O projeto de R$ 350 milhões que promete renovar antiga área portuária no sul do Brasil

Por Guilherme Gonçalves 24 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O projeto de R$ 350 milhões que promete renovar antiga área portuária no sul do Brasil

Há lugares que resumem o passado e o futuro de uma cidade. Em Porto Alegre, o Cais Mauá é um deles. A antiga área portuária fica às margens do Guaíba, rio que banha a capital gaúcha, e que voltou a ser protagonista após a enchente de 2024. A tragédia climática mudou o cenário da concessão e obrigou o consórcio vencedor, o Pulsa RS, a rever a estrutura financeira e operacional do projeto.

Agora, o grupo afirma estar pronto para assinar o contrato com o governo do Rio Grande do Sul e propôs que isso ocorra ainda em maio.

“Estamos trabalhando para devolver esse espaço para o público. Queremos que o Cais borbulhe de gente”, afirma Sérgio Stein, porta-voz do consórcio.

Qual é o tamanho da aposta

O projeto envolve 12 armazéns, três docas e cerca de 3 quilômetros de extensão, em uma concessão de 30 anos. O edital prevê R$ 210 milhões em investimentos, podendo chegar a R$ 353 milhões com manutenção. O consórcio ainda terá de desembolsar R$ 11 milhões logo após a assinatura e outros R$ 5 milhões na sequência.

A ambição também aparece na projeção de público. Hoje, o Cais Embarcadero — espaço com restaurantes que opera em parte do Cais Mauá — recebe cerca de 3 milhões de visitantes por ano.

Parte do otimismo com este local vem da realização do South Summit — evento que leva, anualmente, milhares de pessoas para o Cais. O desempenho do Embarcadero, que virou um dos principais pontos turísticos de Porto Alegre, também anima investidores. Inaugurado em 2021, o espaço de gastronomia ficou fechado por mais de 200 dias após a enchente de 2024 e exigiu cerca de R$ 15 milhões em reconstrução.

Stein cita isso como prova de demanda. Segundo ele, estudos antigos projetavam 250 mil visitantes mensais para o Embarcadero. Hoje, o fluxo estaria entre 260 mil e 265 mil.

“A gente estima que o número de 250 mil pessoas por mês possa chegar a superar 1 milhão”, afirma Stein.

Segundo o porta voz do consórcio, o Embarcadero seguirá no projeto e vai operar como inquilino dentro da nova configuração do complexo. A aposta é que a chegada de feiras, congressos e shows reforce o fluxo e aumente as receitas da operação gastronômica.

“É um movimento ganha-ganha”, afirmou Stein.

O que o consórcio quer fazer

A proposta do Pulsa RS é transformar o Cais em um polo de entretenimento, gastronomia, cultura, feiras, congressos e grandes eventos, com operação contínua ao longo do ano.

Uma das inspirações para o projeto é o Puerto Madero, antiga área portuária de Buenos Aires, que tornou-se um dos pontos turísticos mais visitados da Argentina depois da revitalização.

“Não é um negócio que a gente quer fazer. É uma apropriação de um espaço público”, disse Stein. “A ideia é trazer o gaúcho, trazer o turista para dentro do nosso espaço, que é basicamente um parque público”.

Entre os equipamentos previstos está uma casa de espetáculos para 4 mil pessoas, além de áreas para eventos corporativos e ativações. O objetivo é fazer o espaço funcionar em vários horários: shows à noite e nos fins de semana; feiras e congressos durante o dia e em dias úteis.

O projeto está sendo desenvolvido em parceria com a Space Hunters, empresa especializada em análise de mercado com atuação em expansão de negócios e investimentos imobiliários.

"Encaixando o Embarcadero dentro do complexo do novo Cais traz o potencial de 'abraçar' o desenvolvimento imobiliário que estamos vendo na área central, trazendo mais investimentos", diz Francisco Zancan, arquiteto e sócio da Space Hunters.

Assim está o Cais Mauá atualmente: armazéns serão restaurados para receber centro de eventos e restaurantes (Gustavo Mansur / Palácio Piratini /Divulgação)

Além da programação, o consórcio fala em transformar a área em um parque urbano, com arborização, áreas de estar, segurança, banheiros, vestiários, bicicletários e acessibilidade, incluindo conexões com o Mercado Público e a rodoviária.

“A ideia é transformar o Cais em um parque, na sala de estar do porto-alegrense”, disse Stein.

O restauro dos armazéns deve ocorrer em três etapas. “É um restauro, não é uma reforma”, afirmou. Uma das primeiras entregas previstas é o pórtico central, que será restaurado e entregue à Secretaria da Cultura do RS. Nas áreas em melhores condições, próximas ao Embarcadero, a intenção é começar a ativação mais cedo.

Depois da enchente, a prioridade técnica passou a ser outra: a primeira obra deve ser uma nova estrutura de contenção entre os armazéns e o rio. Só depois disso o governo deverá decidir sobre a retirada parcial do Muro da Mauá.

“A gente ainda tem que proteger primeiro antes de pensar em tirar alguma outra coisa”, disse.

Como a enchente mudou os planos

A enchente alterou a lógica do projeto. Investidores saíram, novos parceiros precisaram ser buscados e a prorrogação do contrato do Embarcadero mexeu no plano de negócios e na execução da obra. Em março, o Pulsa RS pediu adiamento de até 90 dias para a assinatura, como permite o edital.

O consórcio diz ter se reorganizado, com empresa de propósito específico já constituída e novos parceiros para sustentar a largada. Entre os nomes já citados publicamente estão a Opus Entretenimento, na área de eventos, e a Aegea, dona da Corsan, além de grupos ligados a mobilidade e energia renovável.

O Pulsa RS quer começar a ativar espaços disponíveis antes mesmo do início integral das obras, com uma agenda inicial de eventos na Copa do Mundo — caso o contrato com o governo gaúcho seja assinado. Ao mesmo tempo, terá de avançar em projetos executivos, aprovações e obras estruturais.

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