O treino de 20 minutos que promete substituir a academia
Você já deve ter lido em algum lugar que, hoje, o bem mais disputado é o tempo. Para ganhar minutos no dia, as pessoas buscam por soluções que encurtam tarefas e reduzem esforço, desde o aspirador de pó robô e a lava-louças até um assistente virtual. Agora, essa ideia começa a avançar também sobre o cuidado com o corpo, mais especificamente sobre os treinos, com a popularização da eletroestimulação.
É a mais nova febre entre quem quer se fortalecer sem passar longos períodos na academia, e também usar a tecnologia para otimizar os resultados — conhecido hoje no meio como "biohacking". A técnica está cada vez mais popular nos Estados Unidos, como aponta reportagem do Wall Street Journal, e já dá seus primeiros passos no Brasil.
O que é a eletroestimulação?
É uma prática que usa impulsos elétricos de baixa frequência para provocar contrações musculares enquanto o aluno realiza movimentos guiados. O estímulo imita o sinal enviado pelo cérebro ao músculo, mas com intensidade controlada por um equipamento.
Para isso, o usuário veste um traje com eletrodos posicionados nas principais regiões do corpo, que são ativadas simultaneamente ao longo do treino. As sessões costumam durar cerca de 20 minutos. Durante esse período, os impulsos são aplicados em ciclos de contração e relaxamento, sincronizados com exercícios simples, como agachamentos ou pranchas. Tudo isso para aumentar o recrutamento de fibras musculares, até as camadas mais profundas, sem exigir cargas externas elevadas.
De onde veio
As academias não foram o berço da EMS. Por décadas, ficou restrita a hospitais e centros de reabilitação, onde era usada para aliviar dor, prevenir atrofia muscular e estimular a circulação em pacientes com mobilidade reduzida. O caminho até o mercado fitness foi lento — as redes sociais foram o que mudou o ritmo.
Influenciadores em trajes que lembram equipamento de paramédico fazendo agachamentos e exercícios de braço tornaram o EMS um conteúdo recorrente. A estética incomum chama atenção, e a promessa de eficiência em pouco tempo tem apelo óbvio. "Muita gente pergunta: vou levar um choque? Dói?", conta Colleen Ferguson, dona do EMS Body Atelier, em Santa Bárbara, na Califórnia, ao Wall Street Journal.
A maioria descreve a experiência como uma contração forte e estranha, mas tolerável quando a intensidade está bem calibrada. O instrutor ajusta o equipamento ao longo da sessão.
O crescimento do setor
Os números mostram uma expansão consistente. Entre 2023 e 2025, o número de estúdios com EMS cresceu mais de 16% na plataforma ClassPass. A rede americana Body20 passou de 46 para 67 unidades, enquanto a francesa Iron Bodyfit planeja abrir mais de 50 estúdios nos EUA nos próximos três anos.
As sessões custam entre US$ 40 e US$ 100 nos Estados Unidos. A tecnologia tem aprovação do FDA para uso em treinos de resistência. No Brasil, a Tecfit opera mais de 50 unidades em 12 estados e aceita planos como o TotalPass, mas as sessões custam entre R$ 80 e R$ 300, dependendo do pacote.
Quem usa e por quê
O público não se resume a quem quer evitar a academia. Sabine Padar, dona do Body Alchemist NYC, em Nova York, diz ao New York Times que frequentemente precisa convencer clientes ambiciosos de que mais tempo de treino não é necessariamente melhor. Mulheres na menopausa, atentas à importância do treinamento de força nessa fase, são parte relevante da clientela.
Max Auth, gerente sênior de contas de uma marca de luxo em Nova York, começou o EMS depois de uma lesão no tornozelo que o afastou do pole dance. Gasta cerca de US$ 300 por mês em quatro a seis sessões. "Eu trabalho no ramo da moda, onde a vaidade é muito grande", disse ao jornal americano. Segundo ele, perdeu os quilos acumulados na pós-graduação e encaixa os treinos na rotina com facilidade.
Helge Guetzlaff, diretor de desenvolvimento internacional da fabricante alemã Miha Bodytec — cujas máquinas custam mais de US$ 20 mil cada —, vê a tecnologia como acessível a diferentes perfis. "Os EUA são um mercado grande, e há muita gente preguiçosa", pontuou.
O que dizem os especialistas
O pesquisador alemão Wolfgang Kemmler estuda EMS de corpo inteiro desde o início dos anos 2010. Para ele, a técnica é uma alternativa viável para quem não consegue ou não quer praticar exercícios convencionais. Pesquisas na área apontam para melhorias modestas a moderadas na força muscular, sobretudo quando o EMS é combinado com movimento.
Cedric X. Bryant, CEO do Conselho Americano de Exercícios, reconhece esses resultados, mas é crítico em relação ao marketing. A afirmação de que 20 minutos de EMS equivalem a quatro horas de academia "superestima grosseiramente o que se pode esperar desses treinos", disse ao New York Times. Para ele, a tecnologia é um complemento ao exercício tradicional, não um substituto.
Riscos e contraindicações
O principal risco associado ao EMS é a rabdomiólise — uma degradação muscular grave causada por esforço excessivo que pode levar à insuficiência renal. Como as contrações não dependem do esforço voluntário, o corpo não emite os avisos habituais de fadiga — e quem exagera na intensidade pode não perceber a tempo.
Há também relatos de desmaios em iniciantes. Alex Lagoutte, dono de duas franquias da Iron Bodyfit em Nova York, explica que a sensação incomum pode fazer com que a pessoa esqueça de respirar — ou que chegue ao treino sem ter se alimentado. Profissionais da área recomendam atenção a instrutores sem credenciamento que aumentam a corrente rápido demais.
O EMS não é indicado para pessoas com marcapasso ou determinadas condições de saúde. E, ao contrário do que a proposta de velocidade pode sugerir, o músculo precisa de mais tempo para se recuperar depois de uma sessão de EMS do que depois de um treino convencional. A maioria dos protocolos recomenda intervalo mínimo de 48 a 72 horas entre as sessões.
Dave Asprey, fundador do Bulletproof Coffee e figura conhecida no universo do biohacking, usa EMS há mais de uma década e não vê problema na polêmica em torno da técnica. "Não tenho problema nenhum em alguém dizer: todos os meus músculos vêm da eletricidade", disse ao jornal.
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