O plano do Carrefour para fazer o cliente do Atacadão comprar no hipermercado — e vice-versa
Um cliente do Carrefour faz a compra grande do mês num atacarejo, mas não é no Atacadão. Outro enche o carrinho no Atacadão toda semana, mas raramente pisou num hipermercado da rede.
Para o Carrefour Brasil, dono das duas bandeiras, os dois casos são o mesmo problema: o consumidor já está dentro do ecossistema, mas circula por ele pela metade.
Resolver isso é a aposta por trás do Nosso Clube, programa de fidelidade que o grupo lança nesta terça-feira, 1º de julho, primeiro na Paraíba e em Pernambuco. A proposta é dar ao cliente cashback que vale de forma cruzada entre as bandeiras. O que ele acumula no Carrefour pode gastar no Atacadão, e vice-versa.
Entram no programa as lojas físicas das duas redes, além dos postos de combustível, das drogarias e do e-commerce. São 50 unidades nos dois estados no arranque.
O lançamento chega depois de um ano em que o grupo passou a tratar suas bandeiras menos como negócios separados e mais como peças de um mesmo ecossistema. O Carrefour já tinha integrado os cartões de crédito das duas redes em 2024, num primeiro movimento de transversalidade. O cashback é o passo seguinte. E, segundo a empresa, o início de uma plataforma que pretende ganhar novas funções nos próximos anos.
"No último ano, temos trabalhado para avançar cada vez mais na jornada de simplificação do nosso ecossistema e, consequentemente, na experiência de compra dos nossos mais de 60 milhões de clientes mensais", afirma Pablo Lorenzo, CEO do Grupo Carrefour Brasil, em entrevista à EXAME.
Daqui pra frente, a ambição é ampliar o programa de forma gradual para os outros estados até o fim de 2028.
Qual é a estratégia por trás
A lógica do Nosso Clube parte de uma constatação simples sobre o consumidor brasileiro. Ele transita entre formatos conforme o momento: o atacarejo para a compra grande do mês, o hipermercado para o item específico, a loja de proximidade para a emergência, o digital para a conveniência. É o mesmo cliente em situações diferentes.
Até agora, porém, o grupo tratava cada um desses canais com uma estratégia própria: uma para o Carrefour, outra para o Atacadão, outra para o Sam's Club.
O Nosso Clube nasce da tentativa de criar uma camada que atravesse as três bandeiras sem dissolver o que cada uma tem de específico. Segundo Lorenzo, a ideia foi manter a essência de cada formato e, ao mesmo tempo, dar ao cliente um motivo para circular mais por todos eles.
O nome carrega essa intenção. A aposta da companhia é num traço cultural: o brasileiro gosta de pertencer a clubes — a família, o time de futebol, a torcida em Copa do Mundo. "Clube" foi escolhido para evocar esse sentido de pertencimento e funcionar como guarda-chuva sobre operações que, no dia a dia, o cliente nem sempre associa umas às outras.
IA, dados e retail media
Por trás da promessa de "experiência personalizada" há um objetivo de negócio mais direto. O clube dá ao grupo uma visão única do cliente: o que ele compra, em qual formato, com qual frequência.
Com esse retrato consolidado, a empresa pretende usar inteligência artificial para ajustar ofertas a cada perfil e, na ponta comercial, ganhar força na negociação com fornecedores e no retail media, a venda de espaço publicitário dentro dos canais do varejista.
Esse é o ponto em que fidelidade e receita se encontram. Quanto mais o grupo conhece o cliente, mais consegue cobrar de marcas que querem alcançá-lo. E quanto mais o cliente circula entre bandeiras, mais completo fica esse retrato.
Lorenzo aponta ainda uma motivação defensiva. Hoje, um cliente que compra no Carrefour pode estar fazendo a compra grande do mês num atacarejo concorrente. Trazer essa jornada para dentro do próprio ecossistema, em vez de deixá-la escapar, é parte do que a empresa espera ganhar ao conectar as bandeiras.
Promoções para direcionar fluxo
O desenho do programa permite à companhia usar o clube para empurrar clientes na direção que interessa em cada momento. Uma semana pode trazer desconto na linha de bazar do hipermercado para incentivar visitas àquele formato; a seguinte, uma oferta voltada ao atacarejo.
É aí que o clube se conecta a um movimento maior dentro do grupo. Nos últimos anos, o Carrefour vem aproximando suas bandeiras e unificando estruturas para ganhar eficiência. O Nosso Clube é a face dessa estratégia voltada ao cliente, a camada de marketing e relacionamento que se apoia numa operação cada vez mais integrada por baixo.
O lançamento acontece num momento em que o poder de compra do brasileiro segue pressionado por juros altos e endividamento. Para Lorenzo, chegar ao fim do mês é um desafio para boa parte dos consumidores — e a resposta do varejo passa por eficiência e acessibilidade.
Sob essa lógica, o cashback se soma a outras frentes do grupo, como a aposta em marcas próprias, todas voltadas a oferecer preço mais competitivo a um cliente que conta cada real.
A meta declarada é ambiciosa: transformar o Nosso Clube numa das maiores plataformas de fidelização do varejo da América Latina, conectando os mais de 60 milhões de clientes que passam pelas bandeiras do grupo todo mês. O caminho até lá, porém, depende de um rollout que só termina em 2028 e de um cliente que precisará se acostumar a uma nova forma de acompanhar promoções e benefícios.
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