Os bares speakeasy deixaram de ser secretos?

Por Marina Semensato 19 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Os bares speakeasy deixaram de ser secretos?

Se você gosta de reviews de bares e restaurantes nas redes sociais, já deve ter visto algum que, até então, era "secreto". Escondidos em vilas, nos fundos de restaurantes e livrarias, atrás de portas que parecem de geladeira — e que, depois de centenas de milhares de visualizações, não são mais exatamente um segredo. O nome adotado para esses lugares é speakeasy, um conceito com mais de cem anos.

O termo surgiu nos Estados Unidos durante a Lei Seca, que entre 1920 e 1933 proibiu a fabricação e a venda de bebidas alcoólicas no país. Bares clandestinos funcionavam em porões e nos fundos dos comércios, e a entrada dependia de senha. A palavra speakeasy — algo como "fale baixo" — era usada para não atrair a atenção da polícia. Não havia nada de sofisticado naquele formato. "Eles não se importavam com quem estava lá, contanto que pudessem continuar vendendo bebidas e se divertindo", disse Charlotte Voisey, da Tales of the Cocktail, ao Wall Street Journal.

A sofisticação veio depois quando, na década de 1990, uma geração de bartenders americanos ressuscitou o conceito, mas na intenção de criar espaços dedicados à coquetelaria artesanal, protegidos do público casual.

Um dos mais conhecidos foi o Milk & Honey, inaugurado em Nova York na véspera do ano 2000, atrás de uma fachada que parecia uma alfaiataria. Não havia placa, não havia fila, e quem chegava podia ser submetido a uma triagem discreta na recepção. "Tratava-se de dedicação à cultura dos coquetéis, não apenas de mecanismos de bares clandestinos", disse Voisey.

O charme é o segredo

Outro bar que ajudou a definir o formato foi o PDT (Please Don't Tell), cuja entrada é feita por uma cabine telefônica dentro de uma lanchonete. Jeff Bell, que trabalhou no PDT, disse ao WSJ que a decisão de criar uma entrada alternativa foi mais prática do que teatral — o PDT aproveitava a licença de venda de bebidas do restaurante vizinho. Mas quem vai lá costuma começar a conversa pela emoção de atender o telefone na cabine.

Não demorou para que o formato chegasse em outros lugares. O Florería Atlántico, em Buenos Aires, fica embaixo de uma floricultura e é acessado por uma escada atrás de uma geladeira. O Paradiso, em Barcelona — eleito melhor bar do mundo em 2022 pelo ranking World's 50 Best Bars —, funciona atrás de uma fachada que imita um açougue. "Isso te dá permissão para escapar do dia a dia, porque você está atravessando um portal físico", disse David Kaplan, coproprietário do Death & Co, ao WSJ.

O problema é que, com o Instagram e o TikTok, esse portal ficou escancarado. Entradas que dependiam do boca a boca hoje são geolocalizadas em reels com roteiro e edição. Bares que se autodenominam speakeasy aceitam reservas pelo Resy e publicam a senha do dia nos stories. O que antes era algo prático virou um conceito puramente estético, com iluminação baixa, jazz e a carta de coquetéis autorais. A restrição real de acesso ficou no passado.

E no Brasil?

No Brasil, que nunca proibiu a fabricação e a venda de bebidas alcoólicas como os Estados Unidos, o speakeasy chegou como importação cultural, sobretudo nas capitais onde a concorrência entre bares pressiona donos a buscar diferenciais.

Por aqui, há vários exemplos, principalmente em São Paulo. O Oculto, na Vila Madalena, funciona com senha e reserva obrigatória para 24 lugares. O Carrasco, em Pinheiros, fica no piso superior do Guilhotina Bar, acessível por uma cortina, e acomoda 14 pessoas. O Flora Bar se esconde atrás de uma floricultura nos Jardins.

Segundo Carol Warzee, sócia do Oculto, o cuidado com a discrição orienta todas as decisões do bar. "Tudo que a gente fez aqui foi pensando na questão do mistério, desde a comunicação, criação da carta, até a fachada", afirmou ao Estadão.

Já o Frigobar Speakeasy, na zona oeste de São Paulo, funciona poucos dias por semana, recebe no máximo 30 clientes por noite e cobra R$ 150 pela entrada — valor que inclui welcome drink, três coquetéis, sobremesa e café.

Pablo Moya, proprietário do Frigobar, disse ao Estadão que abrir mão de certas regras foi necessário para manter o público."Deixamos as pessoas tirarem fotos e fazerem vídeos, a carta é mais eclética e utilizamos aplicativo para reserva."

Ser ou não ser secreto?

A dúvida entre preservar o mistério e garantir clientela é o dilema central do formato, segundo o WSJ. Nos Estados Unidos, alguns bares tentam impor limites concretos. O Reading Club, em San Diego, proíbe fotos no interior — quem postar algo, perde o acesso.

O Auric Room 1915, em Montana, exige que os clientes depositem o celular numa caixa na recepção. "Era assim que funcionava antigamente quando você ia a um bar — você não podia se esconder atrás do celular, tinha que conversar com a pessoa ao seu lado", disse o coproprietário Jason Liebman ao WSJ.

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