Orçamento milionário e conta do bar: Ford revela bastidores da vitória de 1966 em Le Mans

Por Rodrigo Mora 27 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Orçamento milionário e conta do bar: Ford revela bastidores da vitória de 1966 em Le Mans

Sessenta anos depois de finalmente vencer as 24 Horas de Le Mans, a Ford revelou documentos da época que ajudam a contextualizar o momento da empresa na primeira das quatro conquistas que obteve na principal corrida de longa duração do mundo.

Um deles expõe o orçamento do programa: US$ 1,8 milhão (o equivalente hoje a US$ 18 milhões) para cobrir gastos com carros, equipes, logística e operações de corrida.

“Mesmo para os padrões modernos do automobilismo, é um valor enxuto. Esse número na planilha original traz toda a história para a realidade. Como em qualquer projeto audacioso, nós estouramos o orçamento e houve um memorando pedindo por recursos adicionais para mais pilotos, carros, motores e chassis. O total subiu para US$ 3,5 milhões e graças a Deus foi aprovado”, conta Ted Ryan, gerente do patrimônio histórico e arquivo da Ford, que coordenou a pesquisa.

A lista segue com uma entrevista, via telex, de Henry Ford II para a revista Sports Illustrated e a conta do La Chanticleer, famoso bar do automobilismo dos anos 1960, em Nova York.

“Esse detalhe é importante e mostra um quadro que nenhum comunicado de imprensa conseguiria: pessoas cansadas, aliviadas, finalmente se permitindo aproveitar o momento. Nós temos até a conta dos charutos, com as quantidades e custos exatos. É engraçado ver isso agora, mas também revelador. Em 1966, essa vitória ainda não era uma lenda. Era apenas um grupo de pessoas que tinha conquistado algo gigantesco”, completa Ryan.

Isqueiro de ouro

Além dos nomes de todos os envolvidos no programa da Ford em Le Mans, incluindo engenheiros, designers, construtores e mecânicos, as revelações trazidas pela marca contam também de um presente dado a Henry Ford II por Lee Iacocca, lendário executivo da indústria automotiva e considerado o “pai” do Mustang: um isqueiro de ouro com o logotipo do esportivo e a inscrição: “À saúde, à felicidade e 30% de retorno.”

“As pessoas perguntam por que esses documentos não foram compartilhados antes. A resposta é simples: a Ford não mostrava os bastidores do seu trabalho. Rascunhos e orçamentos eram confidenciais. Essa cultura só mudou nos últimos anos”, explica Ryan, que faz um alerta: “Esses objetos são fragmentos de histórias que, futuramente, precisarão ser resgatadas de outra forma. Pois daqui a 20 ou 30 anos não haverá contas de bar ou telexes – apenas e-mails excluídos e links expirados.”

Como tudo começou

Em 1963, aos 60 anos, a Ford já tinha experimentado quase tudo. Foi de inventora da produção em série à fornecedora de veículos para o Exército Americano nas duas guerras mundiais; fez da Lincoln uma das marcas de luxo mais cobiçadas dos EUA; era reconhecida em quase todos os segmentos, e fazia sucesso tanto na terra natal quanto na Europa; atravessou o luto da morte de seus principais dirigentes (Henry Ford, em 1947, e seu filho Edsel, em 1943). E o Mustang, seu carro mais icônico e bem-sucedido, estava no forno – dele sairia no ano seguinte.

Mas faltava vencer as 24 Horas de Le Mans.

A inegociável e inquestionável ordem veio de Henry Ford II, então presidente da empresa, depois de quase comprar a Ferrari, união que apresentaria o mundo dos supercarros à marca americana e levaria investimentos à italiana. Indisposto a perder sua autonomia sobre a própria empresa, Enzo Ferrari declinou na hora H – o que deixou Ford II furioso.

Vencer Le Mans virou então uma questão de honra para Ford II, praticamente uma vingança. Tanto que esse é o fio condutor de Ford vs Ferrari, filme lançado em 2019 que registra a disputa de duas das maiores empresas do setor em uma corrida que dura um dia inteiro.

Foi então constituída a Ford Advanced Vehicles, instalada em Slough, na Inglaterra, para desenvolver um carro rápido o bastante para vencer a Ferrari. Em 12 de junho de 1963 – menos de um mês após a Ford soltar um comunicado oficializando que o acordo entre ela e a Ferrari havia melado -, o programa de competição foi apresentado à diretoria da Ford. Até o nome do bólido já estava definido: GT40 – um Gran Turismo de 40 polegadas de altura.

Os primeiros protótipos começaram a rodar já em agosto de 1963, equipados com um 4.2 V8, de 350 cv. A apresentação oficial foi no Salão de Nova York do ano seguinte, pouco antes da estreia nas pistas.

Sua construção consistia em motor instalado praticamente no centro do carro. As portas se abriam para cima, mas avançavam sobre o teto. E o cockpit era apertado. Para pilotar um GT40, você tinha que ser baixinho.

A primeira vitória veio em 1965, na pista de Daytona, nos EUA, já com um motor 7.0 V8 e Ken Miles e Lloyd Ruby dividindo o volante.

Entretanto, 1966 parecia promissor. Em Daytona, mais uma vitória. E os segundo e terceiro lugares no pódio também foram do GT40 – já em sua segunda "geração", batizado de Mark II e com o V8 rendendo cerca de 470 cv. Naquele ano, enfim Henry Ford II foi atendido e o GT40 venceu Le Mans, com Chris Amon e Bruce McLaren.

O GT40 então emendou uma sequência arrasadora: Dan Gurney e A.J. Foyt venceram em 1967; Pedro Rodrigues e Lucien Bianchi em 1968 e Jacky Ickx e Jackie Oliver em 1969.

Em janeiro do ano passado a Ford anunciou que voltará a correr em Le Mans em 2027.

“Quando corremos é para vencer. E não há pista ou corrida que signifique mais para a nossa história do que Le Mans. Foi lá que enfrentamos e vencemos a Ferrari na década de 1960. Foi lá que retornamos 50 anos depois e chocamos o mundo vencendo a Ferrari novamente. Estou emocionado de estarmos de volta a Le Mans e competindo no mais alto nível das provas de endurance. Estamos prontos para mais uma vez desafiar o mundo”, garantiu ninguém menos do que Bill Ford, presidente do Conselho da Ford e bisneto do fundador da empresa.

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