‘O problema não é o crédito, é o juro muito alto’, diz economista-chefe do Santander

Por Rebecca Crepaldi 14 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
‘O problema não é o crédito, é o juro muito alto’, diz economista-chefe do Santander

A economia global entrou em uma nova fase de juros estruturalmente mais elevados, mas o Brasil, na visão de Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, adiciona camadas próprias de distorção a esse cenário – e o brasileiro sente isso no bolso.

“O problema não é ter penetração de crédito na sociedade, o problema é ter juros muito altos [...] Mas o fato é que temos famílias muito endividadas”, diz a executiva no 19º Congresso de Meios Eletrônicos de Pagamento (CMEP) da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).

Segundo ela, nesse momento, principalmente com os choques inflacionários vindo da Guerra do Irã e dos Estados Unidos, o mundo irá conviver com juros mais altos. Por aqui, “o Brasil amplifica esse problema por questões fiscais e estruturais”. O ambiente internacional já é mais restritivo, mas o país convive com pressões adicionais ligadas ao equilíbrio das contas públicas e à dinâmica de demanda doméstica.

Vescovi também avalia que o ciclo recente de aperto monetário cumpriu um papel importante na recomposição de credibilidade e no controle das expectativas de inflação nos últimos anos. “O Banco Central realizou um choque de juros para uma desinflação importante, o que gerou um ganho de confiança, de credibilidade com a sociedade”, disse.

Ainda assim, ela ressalta que choques inflacionários, principalmente a alta do petróleo decorrente da guerra. tendem a desancorar expectativas e exigem resposta da autoridade monetária.

“O mundo vai conviver com juros mais altos, inclusive o com o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) podendo não baixar mais juros nesse ano.”

Por que o Brasil tem juros tão altos?

Mesmo com avanços pontuais, como a Reforma da Previdência, Vescovi avalia que parte do esforço fiscal foi neutralizada por novas pressões de despesa ao longo do tempo.

Ela cita, por exemplo, a ampliação de gastos em áreas como educação, como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), sem que os efeitos de longo prazo sobre produtividade e eficiência tenham se materializado de forma clara no período recente.

Nesse contexto, o peso do serviço da dívida se tornou um dos principais componentes do orçamento público. Segundo a economista, o Brasil convive hoje com um custo elevado de juros que consome uma parcela significativa da renda nacional, limitando o espaço para outras políticas públicas e investimentos.

O resultado é um ambiente em que a política monetária e o cenário fiscal se retroalimentam: o desequilíbrio das contas públicas pressiona os juros, enquanto os juros elevados ampliam o custo da dívida e reforçam as restrições fiscais. Nesse contexto, a manutenção de taxas mais altas se torna, na visão da economista, uma consequência direta de fragilidades estruturais ainda não resolvidas.

Por conta disso, o Santander revisou sua expectativa de inflação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 3,7% para 4,5% neste ano – convergindo para 4% no ano que vem. “Esparamos normalização no preço do petróleo”, diz a economista-chefe.

Já a Selic para 2026 está em 12,50% com “cara mais altístia”, e 12% no ano que vem. Mas os fluxos estrangeiros que estão entrando no Brasil são importantes para aliviar o custo de bens. “Isso pode ser um fator de alivio e abertura de espaço para o BC”, conclui.

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