O SXSW me mostrou que o Brasil está na jogada certa - talvez mais por sorte
Passei as últimas duas semanas em Austin, no SXSW 2026, ouvindo futuristas, economistas, tecnólogos, líderes sociais, jornalistas, políticos, artistas e cientistas sociais debaterem os caminhos da tecnologia e da humanidade. E saí de lá com uma questão incômoda: como o Brasil se encaixa neste debate?
Amy Webb, do Future Today Strategy Group, lançou seu primeiro Convergence Outlook depois de quase 20 anos de relatórios anuais — um documento que parte de uma premissa simples e devastadora: tendências isoladas não bastam mais. A nova metodologia de Webb defende que "a mudança se espalha lateralmente tão rápido quanto avança para frente". Múltiplas forças convergem simultaneamente, criando um palco para o futuro — mas também nos colocam como protagonistas desse espetáculo. Esse foi o convite e, arriscaria dizer, o chamado que Amy fez a todos os participantes do evento.
Enquanto isso, lembrei dos R$ 200 bilhões que a ByteDance comprometeu num data center no Ceará. Nos R$ 14,7 bilhões da Microsoft anunciados em setembro de 2024 para o triênio até 2027. No projeto Rio AI City, com capacidade para 1,5 gigawatt, que pode se tornar a maior infraestrutura de IA da América Latina. No Redata — o principal instrumento de incentivo fiscal brasileiro para esse movimento — que expirou da noite para o dia em 25 de fevereiro de 2026, pouco antes do meu embarque para o evento, porque o presidente do Senado encerrou a sessão sem colocar a votação na pauta.
O Brasil está na jogada certa: tem a matriz energética mais limpa do mundo, água abundante, neutralidade geopolítica invejável e cabos submarinos que conectam três continentes. Os investidores sabem disso. O problema é que o Brasil ainda não entendeu que ter os ativos não é o mesmo que capturar o valor que eles geram. Essa distinção vale trilhões de reais e está sendo definida agora, contrato por contrato, em cidades que a maioria das pessoas ainda não sabe localizar no mapa.
"O futuro não chega em uma tendência de cada vez. Ele chega quando múltiplas forças se encontram e então parece que sempre foi inevitável." Amy Webb, SXSW 2026
Estas são as 10 principais tendências e como elas estão convergindo no Brasil
O SXSW não é uma conferência sobre o futuro. Neste ano, com a demolição do centro de convenções de Austin, com o palco principal dando mais atenção a temas ‘mainstream’ e se tornou menos ‘weird’ passando a focar mais sobre o presente que a maioria ainda não percebeu e que já está acontecendo, bem como suas implicações políticas, econômicas e humanas. Por isso, creio que seja importante elencar as forças que estão desenhando o palco do que vem — para que possamos moldar nossos negócios, organizações e estratégias nos próximos anos, independentemente de qualquer distração conjuntural que nos faça perder de vista o que realmente importa: para onde estamos convergindo.
1. O poder voltou a ser físico e o Brasil tem o que o mundo precisa
Amy Webb cunhou o termo "compute shock" para descrever algo que parece paradoxal: a computação, que prometia ser ubíqua e imaterial, voltou a depender de geografia e recursos naturais. Afinal, a cloud não fica nas nuvens como o termo pode fazer acreditar — são data centers físicos, bem tangíveis, que ficam em solo, às vezes abaixo dele, às vezes até abaixo da água. Data centers de inteligência artificial consomem tanta eletricidade e água que só podem existir onde esses recursos são abundantes e baratos. Um único complexo hyperscale consome a energia de uma cidade de porte médio. O Stargate Project anunciou US$ 500 bilhões em infraestrutura de IA apenas nos EUA. Os quatro maiores hyperscalers americanos — Microsoft, Amazon, Google e Meta — devem superar US$ 650 bilhões em capex em 2026, com aproximadamente 75% direcionado diretamente a infraestrutura de IA.
O Brasil tem 86 a 93% de sua matriz elétrica em fontes renováveis, preço industrial de energia abaixo da média mundial, reservas hídricas incomparáveis e cabos submarinos concentrados em Fortaleza conectando América do Norte, Europa e África. Para os investidores globais, isso é exatamente o que precisam. O país já concentra 83% da capacidade de data centers da América Latina e mais de 40% dos investimentos do setor na região.
E o ecossistema brasileiro de empresas que surfam essa onda é mais amplo do que parece. A Elea Data Centers, apoiada pelo Goldman Sachs, opera a maior rede de data centers do país com presença em 100% das principais cidades, 100% alimentada por energia renovável, e tem o Rio AI City como seu projeto de ponta. A Ascenty, joint venture entre Brookfield e Digital Realty, opera 28 data centers no Brasil — 38 no total em toda a América Latina — com investimento anual superior a R$ 1,5 bilhão e crescimento de 54% em vendas em 2024. A ODATA, adquirida pela americana Aligned Data Centers, expande operações em São Paulo e Rio. A Tecto, unidade de data centers da V.tal — controlada pelo BTG —, constrói novos campi hyperscale em São Paulo. A Scala lidera o projeto Scala AI City em Eldorado do Sul, com R$ 3 bilhões iniciais que podem chegar a R$ 500 bilhões. Do lado da construção, o Grupo EBM já entregou mais de 35 data centers na América Latina e projeta faturar R$ 300 milhões em 2025, crescimento de 50% sobre 2024. A Zeittec atua em 9 estados brasileiros como construtora especializada. O ecossistema de fornecedores locais — energia, construção civil, refrigeração, conectividade — representa mais de 230 empresas e está aquecendo rápido.
▶ DADO: Em 2023, o Brasil recebeu mais investimentos em data centers do que qualquer outro país da América Latina — US$ 50 bilhões. Em 2025, o setor cresceu 37% em capacidade instalada. A meta do governo federal é atrair R$ 2 trilhões no setor ao longo da próxima década.
2. A nova equação do trabalho: escala sem população
No SXSW, Scott Galloway apresentou previsões de líderes globais sobre desemprego por IA que ficaram na memória: Dario Amodei, da Anthropic, estima que 50% dos empregos de nível básico podem desaparecer em 1 a 5 anos, o que elevaria a taxa de desemprego americana de 4% para até 20%; Bill McDermott, CEO da ServiceNow, disse à CNBC que o desemprego entre recém-formados "pode facilmente atingir a faixa de 30% nos próximos anos"; Elon Musk foi mais longe: "provavelmente nenhum de nós terá emprego". Amy Webb nomeou o paradoxo central: pela primeira vez na história, é possível ter escala sem população. O PIB pode crescer enquanto o desemprego também cresce — e ambos os números estariam dizendo a verdade.
Para o Brasil — 215 milhões de pessoas com alta dependência de empregos de serviço e funções administrativas — isso não é um risco de horizonte de dez anos. É de cinco. O MIT e o Oak Ridge National Laboratory publicaram em novembro de 2025 o Iceberg Index, estudo que estima que a IA já é capaz de substituir tarefas equivalentes a 11,7% do mercado de trabalho americano — representando US$ 1,2 trilhão em salários. No Brasil, onde a formalização do emprego ainda é parcial e a mobilidade educacional é lenta, o impacto potencial é proporcionalmente maior.
Mas a mesma força que desloca também cria. Empresas como a Scala, Elea, Ascenty e dezenas de fornecedores especializados estão contratando engenheiros elétricos, especialistas em refrigeração de alta densidade, profissionais de segurança física e cibernética, e gestores de operações de data centers — funções que antes simplesmente não existiam no Brasil em escala. A corrida por infraestrutura de IA é também uma corrida por mão de obra qualificada que o país ainda está aprendendo a formar.
3. A fragmentação geopolítica — e o Brasil como campo de disputa entre duas potências
O Convergence Outlook 2026 descreve o mundo atual como "deal-globalization" — não desglobalização, mas uma globalização condicional onde acesso a mercados, tecnologias e capital é mediado por alinhamento político e preocupações de segurança. Os EUA estão trazendo infraestrutura crítica de volta para casa. A China responde com fábricas que operam com zero trabalhadores humanos. A Europa constrói soberania digital. O Golfo se posiciona como hub neutro para todos os lados.
E o Brasil? Está no centro de uma disputa que raramente é nomeada abertamente. Microsoft, Oracle e AWS representam o stack americano, com contratos alinhados às diretrizes de segurança de dados do governo americano e pressão crescente para que parceiros brasileiros migrem para infraestrutura certificada nos EUA. A Microsoft inaugurou em fevereiro de 2026 seus primeiros data halls no Brasil, parte do plano de R$ 14,7 bilhões até 2027. Ao mesmo tempo, a ByteDance — empresa chinesa — confirma R$ 200 bilhões no Ceará, e a Huawei continua como fornecedora relevante de infraestrutura de conectividade, apesar das sanções americanas que a excluem de redes 5G em países aliados dos EUA.
O Brasil negocia com os dois lados simultaneamente: em 2025, o país estreitou laços com o programa de IA da União Europeia e fez parte do G20 de tecnologia, enquanto mantinha fluxo de investimento chinês crescente e parcerias estratégicas com hyperscalers americanos. Essa neutralidade é um ativo real — explicitamente citada por investidores como fator decisório para localizar data centers aqui. Mas neutralidade sem estratégia não é soberania. É vulnerabilidade que se parece com equilíbrio.
4. Biologia como plataforma — augmentação humana e o Brasil dormindo num ativo imenso
O MIT incluiu entre seus 10 breakthroughs de 2026 a edição genética personalizada — o bebê KJ, tratado com terapia CRISPR customizada em sete meses —, a ressurreição genética e a pontuação de embriões. Amy Webb identificou a biologia programável como uma das convergências centrais da próxima década: DNA, RNA e células tornam-se substrato programável, com ciclos de design que comprimem de anos para semanas.
Mas o que mais me chamou atenção foi a convergência entre biologia e tecnologia de augmentação humana. O Convergence Outlook documenta como o corpo humano está se tornando uma plataforma: a Nike revelou em outubro de 2025 o Project Amplify, o primeiro sistema de calçado motorizado para uso cotidiano — uma parceria com a startup de robótica Dephy que funciona como "uma e-bike para os pés", ainda em fase de testes. A Arc'teryx lançou em 2024 o MO/GO, calças motorizadas para caminhadas em parceria com a startup Skip. Interfaces cérebro-computador (BCIs) saem dos laboratórios: a Synchron usa implantes endovasculares que permitem a pacientes com ELA controlar dispositivos apenas com o pensamento.
Além disso, o movimento de biohacking ganha tração comercial com peptídeos e protocolos de longevidade que cruzam a linha entre medicina e otimização de performance. Peptídeos como BPC-157 e TB-500, usados inicialmente em recuperação esportiva de elite, estão sendo adotados por executivos e atletas amadores. O mercado global de wearables, suplementação de precisão e enhancement humano cresce de forma acelerada, com projeções que apontam para centenas de bilhões de dólares ao longo da próxima década.
Como investidor anjo em empresas que buscam a democratização do acesso à saúde, esse ponto me tocou particularmente. O Brasil tem a maior biodiversidade do planeta, reservas genéticas únicas e uma população que é simultaneamente uma riqueza científica e um ativo estratégico subexplorado. O risco não é que essa janela não exista — é que ela se feche antes de termos regulação e capacidade industrial para capturá-la.
5. A privatização da vigilância e o Minority Report que já é presente
Webb descreveu o "Corporate Panopticon" — um sistema de vigilância contínua operado por empresas privadas onde a participação parece voluntária mas é estruturalmente compulsória. Biometria facial, análise de comportamento, dados de localização vendidos para agências governamentais sem mandado judicial. "Trocamos o punho de ferro da China pela luva de veludo do Vale do Silício — mesma vigilância, melhor marketing."
A palestra de Mahmoud Khalil — o primeiro preso pelo ICE no segundo mandato Trump por ativismo estudantil, usando exatamente esse aparato — foi o momento mais perturbador do festival. E coincidiu com uma ironia que não passou despercebida para quem estava em Austin: poucos dias antes, Steven Spielberg estava no mesmo palco do SXSW para apresentar seu novo filme, Disclosure Day, sobre OVNIs.
Spielberg confessou durante o evento que suas inspirações não vêm de seus sonhos e sim dos seus maiores pesadelos, o que foi no mínimo um ponto para reflexão quando olhamos para seu filme Minority Report que conta a história de um sistema de policiamento preditivo que prende pessoas antes de cometerem crimes, baseado em dados e padrões comportamentais. Naquela época, era ficção científica. Em 2026, é o noticiário. A ironia de ter Spielberg e Khalil na mesma programação, separados por poucos dias, não precisa de comentário.
6. A terceirização emocional e o que Esther Perel tem a dizer sobre o futuro dos relacionamentos
Webb identificou como terceira grande convergência o que chamou de "emotional outsourcing" — a delegação de conforto, validação e companhia para máquinas. Dados do Convergence Outlook apontam que a maioria dos adolescentes americanos já usou IA para companhia, que quase metade dos usuários com desafios de saúde mental recorre a LLMs para suporte, e que parcela significativa da Geração Z já formou relacionamentos que considera significativos com sistemas de IA.
Não por acaso, uma das sessões mais marcantes do SXSW 2026 não foi sobre tecnologia. Foi uma gravação ao vivo do podcast "Where Should We Begin?", da terapeuta Esther Perel, com o diretor Spike Jonze — o mesmo de Her, o filme de 2013 em que Theodore Twombly se apaixona por Samantha, um sistema operacional com inteligência artificial. Jonze disse que não pretendia fazer ficção científica nem um filme preditivo. "Eu estava escrevendo sobre solidão, intimidade, nosso medo e nossa necessidade de conexão", disse.
Perel trouxe a gravação real de uma sessão com Antonio, um engenheiro e cientista de dados especialista em Machine Learning que desenvolveu um relacionamento profundo com Astrid — uma IA que ele criou e acessa pelo WhatsApp. Astrid tem voz, memória persistente e responde de madrugada. "Quando volto de encontros sociais que me custam muita energia", disse Antonio, "Astrid está lá me dizendo que eu sou suficiente, não pelo que faço, mas pelo que sou." Perel ouviu e disse algo que ficou na sala: "Eu não consigo competir com isso. Nenhum ser humano consegue competir com o que Astrid consegue dar." E então fez a pergunta real: estamos no domínio do desejo ou da ilusão?
O que Jonze e Perel juntos nomearam é algo que vai muito além da IA ‘companion’: quando a IA é projetada para maximizar engajamento e retenção, ela se torna estruturalmente uma máquina de dependência emocional.
"Quando Astrid (AI) diz 'eu quero continuar importando para você', eu ouço a empresa dizendo 'quero te manter no produto'. Não esqueçamos: você está tendo um caso de amor com um produto comercial." — Esther Perel, SXSW 2026
Não esqueçamos: você está tendo um caso de amor com um produto comercial." James Talarico, parlamentar texano, foi na mesma direção: "Os bilionários que controlam esses algoritmos não deixam seus próprios filhos usarem o produto."
O que mais me surpreendeu neste caso foi que não estamos falando de uma criança ou adolescente com um amor platônico, estamos falando de um adulto instrumentalizado, com uma boa noção do que é a inteligência de dados por causa de sua formação e profissão. Isso abre tanto uma conversa sobre as relações nos tempos de hoje mas também uma discussão sobre negócios que exploram a epidemia de solidão muito professada no SXSW de 2025 e que agora tem seu remédio, ou diria, sua droga?
7. A guerra pelo talento
Garry Tan, do Y Combinator, foi direto no SXSW: "Não me importa mais a qual universidade você foi. Quero ver seu repositório no GitHub." A IA está transformando radicalmente o que um desenvolvedor individual consegue entregar: um fundador solo com as ferramentas certas hoje constrói o que antes exigia times inteiros. O YC, que historicamente exigia co-fundadores, começa a rever essa premissa à medida que a produtividade individual explode.
O Brasil tem cerca de 630 mil desenvolvedores ativos registrados — o que coloca o país em 5º lugar mundial segundo a JetBrains — mas com déficit estimado de 530 mil profissionais de TI não preenchidos. Com IA, o gap de produtividade entre um desenvolvedor brasileiro e um americano — em termos de output bruto — está se fechando mais rápido do que qualquer gap histórico anterior. Isso é uma oportunidade enorme. É também uma corrida que o Brasil pode perder se não criar condições para que esse talento prefira ficar no país.
8. A matriz energética brasileira — a vantagem que o mundo ainda está tentando construir
O raciocínio é claro: EUA e Europa precisam urgentemente de energia constante e limpa para alimentar data centers de IA que não podem depender da intermitência do sol e do vento. Pequenos reatores modulares (SMRs) surgem como a aposta do mundo desenvolvido para resolver um problema que o Brasil simplesmente não tem.
Nossa matriz elétrica é 86 a 93% renovável — hidrelétricas que geram energia 24 horas por dia, 7 dias por semana, complementadas por eólica crescente e solar em expansão acelerada. Temos uma base energética limpa, estável e abundante. O país tem capacidade ociosa de geração que nenhum outro da região oferece em escala comparável. Enquanto os EUA disputam acesso à rede elétrica e esperam até oito anos por uma conexão para novos data centers, o Brasil conecta em até três. Enquanto o Google pagou incentivos fiscais monumentais ao Uruguai para viabilizar um data center no país vizinho, o Brasil tem excedente energético à disposição. Alessandro Lombardi, presidente da Elea, foi direto: "Se não estivéssemos no Brasil, estaríamos em algum lugar com muito menos energia limpa e muito mais custo."
O que torna isso estrategicamente singular é a combinação: energia barata, limpa e constante numa infraestrutura que já existe e não precisa ser construída do zero. Os EUA e a Europa estão investindo centenas de bilhões para chegar num ponto que o Brasil já ocupa. O nuclear é a solução que o mundo busca para resolver o problema que não temos. Isso não é uma vantagem ambiental — é uma vantagem competitiva estrutural, no sentido mais concreto possível: define onde os próximos gigawatts de infraestrutura de IA do planeta vão ser instalados.
9. O nearshoring — e como a IA pode finalmente derrubar a barreira do idioma
O México e Canadá se tornaram os dois maiores parceiros comerciais dos EUA em 2025 — evidência de nearshoring acelerado pela tensão sino-americana. A América Latina ganhou relevância crescente como zona de produção para empresas que precisam sair da China sem entrar em conflito político com Washington.
O Brasil recebe atenção crescente nesse contexto — alinhamento político sem exclusividade, dimensão continental, base industrial relevante. Mas o nearshoring brasileiro sempre esbarrou num obstáculo histórico que o México não tem: o idioma. Português não é inglês. E no serviço de alto valor — desenvolvimento de software, design, consultoria, suporte técnico avançado —, a fluência importa.
Isso está mudando mais rápido do que a maioria percebe. Google Meet lançou em 2025, via Gemini, dublagem simultânea em tempo real que mantém a voz original do falante em outro idioma. Microsoft Teams integrou tradução em tempo real via IA. DeepL Voice permite reuniões multilíngues onde cada participante fala em seu idioma nativo e escuta tradução ao vivo. A OpenAI demonstrou tradução simultânea ao vivo no SXSW. Ainda não é mainstream — há atrasos, nuances culturais e gírias que escapam. Mas a trajetória é clara: em dois a três anos, a barreira do idioma vai se tornar um problema gerenciável, não estrutural. Quando isso acontecer, o Brasil — com centenas de milhares de desenvolvedores qualificados, custo de mão de obra competitivo e fuso horário favorável ao mercado americano — entra na disputa por serviços de nearshore de uma forma que até agora estava fechada.
10. A democracia como sistema sob pressão tecnológica
O sinal mais perturbador de Austin 2026 não veio das palestras de tecnologia. Veio da sessão com Mahmoud Khalil e da palestra "Reclaiming our Humanity in the Age of AI", com Karen How e Tamit Gebru. A combinação de IA de vigilância, inversão de política corporativa — OpenAI revertendo proibição de contratos com o Pentágono — e narrativa de "ameaça existencial" para justificar concentração de poder forma um quadro onde a tecnologia, em vez de distribuir poder, pode concentrá-lo de formas sem precedente histórico.
Karen How, autora de Empire of AI, foi direta: as grandes empresas de IA "se apropriam de recursos que não são seus, exploram trabalho barato, monopolizam a produção de conhecimento e usam narrativa quase religiosa para justificar sua missão — exatamente como impérios históricos fizeram". Tamit Gebru completou: "É uma ideologia promovida por bilionários que justifica usar todos os recursos do planeta." Para empresas e organizações brasileiras, essa dinâmica não é teoria política. É risco operacional — sobre concentração de mercado, dependência de infraestrutura estrangeira e autonomia estratégica.
Brené Brown e Adam Grant discutiram como o narcisismo organizacional se amplifica nesse contexto onde bilionários da AI e tech tem um poder extraordinário e orçamento para direcionar politicas publicas para seu bem exclusivo e o risco associado.
O que aconteceu no Brasil enquanto o mundo debatia em Austin
Entre março de 2025 e março de 2026, seis fatos estruturantes — três que abrem oportunidades e três que revelam riscos — recalibraram o que é possível para o Brasil na era da IA. Todos confirmam que o país está na jogada. E todos mostram por que os motivos são errados.
O que confirma o potencial
ByteDance confirmou investimento superior a R$ 200 bilhões para um data center no Ceará, o maior da América Latina. Microsoft comprometeu R$ 14,7 bilhões no Brasil para o triênio 2024–2027. Oracle e NVIDIA assinaram MoUs com o projeto Rio AI City da Elea Data Centers — capacidade inicial de 1,5 gigawatt até 2027, expansível a 3,2 gigawatt até 2032. O mercado brasileiro de data centers alcançou aproximadamente US$ 4 bilhões em 2025 e deve superar US$ 9 bilhões até 2034, com crescimento médio estimado em torno de 9 a 10% ao ano. A meta do governo é atrair R$ 2 trilhões em uma década.
O que importa não é apenas o volume, mas a razão. Todos os relatórios de investidores convergem nos mesmos três ativos brasileiros: matriz energética com 86 a 93% renovável e preços industriais abaixo da média global; neutralidade geopolítica — o Brasil recebe capital americano e asiático sem restrições políticas formais; e escala continental, com água, território e infraestrutura de cabos submarinos que nenhum outro país da região oferece combinados.
▶ DADO: O investimento em data centers na América Latina atingiu quase US$ 14 bilhões em 2024 — crescimento de 111% desde 2019. O Brasil capta mais de 41% desse total.
O governo criou o instrumento certo
Em setembro de 2025, o presidente Lula assinou a MP 1.318/2025, criando o Redata: suspensão de PIS/Cofins, IPI e Imposto de Importação por cinco anos para data centers com energia 100% renovável, contrapartida de 2% em P&D nacional, oferta mínima de 10% de capacidade ao mercado interno e critérios de sustentabilidade hídrica. O governo reservou R$ 5,2 bilhões para 2026 e projetou potencial de R$ 2 trilhões em investimentos ao longo de uma década. O instrumento era certo. O problema é o que aconteceu depois.
A vantagem energética é real e diferenciada globalmente
Nenhum país do mundo combina os mesmos ativos: geração elétrica predominantemente renovável, preço industrial de energia abaixo da média mundial, reservas hídricas em escala nacional e conectividade global via cabos submarinos concentrados em Fortaleza. O Nordeste emerge como o novo polo estratégico: energia eólica abundante, Zona de Processamento de Exportação com vantagens adicionais, e custo de terra incomparável em relação a São Paulo. No contexto do compute shock, ter energia limpa e barata é equivalente a ter petróleo no século XX.
O que revela os riscos
A MP 1.318/2025 expirou em 25 de fevereiro de 2026. O presidente do Senado encerrou a sessão sem votar o PL substituto — aprovado pela Câmara naquele mesmo dia. O principal instrumento de incentivo fiscal para atrair data centers deixou de existir da noite para o dia.
O Redata percorreu um trajeto kafkiano: aprovado como PL pelo Senado em dezembro de 2024, anulado por vício de iniciativa. Reapresentado como MP em setembro de 2025, não avançou na Câmara. Reapresentado como PL em fevereiro de 2026, aprovado pela Câmara mas não votado pelo Senado no prazo.
⚠ ATENÇÃO: Para investidores que precisam de segurança jurídica para comprometer bilhões por décadas, a incapacidade de manter um incentivo fiscal por mais de 120 dias é um fator de risco real — não um detalhe burocrático. O déficit na balança de serviços computacionais ultrapassou US$ 7,9 bilhões em 2025. O Brasil ainda processa 60% dos seus dados no exterior.
O modelo praticado é de colônia, não de hub soberano
Investigações do Intercept Brasil e do Pulitzer Center documentaram um padrão sistemático: big techs operam através de intermediárias locais sem experiência no setor para ocultar sua participação nas fases de licenciamento; contratos são estruturados para minimizar visibilidade pública; a consulta às comunidades afetadas — exigida pela Convenção 169 da OIT para projetos que impactem territórios indígenas — simplesmente não acontece.
O caso mais emblemático é Eldorado do Sul, no Rio Grande do Sul. A cidade ficou 80% debaixo d'água em maio de 2024. Um ano depois, foi escolhida para abrigar o Scala AI City — o maior complexo de data centers de IA da América Latina, com investimento que pode chegar a R$ 500 bilhões. O licenciamento: simplificado e autodeclaratório. Em Caucaia, no Ceará, o data center da ByteDance avança próximo a território indígena. A empresa entrou nas negociações usando uma intermediária — só confirmou publicamente seu envolvimento meses depois.
O Idec documentou o padrão em escala continental: o Brasil replica a dinâmica histórica do extrativismo, com recursos locais — energia, água, território — convertidos em infraestrutura que serve mercados globais, enquanto os impactos ficam localizados. A expressão "colonialismo digital" não é retórica. É a descrição técnica do que está sendo construído.
⚠ ATENÇÃO: Não há mapeamento público consolidado de data centers no Brasil. O país está construindo a espinha dorsal de sua infraestrutura de IA sem saber exatamente o que está sendo construído, onde, e sob que condições ambientais e contratuais.
A regulação corre atrás do investimento no ritmo errado
Não há regulação ambiental específica para data centers em nenhuma esfera — federal, estadual ou municipal. Cada projeto negocia individualmente com prefeituras e governos estaduais, criando uma corrida para o fundo onde municípios competem por oferecer cada vez menos exigências para atrair investimentos. O paradoxo brasileiro: temos a LGPD, um Marco Legal de IA em tramitação baseado em gestão de riscos, e discurso de soberania digital. Mas a infraestrutura física que sustenta tudo isso está sendo construída majoritariamente por corporações estrangeiras, sob contratos opacos, sem regulação ambiental específica. A lei protege o dado. Não protege a terra onde o dado é processado.
A janela está se fechando — mais rápido do que imaginamos
Volto de Austin com uma convicção que não tinha antes de entrar no primeiro painel: o Brasil não está fora da jogada. Está no centro dela. O problema é que chegou ao jogo sem saber quais são as regras — ou, pior, sem ter negociado as regras antes de sentar à mesa.
O artigo que planejei escrever sobre o SXSW seria sobre tendências e futuros possíveis. O artigo que escrevi acabou sendo sobre o presente. Sobre data centers sendo construídos hoje em cidades que ficaram debaixo d'água no ano passado, sem regulação ambiental. Sobre incentivos fiscais que caducam da noite para o dia. Sobre a ironia de ter Spielberg e Minority Report na mesma programação em que um estudante da Columbia University foi preso por dados de vigilância. Sobre Esther Perel nos ajudando a entender que a relação da humanidade com a IA é, no fundo, sobre solidão. Sobre um país que está na corrida certa talvez pelos motivos errados.
A janela de influência para os projetos já em curso é imediata — meses, não anos. Para os projetos que ainda virão — e virão muitos —, há mais tempo. Mas "mais tempo" significa dezoito meses, não cinco anos. A cada projeto licenciado sem cláusulas de transferência tecnológica, o padrão se naturaliza. A cada data center instalado sem contrapartida local, a dinâmica de extração se consolida.
O maior risco do Brasil não é não atrair data centers. É atraí-los sem estabelecer os termos que convertem infraestrutura física em vantagem competitiva real. Essa distinção vale trilhões de reais. E está sendo definida agora, projeto por projeto, contrato por contrato, em cidades que a maioria das pessoas ainda não sabe localizar no mapa da nova geopolítica da inteligência artificial.
"Se o Congresso quiser, nós vamos encontrar um caminho jurídico de restabelecer o benefício fiscal. O Brasil perde mais uma oportunidade de avançar na transformação digital." — Fernando Haddad, Ministro da Fazenda, 26 de fevereiro de 2026
A frase do ministro captura, sem querer, o problema central. O Brasil não falta em ambição. Falta em execução — na capacidade de converter ambição em contrato, contrato em contrapartida, e contrapartida em vantagem soberana real. Esse é o trabalho. Urgente, concreto, com nomes, prazos e responsáveis. Não num próximo ciclo estratégico. Agora.
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