O rial iraniano é a moeda mais desvalorizada do mundo: entenda o que aconteceu

Por Letícia Furlan 5 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O rial iraniano é a moeda mais desvalorizada do mundo: entenda o que aconteceu

O rial iraniano atravessa uma das crises cambiais mais profundas do mundo. Em março de 2026, a cotação da moeda no mercado paralelo passou a flutuar na casa de 1,7 milhão de riais para cada U$ 1. Considerando o valor do real brasileiro hoje, a conversão direta para o mercado paralelo iraniano seria de 315 mil riais para cada R$ 1.

Isso significa que as pessoas que não usam cartão precisam carregar grandes maços de dinheiro. A desvalorização é tão grande que os iranianos pararam de usar o termo “rial” no dia a dia. Eles usam o "toman", que equivale a 10 mil riais, para facilitar as transações do dia a dia.

No Irã, no entanto, não existe uma única cotação para o dólar. O país opera com um sistema de múltiplas taxas de câmbio, sendo que a mais usada pela população é a do mercado paralelo. Mas há também a taxa oficial fixada pelo governo, de 42 mil riais por dólar, usada teoricamente para importar itens essenciais como alimentos e remédios. Mas só o governo trabalha com esse câmbio.

Ao longo dos anos, o governo iraniano tentou conter a desvalorização por meio de controles cambiais. Mas, na prática, isso criou um sistema de duas taxas: uma cotação oficial, usada nessas operações específicas do governo, e outra no mercado paralelo — onde ocorre a maior parte das transações.

Décadas de deterioração

A deterioração é resultado de décadas de desequilíbrios econômicos, isolamento financeiro e conflitos geopolíticos que reduziram drasticamente o acesso do Irã ao dólar e outras moedas estrangeiras.

O fator externo mais determinante é o regime de sanções imposto ao Irã, especialmente após 2018, quando os Estados Unidos reforçaram restrições ligadas ao programa nuclear do país. As sanções atingem principalmente o setor petrolífero, principal fonte de divisas da economia iraniana.

Com limites para exportar petróleo e dificuldades para receber pagamentos internacionais, o país passou a ter menos acesso ao dólar e a outras moedas fortes. Quando a entrada de moeda estrangeira diminui, o valor da moeda local despenca.

Na prática, a escassez de dólares no mercado doméstico faz com que empresas e cidadãos disputem a moeda estrangeira disponível, elevando rapidamente sua cotação.

Problemas internos e externos

Embora as sanções sejam o gatilho mais visível, economistas apontam falhas estruturais na própria economia iraniana.

Uma delas é a inflação persistente. Para cobrir déficits orçamentários, o governo frequentemente recorre à expansão da base monetária, ou seja, imprime dinheiro. Esse processo acelera a perda de valor da moeda.

Outro fator é a perda de confiança da população no sistema financeiro. Diante da instabilidade, muitos iranianos buscam proteger suas economias convertendo riais em dólares, euros ou ouro.

Esse movimento cria um círculo vicioso: quanto maior a procura por moedas fortes, maior a pressão de desvalorização sobre o rial.

A moeda iraniana também reage diretamente ao ambiente político. Escaladas militares, tensões com o Ocidente ou conflitos regionais costumam provocar movimentos bruscos no mercado cambial. Em momentos de maior instabilidade, a busca por dólares cresce rapidamente dentro do país. Com isso, o rial acaba funcionando como um indicador informal do nível de risco geopolítico percebido pelos próprios iranianos.

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