai, Santiago Peña, busca transformar o pequeno país em um polo de investimentos internacionais, atraindo investidores e empreendedores com a promessa de baixos impostos.
Em 2025, as solicitações de status de residente no Paraguai por estrangeiros aumentaram 60%, reporta a Bloomberg, à medida que a infraestrutura cresce para acomodar as novas indústrias.
“Antes éramos como a garota mais feia do baile”, disse à mídia Selene Rojas, diretora do sofisticado Shopping del Sol, no distrito financeiro da capital. “Hoje, todo mundo nos chama para dançar.”
Enquanto isso, investidores de Wall Street estão comprando títulos paraguaios à medida que Peña se alinha cada vez mais à administração de Trump. O presidente fez mais de 50 viagens ao exterior em busca de melhores laços comerciais e à procura de investidores.
“O Paraguai tem sido um grande amigo nosso”, disse o subsecretário de Estado Christopher Landau, segundo a Bloomberg. O diplomata americano, citando o histórico de votações do país nas Nações Unidas e o reconhecimento contínuo de Taiwan, acrescentou: “Eles não estão dançando conforme a música da China”.
Mesmo assim, o Brasil segue sendo o principal ator estrangeiro no Paraguai, representando cerca de metade das 50 mil aplicações de residência do ano passado. De acordo com dados do Banco Central do Paraguai, a participação do Brasil no investimento estrangeiro direto no país subiu para cerca de 15% no final de 2024, ante menos de 12% quatro anos antes.
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