OPINIÃO: Web Summit Rio 2026: menos promessas, mais resultados com IA
Por Diogo Garcia*
Acompanho há anos os principais fóruns globais de tecnologia, inovação e empreendedorismo. No Web Summit Rio 2026, participei como speaker e mentor de startups no Mentor Hours, além de acompanhar de perto as discussões dos principais palcos do evento.
Ao mesmo tempo, mantenho um interesse especial pelo que está sendo construído no Brasil. Por isso, procurei observar menos as promessas e mais os casos em que a inteligência artificial já está produzindo resultados concretos para empresas, equipes e mercados. O que encontrei foi um ecossistema em transformação.
A inteligência artificial continua sendo o tema dominante das conversas, mas o foco mudou. Em vez de discutir apenas capacidade tecnológica, empresas, empreendedores e lideranças empresariais estão cada vez mais concentrados em produtividade, escala, governança e criação de valor.
Essa mudança apareceu de forma consistente ao longo das discussões do Corporate Innovation Summit e de outros palcos do evento. A pergunta deixou de ser quem está usando IA. A pergunta passou a ser quem está conseguindo transformar IA em vantagem competitiva.
Um dos exemplos veio do setor financeiro. Ricardo Guerra, CIO do Itaú, compartilhou sua visão sobre a escalabilidade da inteligência artificial dentro de uma das organizações mais complexas e reguladas da economia brasileira.
A discussão mostrou que o verdadeiro desafio não está em lançar projetos experimentais, mas inovar e integrar inteligência artificial a operações críticas, com governança, segurança e capacidade de execução em larga escala.
A mensagem é particularmente importante para founders. Em muitos mercados, a vantagem competitiva já não será determinada apenas pela qualidade do modelo utilizado, mas pela capacidade de incorporar inteligência artificial aos fluxos centrais do negócio.
Quem conseguir fazer isso de forma consistente tende a capturar ganhos operacionais difíceis de replicar.
Aplicações setoriais
A saúde também apareceu como um dos setores mais promissores para a aplicação prática da tecnologia.
Garrett Glass, CEO e cofundador da Open Health Technologies, abordou a evolução da inteligência artificial em um ambiente que combina alto volume de dados, processos complexos e demanda crescente por eficiência.
O debate mostrou como a tecnologia está deixando de ser vista como uma aposta futura para se tornar parte da infraestrutura operacional de organizações que precisam atender mais pessoas, com maior qualidade e menor atrito.
No universo do desenvolvimento de software, as transformações também são evidentes. Nick Durkin, da Harness, discutiu como a inteligência artificial está alterando a velocidade de criação e entrega de produtos digitais.
Em paralelo, Marcelo Lebre, presidente global da Replit, explorou o avanço do chamado vibe coding e a ampliação do acesso às ferramentas de desenvolvimento. O efeito combinado dessas mudanças é significativo.
Equipes menores conseguem produzir mais. Ciclos de experimentação tornam-se mais rápidos. Barreiras técnicas diminuem. Para startups, isso significa acelerar a construção de produtos.
Para o mercado, significa observar modelos de negócio capazes de crescer com estruturas mais enxutas do que as observadas em ciclos anteriores de inovação.
Outro aspecto recorrente ao longo do evento foi a discussão sobre governança. Milena Leal, do Google Cloud, e Graciela Kumruian, da Netshoes, abordaram a implementação corporativa da inteligência artificial sob a ótica da gestão de risco, transparência e responsabilidade.
O tema deixa claro que a adoção da tecnologia não é apenas uma decisão técnica. É uma decisão estratégica. À medida que a inteligência artificial se torna parte dos processos centrais das empresas, governança passa a ser un fator de geração de valor.
Organizações que conseguem equilibrar velocidade de inovação com confiança institucional tendem a avançar mais rapidamente na adoção da tecnologia.
Outro tema que chamou minha atenção foi a crescente relevância do Nordeste brasileiro na agenda de inovação. Como baiano, fiquei particularmente satisfeito ao acompanhar uma discussão dedicada ao papel da região na nova economia digital.
O debate reuniu lideranças do ecossistema regional para mostrar como a combinação entre talento, universidades, empreendedorismo e políticas voltadas à inovação está ampliando a capacidade de criação de empresas e tecnologias competitivas.
Mais do que uma discussão regional, a conversa reforçou a importância de olhar para além das bolhas tradicionais da inovação brasileira. Em um momento em que inteligência artificial, transformação digital e novas infraestruturas tecnológicas ganham protagonismo, ficou evidente que oportunidades relevantes estão surgindo em diferentes partes do país e que o futuro da inovação brasileira será cada vez mais distribuído.
Jubran Coelho, sócio da KPMG Brasil, trouxe ao debate o conceito de mindset agêntico, relevante para quem está construindo empresas em um ambiente cada vez mais influenciado pela inteligência artificial. A tecnologia não exige apenas adoção de ferramentas, mas uma nova forma de organizar decisões, times e processos para capturar valor com mais velocidade.
No Corporate Innovation Summit, diferentes palestrantes convergiram para uma conclusão semelhante: inteligência artificial não substitui estratégia, liderança ou cultura. Ela amplia a capacidade de execução das organizações que já possuem clareza sobre seus objetivos.
Talvez um dos sinais mais interessantes do evento tenha vindo das conversas fora dos palcos. Durante as sessões de mentoria, tive contato com startups brasileiras que estão utilizando inteligência artificial para resolver problemas concretos em educação.
Vi edtechs ajudando professores a reduzir tempo gasto com atividades operacionais, apoiar planejamento pedagógico e personalizar experiências de aprendizagem para estudantes. Em um país que enfrenta desafios históricos na formação de talentos, esse tipo de aplicação possui potencial econômico e social relevante.
O que emerge desse conjunto de experiências é uma visão mais madura da inteligência artificial. O mercado parece estar saindo de uma fase marcada pela curiosidade tecnológica para entrar em um período orientado por execução e resultados.
Menos sobre modelos, mais sobre gestão
Para founders, isso significa construir empresas capazes de integrar inteligência artificial aos processos que realmente movem o negócio. Para lideranças empresariais, significa avaliar não apenas quem possui acesso à tecnologia, mas quem consegue transformá-la em crescimento, eficiência, retenção de clientes ou expansão de mercado.
O Web Summit Rio 2026 mostrou que a próxima etapa da inteligência artificial será menos sobre modelos e mais sobre gestão. Menos sobre demonstrações e mais sobre implementação. Menos sobre experimentação isolada e mais sobre impacto econômico.
Ao longo do evento, ficou evidente que as organizações que mais avançam não são necessariamente as que possuem acesso às tecnologias mais sofisticadas, mas aquelas que conseguem conectar inteligência artificial a problemas reais de negócio.
Para founders, executivos e lideranças empresariais, o desafio agora não é descobrir o potencial da IA. É transformá-la em produtividade, crescimento e vantagem competitiva sustentável. Esse parece ser o verdadeiro divisor de águas da próxima fase da economia digital.
*Diogo Garcia é líder dos Programas de Startups da KPMG Brasil e cofundador da comunidade Confraria do Empreendedor
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