O que aconteceu com a Victor Hugo, marca de bolsas desejo nos anos 90
Nos anos 1990, bastava reparar um pouco nos looks das pessoas em um shopping ou evento de alto padrão para perceber o monograma "VH" sendo carregado nos braços. Ter uma bolsa da Victor Hugo era, para muitas brasileiras, um sinal claro de status.
Não era para menos: a grife brasileira ascendeu rapidamente e se tornou um dos principais símbolos de luxo nacional nas décadas de 1990 e 2000, circulando entre editoriais de moda e sendo sempre avistada nos braços de socialites, atrizes, apresentadoras e mulheres de destaque na época.
No entanto, agora, a Victor Hugo enfrenta um processo de falência. A Justiça do Rio de Janeiro abriu o procedimento em fevereiro de 2026 após pedidos da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) e da Procuradoria do Estado do Rio de Janeiro (PGE-RJ). A dívida fiscal chega a cerca de R$ 1,2 bilhão, segundo informações do Valor Econômico.
De feira hippie a grife de luxo
A marca nasceu no Rio de Janeiro, quando o uruguaio Victor Hugo Alves Gonzales começou a vender acessórios artesanais de porta em porta e na Feira Hippie de Ipanema, em meados dos anos 1970. Nessa época, ele já trabalhava com algumas marcas conhecidas.
Com o nome já bem estabelecido, ele decidiu montar uma pequena loja em 1975, na então Rua Montenegro — hoje rua Vinícius de Moraes. Nas prateleiras, estavam bolsas e carteiras de couro com acabamento sofisticado e design limpo. Um dos primeiros modelos vendidos, um "baú com alças", custava cerca de 300 dólares na época.
O negócio cresceu rapidamente e, em poucos anos, a marca já havia chegado na rua Oscar Freire, em São Paulo, além de shoppings e galerias de alto padrão. Na década de 1980, a Victor Hugo já contava com 12 lojas e se oficializava como uma grife de luxo "made in Brazil".
O símbolo de status dos anos 90
Foi na década de 1990 que a Victor Hugo atingiu seu ápice em meio às marcas de luxo aqui no Brasil. Seu diferencial estava no posicionamento: o grupo vendia produtos sofisticados, feitos em couro, mas com preços abaixo das grandes grifes europeias.
A estratégia funcionou. O monograma metálico "VH", inspirado no estilo das maisons internacionais, ajudava a criar a imagem premium buscada pelas consumidoras, por um preço mais acessível do que o das grifes estrangeiras.
Também é preciso lembrar que o cenário era outro. Nessa época, o comércio eletrônico praticamente não existia como hoje e comprar produtos de luxo internacionais era mais difícil. Importações envolviam custos altos, burocracia e, muitas vezes, viagens ao exterior, o que virou uma oportunidade para as marcas nacionais, como a Victor Hugo, ocuparem esse espaço de desejo.
A marca apareceu em revistas de moda, ganhou vitrines em shoppings de alto padrão e passou a circular entre celebridades. Em pouco tempo, a Victor Hugo virou uma marca desejada. Para se ter uma ideia, no auge, o grupo chegou a ter mais de 70 lojas franqueadas no Brasil e até uma unidade em Nova York.
Perdendo força
Com a virada do milênio, porém, a história começou a mudar. A partir de 2002, o grupo passou por uma série de alterações societárias e a marca foi transferida para empresas registradas no exterior — primeiro no Uruguai e depois em Belize, dois países conhecidos por abrigar empresas offshore.
Ao longo dos anos seguintes, o grupo fez dezenas de mudanças societárias. Segundo procuradorias, essas alterações acabaram dificultando a cobrança das dívidas de impostos.
Em 2019, a Justiça determinou o bloqueio de bens e pagamentos, além de proibir a venda da marca, por causa de dívidas que já ultrapassavam R$ 300 milhões. Mesmo assim, a operação continuou. Enquanto isso, o número de lojas encolheu: de mais de 70 no auge para cerca de 19.
Além das disputas fiscais, o próprio mercado de luxo também mudou, o que acabou pesando para a Victor Hugo. Nas últimas duas décadas, mais grifes internacionais passaram a disputar espaço no Brasil. Ao mesmo tempo, o consumidor ficou mais aberto a novidades, tanto em relação a marcas quanto a estilos e materiais.
A Victor Hugo, por outro lado, manteve por muito tempo a mesma proposta, focada em bolsas clássicas de couro. Para alguns analistas, mesmo com tantas mudanças, a gestão da empresa permaneceu bastante concentrada nas decisões do fundador, com menos renovação na estrutura do negócio ao longo do tempo, o que pode ter dado à marca um ar de estagnação.
Vale dizer, no entanto, que a Victor Hugo ainda ocupa um lugar particular na memória da moda local, sendo muito lembrada como uma das primeiras grifes de luxo criadas no Brasil com reconhecimento nacional e força para disputar com marcas estrangeiras.
Hoje, muitas bolsas da Victor Hugo dos anos 1990 e 2000 ainda aparecem em brechós e marketplaces. Em parte, porque carregam um pedaço desse imaginário.
Processo de falência e dívida bilionária
Em fevereiro de 2026, a Justiça do Rio abriu um processo de falência contra o grupo Victor Hugo. A dívida com impostos gira em torno de R$ 1,2 bilhão — cerca de R$ 900 milhões com o governo federal e mais de R$ 355 milhões com o Estado do Rio de Janeiro.
A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional classificou o grupo como "devedor contumaz", termo usado quando a inadimplência fiscal passa a ser recorrente e estruturada.
Mesmo com o processo em andamento, a Justiça permitiu que as lojas continuem funcionando sob nova gestão, para preservar empregos enquanto o caso é analisado.
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