O que o Japão pode aprender com o Brasil na corrida pela transição energética
Quando o assunto é tecnologia, a percepção mais comum costuma colocar o Japão como referência para países emergentes, incluindo o Brasil. Mas em um desses setores mostra uma liderança clara do Brasil: a transição energética.
Os números atuais da matriz energética mostram esse cenário: em diversos aspectos da descarbonização da eletricidade, é o Brasil que tem uma experiência mais avançada.
A diferença aparece principalmente na participação das fontes renováveis. Enquanto o Brasil encerrou 2024 com 88,2% da geração de eletricidade proveniente de fontes renováveis, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Japão ainda depende majoritariamente de combustíveis fósseis.
Dados de 2024 mostram que fontes fósseis responderam por cerca de 67,5% da geração elétrica japonesa. As renováveis representaram 23,1% e a energia nuclear ficou em 9,4%. Outras estimativas apontam participação das fontes solares em 10%.
A comparação ajuda a explicar o desafio japonês. Embora o país tenha estabelecido a meta de neutralidade de carbono até 2050 e pretenda elevar a participação das renováveis para entre 40% e 50% da geração elétrica até 2040, a distância entre o cenário atual e os objetivos futuros ainda é significativa.
No Brasil, a discussão é diferente. Além de uma matriz elétrica amplamente renovável, o país atingiu 50% de participação de fontes renováveis na matriz energética total em 2024, um dos maiores índices entre as grandes economias do mundo.
O peso da segurança energética
A principal diferença entre os dois países não está apenas nas metas climáticas, mas na disponibilidade de recursos.
O Japão depende da importação de grande parte da energia que consome, especialmente petróleo, carvão e gás natural. Já o Brasil construiu sua matriz energética apoiado em recursos domésticos abundantes, como água, biomassa, vento e radiação solar.
Essa característica faz com que a expansão das renováveis no Brasil tenha sido associada não apenas à redução de emissões, mas também à segurança energética.
O conceito pode oferecer uma das principais lições ao Japão. Em vez de tratar fontes renováveis apenas como instrumentos climáticos, a experiência brasileira mostra como elas podem reduzir vulnerabilidades associadas à dependência externa de combustíveis.
A discussão ganha relevância em um momento em que o Japão busca diminuir sua exposição a oscilações geopolíticas e a choques nos mercados internacionais de energia.
Bioenergia como diferencial
Outro ponto em que o Brasil possui uma trajetória difícil de replicar, mas potencialmente inspiradora, é a bioenergia.
O país incorporou etanol, biodiesel e biomassa de cana-de-açúcar à sua estratégia energética ao longo de décadas. Hoje, a bioenergia ocupa espaço relevante tanto na matriz energética quanto nas metas climáticas nacionais.
Entre os objetivos brasileiros para 2030 está alcançar 18% de participação de bioenergia sustentável na matriz energética, com expansão de etanol, biodiesel e combustíveis avançados.
Para o Japão, que possui limitações territoriais e menor disponibilidade de recursos agrícolas, copiar o modelo brasileiro integralmente não parece viável. Ainda assim, a integração entre políticas industriais e combustíveis de baixo carbono pode servir de referência.
O tema ganha importância especialmente em segmentos considerados difíceis de eletrificar, como aviação, transporte pesado e determinadas atividades industriais.
Uma transição além da eletricidade
O caso brasileiro também sugere que a transição energética não depende apenas da expansão da geração renovável.
A combinação entre políticas industriais, cadeias produtivas e incentivos para novas tecnologias ajudou a criar mercados ligados à bioenergia, ao etanol e mais recentemente à expansão da energia solar e eólica.
O Plano Decenal de Expansão de Energia prevê que cerca de 60% dos investimentos direcionados à expansão da oferta elétrica até 2031 sejam destinados à energia solar e eólica.
Para o Japão, que busca desenvolver cadeias relacionadas a hidrogênio de baixo carbono, combustíveis sustentáveis de aviação (SAF, combustível sustentável para aviação) e outras tecnologias limpas, a experiência brasileira sugere que a política energética pode funcionar como ferramenta de desenvolvimento industrial e não apenas como mecanismo de redução de emissões.
Metas semelhantes, pontos de partida diferentes
Brasil e Japão compartilham um objetivo comum: alcançar a neutralidade climática até 2050. Mas os pontos de partida são distintos.
O Japão pretende reduzir suas emissões em 60% até 2035 em comparação com 2013 e elevar a participação das renováveis para até metade da geração elétrica em 2040. O plano inclui ainda ampliar o papel da energia nuclear para cerca de 20% da eletricidade.
O Brasil, por sua vez, estabeleceu meta de redução entre 59% e 67% das emissões até 2035, tomando 2005 como referência. Ao mesmo tempo, trabalha com a expansão de fontes renováveis, bioenergia e uma matriz elétrica que já opera próxima de 90% de renovabilidade.
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