Obesidade consome 2% do PIB brasileiro por ano, mostra estudo
A obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal.
O diagnóstico pode ser feito usando o Índice de Massa Corporal (IMC) — quem tem IMC igual ou superior a 30 kg/m² é considerado obeso —, mas, por ser um problema multifatorial, deve ser analisado com cuidado por médicos e especialistas.
No Brasil, segundo a Pesquisa Vigitel 2025, do Ministério da Saúde, o número de adultos com obesidade cresceu 118% entre 2006 e 2024, passando de 11,8% para 25,7% da população.
O excesso de peso, considerando também o sobrepeso, já atinge 62,6% dos adultos brasileiros. E essa epidemia traz consequências para os cofres públicos.
Uma análise conduzida pelo Instituto Cordial, realizador do Painel Brasileiro da Obesidade e financiada pela farmacêutica Novo Nordisk, estima que a prevalência do sobrepeso e da obesidade custa entre R$ 41,7 bilhões e R$ 44,6 bilhões por ano ao Brasil.
O valor equivale a 2% do PIB nacional. Sem uma resposta estruturada, esse custo pode ultrapassar R$ 60,5 bilhões até 2033.
Como o estudo foi feito?
Para chegar a esses números, os pesquisadores adaptaram ao contexto brasileiro um modelo fiscal internacional desenvolvido pela consultoria GMAS (Global Market Access Solutions).
A análise cruzou microdados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 com variáveis de gênero, idade e mortalidade, medindo o impacto da obesidade em três frentes:
Para chegar aos valores finais, os pesquisadores aplicaram modelos de regressão estatística que compararam os indicadores reais de 2024 com um cenário hipotético de "prevalência zero" da doença.
O maior bloco dos custos está nos gastos de saúde associados à obesidade e às suas comorbidades: R$ 29,56 bilhões por ano.
Em seguida, vem a perda de arrecadação tributária, estimada em R$ 9,94 bilhões, sendo R$ 7,35 bilhões em impostos diretos e R$ 2,59 bilhões em indiretos.
Gastos com invalidez somam R$ 6,05 bilhões anuais, considerando que mais de 240 mil aposentadorias no Brasil estão associadas à condição.
Vale ressaltar que o estudo foi financiado pela Novo Nordisk, fabricante dos medicamentos Ozempic e Wegovy — o que não invalida os dados, mas é uma informação relevante para avaliar o contexto da pesquisa.
O impacto no SUS
Apenas dentro do sistema público de saúde, os custos diretos da obesidade, principalmente como internações e medicamentos, já ultrapassam R$ 1,89 bilhão por ano:
Mas esse número cresce quando são contabilizadas as doenças associadas à obesidade, como hipertensão, diabetes e dislipidemias. Nesse cenário ampliado, o custo chega a R$ 29,56 bilhões anuais.
Outro dado relevante: pesquisas avaliadas pelo Instituto apontam que o Brasil gastou US$ 654 milhões (cerca de R$ 3,4 bilhões) com doenças crônicas associadas ao excesso de peso apenas em 2022, com destaque para doenças cardiovasculares, respiratórias e neoplasias.
Cada ponto a mais no IMC médio da população representa um custo extra de R$ 387,3 milhões por ano ao sistema público de saúde.
Cada 1% de redução na prevalência da obesidade, por outro lado, pode gerar uma economia de R$ 444,6 milhões por ano aos cofres públicos.
Por que a obesidade é perigosa?
Apesar do que muitos pensam, a obesidade não é apenas uma questão estética e, sim, uma doença que abre caminho para uma série de condições graves.
O Ministério da Saúde reconhece que, das seis doenças que mais matam no Brasil, quatro estão diretamente relacionadas ao excesso de peso: AVC, infarto do miocárdio, diabetes e hipertensão.
Entre as principais comorbidades associadas à doença estão:
No mesmo período em que a obesidade cresceu 118%, o Brasil também registrou aumento de 135% nos casos de diabetes, 47% no excesso de peso e 31% na hipertensão.
A doença também tem impacto direto na capacidade de trabalho.
A pesquisa do Instituto Cordial aponta que mais de 240 mil aposentadorias no Brasil estão vinculadas ao excesso de peso, o que gera gastos de R$ 6,05 bilhões por ano com invalidez.
Apesar da gravidade, o SUS ainda não oferece medicamentos específicos para obesidade.
O tratamento na rede pública está restrito a mudanças de estilo de vida (dieta e exercício) e, em casos mais graves, à cirurgia bariátrica.
Em agosto de 2025, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) rejeitou a inclusão da semaglutida — princípio ativo do Ozempic e do Wegovy — por custo estimado de até R$ 8 bilhões em cinco anos.
Mulheres são mais penalizadas
A obesidade não afeta homens e mulheres da mesma forma, especialmente no mercado de trabalho.
Segundo a análise do Instituto Cordial, mulheres com obesidade têm maior dificuldade de acesso ao emprego e recebem salários entre 4% e 9% menores do que mulheres sem a condição.
Em casos mais extremos, essa diferença pode chegar a 15%.
A análise dos microdados da PNS de 2019 mostrou que a participação de mulheres na força de trabalho cai progressivamente conforme o IMC aumenta.
Esse padrão não se repete entre os homens com a mesma intensidade.
Para os homens, parte dos modelos analisados mostra que a obesidade não apresenta efeito estatisticamente significativo sobre salários.
O estudo destaca que esses impactos geram desigualdades estruturais no acesso à renda e à previdência social, contribuindo para o aumento de transferências públicas e aposentadorias precoces.
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