Ormuz e Taiwan: ajuda chinesa para reabrir estreito pode ter preço alto para Trump

Por Matheus Gonçalves 14 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ormuz e Taiwan: ajuda chinesa para reabrir estreito pode ter preço alto para Trump

À medida que a visita do presidente Donald Trump à China – a primeira em quase uma década – avança com conversas e negociações, duas questões permeiam o foco comercial da cúpula: a guerra no Irã, que se traduziu em forte crise energética global e abalou cadeias de produção pelo mundo, e a questão de Taiwan, uma ilha com governo independente na costa da China que Pequim busca anexar.

Por mais que o foco da cúpula seja as relações comerciais entre as potências, congressistas americanos temem que essas questões possam se entrelaçar nos bastidores do encontro. Como o maior comprador de petróleo do Irã, a China – que era o destino de até 80% do petróleo transportado pelo Estreito antes do conflito – pode exercer influência política para conseguir acordos concretos na mesa de negociações com o Irã, e pode usar isso para obter concessões americanas em relação a Taiwan.

Uma dessas concessões seria dar a Pequim o direito de vetar a venda de armas dos EUA para a ilha, o que reduziria suas capacidades de defesa no futuro.

Como os principais aliados da ilha, apesar de não reconhecerem formalmente Taiwan como país, os EUA têm interesses estratégicos em manter a independência do território, [grifar]que age tanto como importante fonte de semicondutores, produzindo metade da oferta global do produto com termos favoráveis aos EUA, quanto como um polo de democracia na região, que, assim como o Japão, tende a se alinhar mais aos interesses ideológicos e comerciais americanos do que aos chineses.

Ormuz como moeda diplomática

Com preços que não param de subir nos EUA, de fertilizantes a alimentos e gasolina, a reabertura de Ormuz seria um grande alívio político e econômico para Trump, que perde popularidade e apoio eleitoral às vésperas das eleições de meio de mandato – que decidirão a maioria dos assentos no Congresso – e durante uma série de corridas primárias, nas quais vitórias democráticas refletem uma administração cada vez mais impopular. A reabertura do Estreito se tornou, então, o foco central dos esforços americanos no Oriente Médio.

Apesar de vastos estoques de petróleo que podem mitigar os efeitos da crise na China, o país ainda assim é afetado pelo fechamento do Estreito, e a reabertura de Ormuz também está em seus interesses. Os recursos armazenados são finitos, e novos carregamentos são consideravelmente mais lentos à medida que uma resolução do conflito parece cada vez mais distante. Além disso, uma economia global enfraquecida também significa menor demanda por exportações chinesas, especialmente no Sudeste Asiático, que é particularmente afetado pelos problemas energéticos decorrentes do fechamento do Estreito de Ormuz.

Ainda assim, a posição chinesa não deixa de ser vantajosa, e Xi manobra com cautela sobre o assunto. As autoridades do Irã agora se recusam a negociar diretamente com os EUA enquanto o bloqueio naval americano em seus portos não for levantado, e, com suas propostas recusadas com desdém por Trump, que diz que as ofertas iranianas são “um pedaço de lixo” e que a trégua é “incrivelmente frágil”, a China emerge como alternativa pacífica para o fim do conflito, à medida que a única outra opção do republicano – que hesita em fazer concessões que fortaleçam a posição chinesa –  é ameaçar Teerã com mais bombardeios intensos.

Por que Taiwan é uma questão sensível?

Décadas de história e isolamento transformaram Taiwan em um assunto sensível para a geopolítica, cerne da agenda internacional chinesa

Uma questão histórica que remonta à Revolução Comunista que instaurou o atual regime do Partido Comunista Chinês em 1949, Taiwan, que abrigou o antigo regime do Partido Nacionalista Kuomintang, derrubado na China continental, se desenvolveu longe da ideologia do Partido por mais de sete décadas.

A ilha se desenvolveu em uma democracia autogovernada, com suas próprias eleições independentes, que Pequim enxerga tanto como parte legítima da China quanto como um perigo ideológico por não se alinhar aos interesses do Partido Comunista.

Há anos, a postura de Pequim em relação ao território é considerá-lo como apenas mais uma província, e sua narrativa não descarta explicitamente o uso da força para trazer a ilha sob controle chinês. Taiwan, por sua vez, tem proximidade com outras democracias, como na Europa e nos EUA, rivais ideológicos da China.

Por mais que poucos estados formalmente reconheçam Taiwan como um país, adotando posições ambíguas em relação à ilha a fim de manter laços com a China, os EUA são obrigados por lei a ajudar Taiwan com sua defesa, devido ao Tratado de Relações com Taiwan de 1979.

Para esse fim, enviam armas e equipamentos militares para que a ilha consiga resistir à coerção chinesa e se defender em caso de invasão. Como consequência de anos de história, diferenças ideológicas e peso geopolítico, a questão de Taiwan é, de longe, a mais importante e sensível na agenda chinesa no palco internacional, a ponto de existir um risco real de que um simples erro de cálculo ou um movimento mais brusco de uma das partes gere um conflito indireto entre os Estados Unidos e a China, as duas maiores potências da atualidade, que pode evoluir e se tornar uma guerra.

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