O tempero que sustenta a IA: como a Ajinomoto domina 95% do mercado de chips
Em 1999, a Ajinomoto, fabricante japonesa mais conhecida por seu tempero AJI-NO-MOTO®, colocou no mercado um filme isolante ultrafino para a indústria de semicondutores.
Mais de duas décadas depois, esse produto se tornou um dos pontos de maior concentração e vulnerabilidade da cadeia global de chips de inteligência artificial (IA) — com participação de cerca de 95% do mercado mundial, segundo a própria empresa.
O material, batizado de Ajinomoto Build-up Film (ABF), nasceu de um subproduto da fabricação do glutamato monossódico (MSG), o composto que dá sabor ao tempero da marca: a parafina clorada, usada inicialmente para conferir maciez às resinas.
A combinação dessa química com tecnologia de polímeros epóxi resultou, depois de anos de pesquisa, no filme lançado havia 27 anos pela Ajinomoto Fine-Techno, divisão de materiais eletrônicos do grupo, segundo relato de Takashi Takahashi e Akito Kitano, executivos da divisão, ao site institucional da Ajinomoto.
De temperar comida a isolar circuitos
O ABF funciona como camada isolante dentro do substrato dos semicondutores — a base sobre a qual os chips são conectados a outros componentes eletrônicos.
Sem esse isolamento, a eletricidade poderia atingir partes indevidas do circuito e provocar curtos-circuitos. Cada camada do filme tem cerca de 10 micrômetros de espessura, o equivalente a um oitavo do diâmetro de um fio de cabelo humano.
O material é essencial para o encapsulamento FC-BGA (Flip Chip-Ball Grid Array), tecnologia usada nos processadores de alto desempenho que equipam computadores avançados e servidores de data center — incluindo as GPUs de IA mais cobiçadas do mercado, como as da Nvidia.
Segundo Kitano, praticamente todos os computadores e servidores de alto desempenho do mundo dependem do ABF atualmente.
Da vantagem de processo ao monopólio de fato
Antes do ABF, os fabricantes de substratos aplicavam isolantes líquidos em forma de tinta, um processo lento, com bolhas de ar e geração de gases nocivos.
A versão em filme da Ajinomoto eliminou essas etapas e se tornou padrão da indústria à medida que o uso da internet se expandia no início dos anos 2000, segundo Takahashi.
A vantagem técnica, somada ao acompanhamento próximo de cada cliente desde a fase de design dos chips, consolidou o domínio da empresa.
Desde 2010, a Ajinomoto passou a produzir entre sete e oito séries padrão do filme, cada uma customizada para necessidades específicas de fabricantes de PCs e servidores, barreira de especialização que dificulta a entrada de concorrentes.
O gargalo que ameaça a corrida da IA
A concentração de mercado, que já era vista como ponto de atenção desde a crise de semicondutores de 2021-2022, ganhou nova urgência com a alta nos chips de inteligência artificial.
A demanda por camadas de ABF por chip mais que triplicou: configurações que usavam três camadas de cada lado do substrato evoluíram para 11 ou até 13 camadas nos projetos mais avançados.
Diante do desequilíbrio entre oferta e demanda, a Ajinomoto anunciou reajuste de 30% no preço do ABF, válido a partir do terceiro trimestre de 2026 — aumento que se soma a reajustes semelhantes de concorrentes japoneses em outros materiais de substrato, como a Resonac e a Mitsubishi Gas Chemical.
Fabricantes taiwaneses de substratos, como Unimicron e Kinsus Interconnect Technology, já elevaram seus planos de investimento para 2026 diante da expectativa de um ciclo de expansão nos próximos dois ou três anos.
A própria Ajinomoto anunciou a construção de uma terceira fábrica de ABF na província japonesa de Gifu, com produção prevista para 2032, prazo que evidencia o quão lenta é a resposta da oferta diante de uma demanda que cresce no ritmo da inteligência artificial.
Um tempero por trás de cada chip
A Ajinomoto registrou receita consolidada de 1,58 trilhão de ienes e lucro operacional de 181,1 bilhões de ienes no ano fiscal encerrado em março de 2026 — alta de 3% e 13%, respectivamente, em relação ao período anterior.
O que começou como um subproduto descartável da produção de tempero hoje conecta a cozinha japonesa ao centro da infraestrutura digital mundial: cada GPU de inteligência artificial que sai de fábrica carrega, entre suas camadas, um pouco da mesma química que por mais de cem anos definiu o sabor do tempero.
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