O que é o Zelle, o sistema de pagamento instantâneo mais popular dos Estados Unidos?

Por Rebecca Crepaldi 4 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O que é o Zelle, o sistema de pagamento instantâneo mais popular dos Estados Unidos?

O Brasil tem o Pix. Os Estados Unidos têm o Zelle. Pelo menos é assim que a comparação costuma ser apresentada. Porém, ela esconde diferenças fundamentais que explicam por que o sistema americano, apesar de pioneiro, nunca teve a adesão em massa que o brasileiro conquistou em poucos anos.

Agora, o Pix está sob a mira dos EUA. A tensão ganhou novo capítulo nesta semana. Na segunda-feira, 1 de junho, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu uma investigação de quase um ano sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil e propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.

Entre os principais alvos do relatório: o Pix. O documento acusa o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central de ser "injusto e discriminatório" com empresas americanas; entre as quais estão Visa, Mastercard e WhatsApp Pay.

Para entender por que o Zelle está no centro dessa disputa, é preciso entender como ele funciona e por que o Pix incomoda tanto Washington.

O que é o Zelle e como ele surgiu?

O Zelle é um serviço de transferência instantânea entre pessoas (peer-to-peer, ou P2P) lançado em 2017 nos Estados Unidos. Ele permite enviar e receber dinheiro diretamente de uma conta bancária para outra, em minutos, a qualquer hora do dia — inclusive fins de semana e feriados.

Diferente de aplicativos como o Venmo ou o PayPal, o Zelle não funciona como uma carteira digital separada: o dinheiro sai diretamente da conta de quem envia e cai diretamente na conta do destinatário, sem nenhum saldo intermediário acumulado em um app.

Hoje, o serviço está integrado aos aplicativos de mais de 2.200 instituições financeiras nos Estados Unidos. Na prática, isso significa que a maioria dos americanos com conta em banco já tem acesso ao Zelle sem precisar baixar nada — basta acessar o próprio internet banking.

Quem controla o Zelle?

Essa é uma das diferenças mais importantes em relação ao Pix. Enquanto o Pix é administrado pelo Banco Central do Brasil — uma autoridade pública, com regras uniformes para todo o sistema financeiro —, o Zelle é operado por uma rede de bancos privados americanos.

Não há uma autoridade central pública por trás do Zelle. As regras de uso, as eventuais tarifas e as condições de acesso são definidas por cada instituição financeira parceira de forma independente. Isso torna a experiência do usuário menos padronizada e, em alguns casos, mais imprevisível.

Usar o Zelle tem custo?

Para a grande maioria dos usuários, não. De acordo com pesquisa do terceiro trimestre de 2024, 99,44% das contas correntes e de poupança vinculadas ao serviço não cobram taxas para enviar, receber ou solicitar dinheiro.

Mas há um detalhe relevante: essa isenção não é uma regra do sistema — é uma política de cada banco. O Pix brasileiro, por determinação do Banco Central, é obrigatoriamente gratuito para pessoas físicas em qualquer instituição. No Zelle, nada impede que um banco decida cobrar pelo serviço no futuro. É exatamente essa distinção — a gratuidade compulsória do Pix — que consta como um dos pontos de crítica no relatório do USTR.

Por que o Pix incomoda os Estados Unidos?

O relatório do USTR divulgado esta semana é direto: o Banco Central do Brasil exerce um "papel duplo" ao ser simultaneamente regulador e operador do Pix, o que, segundo o documento, "cria um conflito de interesses na ausência de salvaguardas processuais adequadas".

A resposta do governo brasileiro veio rápida. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, refutou publicamente os argumentos: "O Pix não é pensado para ser um produto que vai concorrer e vai diminuir a presença na economia de empresas. Ao contrário, empresas norte-americanas mesmas têm nos dito, e a gente tem levado isso aos Estados Unidos, que o Pix aumentou as transações no país. Então, as empresas estão sendo beneficiadas."

O presidente Lula foi ainda mais categórico. Em evento realizado em abril, antes da conclusão da investigação, ele disse: "O Pix é do Brasil e ninguém vai fazer a gente mudar o Pix, pelo serviço que ele está prestando à sociedade brasileira."

O prazo para que o governo brasileiro e empresas afetadas se manifestem sobre o relatório final do USTR é 15 de julho de 2026, data em que os EUA poderão adotar "medidas corretivas" contra o Brasil.

Zelle e Pix são a mesma coisa?

Não. A comparação é compreensível, já que os dois são sistemas de transferência instantânea, mas as diferenças estruturais são profundas — e são essas diferenças que estão no centro da disputa comercial atual.

O Pix é uma infraestrutura pública e interoperável: qualquer pessoa com conta em qualquer banco, fintech ou cooperativa de crédito regulada pelo Banco Central pode enviar e receber Pix, independentemente de onde o destinatário tem sua conta.

A adesão foi obrigatória para todas as instituições com mais de 500 mil clientes desde o lançamento, em novembro de 2020. Em 2024, o Pix movimentou mais de R$ 17 trilhões e já responde por mais de 40% de todas as operações eletrônicas do país, superando cartões de débito e crédito somados.

O Zelle, por sua vez, depende de parcerias voluntárias com bancos específicos. Se o destinatário não tem conta em uma instituição parceira do Zelle, a transferência simplesmente não é possível. O Zelle também ainda não é amplamente aceito em transações comerciais. Seu uso é predominantemente pessoal, entre pessoas conhecidas, sem a penetração no varejo que o Pix conquistou no Brasil.

O Zelle é seguro?

O Zelle utiliza tecnologia segura e é um serviço legítimo. Mas há um ponto de atenção importante: ele oferece pouquíssima proteção ao consumidor em caso de fraude ou golpe.

O próprio site do Zelle recomenda usar o serviço apenas com pessoas de confiança e alerta que o sistema não deve ser utilizado quando "você não conhece a pessoa ou não tem certeza de que receberá o que pagou". Uma vez enviado o dinheiro, recuperá-lo é extremamente difícil — na prática, quase impossível na maioria dos casos.

Isso contrasta com o cartão de crédito nos Estados Unidos, onde a legislação federal limita a responsabilidade do consumidor a US$ 50 em casos de uso fraudulento.

Apps de pagamento P2P como o Zelle, o Venmo e o Cash App são classificados por especialistas financeiros como métodos de pagamento mais arriscados justamente por essa ausência de proteções robustas — não porque o serviço em si seja inseguro, mas porque o erro humano ou um golpe bem executado raramente tem solução.

Existe algo mais parecido com o Pix nos EUA?

Sim. Em 2023, o Federal Reserve lançou o FedNow, um sistema de pagamentos instantâneos que opera 24 horas por dia, sete dias por semana, entre bancos de todo o país. É o serviço que mais se aproxima do Pix em proposta e arquitetura.

O sistema tem inspiração no Pix, houve até um contato institucional com o Banco Central do Brasil para elaborar a ferramenta. Mas o FedNow enfrenta o mesmo obstáculo estrutural do Zelle: a adesão não é obrigatória.

Cada banco decide se vai ou não participar do sistema, e cada um pode definir suas próprias tarifas. O resultado é uma adoção muito mais lenta e fragmentada do que a que o Pix teve no Brasil.

O Venmo, de propriedade do PayPal, é especialmente popular entre jovens e tem uma interface social — os usuários podem compartilhar descrições dos pagamentos com amigos. Mas as transações não são tecnicamente instantâneas como as do Zelle ou do Pix, e o serviço é ainda mais restrito ao uso pessoal e informal.

Por que o Pix virou uma questão geopolítica?

O sucesso do Pix está incomodando muito além das empresas de pagamento. Ao criar uma infraestrutura pública, gratuita e de alta eficiência, o Brasil construiu um sistema que compete diretamente com redes privadas controladas por empresas americanas — Visa, Mastercard, PayPal —, que cobram entre 2% e 5% por transação dos comerciantes.

O modelo brasileiro está se espalhando pelo mundo. Índia, México e outros países emergentes observam o Pix como referência. Para o governo Trump, deixar o Pix crescer sem reação seria, na avaliação de analistas, dar um "efeito demonstração" para que outras nações sigam o mesmo caminho e reduzam a dependência de plataformas americanas.

O relatório do USTR vai além de uma disputa comercial. As menções ao Pix, segundo analistas, também podem municiar o Departamento do Tesouro americano em eventuais sanções a bancos brasileiros — ampliando o alcance da pressão muito além das tarifas sobre bens físicos.

O governo brasileiro tem até 15 de julho para apresentar sua resposta formal. O desfecho da negociação vai definir não apenas o futuro das relações comerciais entre os dois países, mas também o quanto um sistema de pagamentos público e soberano pode avançar num mundo em que as infraestruturas financeiras digitais se tornaram um campo de disputa entre nações.

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