Os dois caminhos para um IPO de IA: lucro em 2027 vs. império até 2030

Por Tamires Vitorio 2 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Os dois caminhos para um IPO de IA: lucro em 2027 vs. império até 2030

No mesmo ano em que as duas maiores empresas de inteligência artificial do mundo vão a público, elas apresentam ao mercado estratégias financeiras que seguem caminhos opostos.

A Anthropic, responsável pelo Claude, projeta fluxo de caixa positivo já em 2027 e receita de US$ 70 bilhões em 2028, segundo documentos internos reportados pelo The Information.

A OpenAI, criadora do ChatGPT, projeta perdas operacionais de US$ 74 bilhões em 2028 e só espera atingir lucratividade em 2030, de acordo com o Wall Street Journal.

A diferença entre os dois, mais do que operacional, é filosófica.

O caminho da Anthropic: margem antes de escala

A Anthropic construiu seu negócio ao contrário do que o setor costuma fazer.

Em vez de correr para o maior número de usuários possível, concentrou 80% da sua receita em clientes corporativos, segundo o CEO Dario Amodei em entrevista à CNBC em Davos, em janeiro de 2026.

O resultado é uma trajetória de receita que o Wall Street Journal descreveu como "muito mais rápida do que a da OpenAI" em direção ao lucro.

Os números confirmam essa trajetória. A receita anualizada saiu de US$ 9 bilhões no final de 2025 para US$ 47 bilhões em maio de 2026, segundo comunicado oficial da empresa.

A margem bruta, que era negativa em 94% em 2024, deve atingir 50% em 2026 e chegar a 77% em 2028, segundo o The Information.

O consumo de caixa, que ainda existe, deve cair para um terço da receita em 2026 e 9% em 2027 — quando a empresa projeta atingir o ponto de equilíbrio.

Para o segundo trimestre de 2026, projeções internas compartilhadas com investidores e reportadas pelo Wall Street Journal e confirmadas pela CNBC apontam US$ 10,9 bilhões em receita e lucro operacional de US$ 559 milhões — o primeiro resultado positivo desde a fundação da empresa, em 2021.

A própria Anthropic alertou que pode não sustentar esse resultado pelo ano completo, dado o aumento de gastos com infraestrutura.

O caminho da OpenAI: império antes de lucro

Sam Altman tem uma resposta direta para quem questiona as perdas da OpenAI. "Acreditamos que o risco de não termos poder computacional suficiente é mais significativo do que o risco de termos demais."

A frase, publicada no X, resume a estratégia da empresa — gastar primeiro, dominar depois.

Os números são coerentes com a aposta. A OpenAI comprometeu US$ 1,4 trilhão em infraestrutura ao longo dos próximos oito anos, segundo a Fortune.

As perdas operacionais devem chegar a US$ 74 bilhões em 2028, equivalentes a cerca de três quartos da receita projetada para o ano, de acordo com documentos obtidos pelo Wall Street Journal.

O consumo de caixa acumulado até 2029 está estimado em US$ 115 bilhões — 14 vezes mais do que a Anthropic queimará no mesmo período, segundo o mesmo jornal.

Em contrapartida, a escala é incomparável. O ChatGPT atingiu 900 milhões de usuários ativos semanais em março de 2026. A receita anualizada chegou a US$ 25 bilhões em fevereiro, confirmada pela CFO Sarah Friar.

As projeções internas, segundo a Bloomberg, apontam receita acima de US$ 280 bilhões em 2030, o ano em que a empresa espera finalmente virar o jogo e atingir lucratividade.

A lógica é a da dominância: quem controlar a infraestrutura, os usuários e os modelos quando a IA atingir escala de utilidade máxima vai capturar uma fatia desproporcional do mercado. As perdas de hoje são o preço do monopólio de amanhã.

Duas apostas, um mesmo teste

O que torna o momento incomum é que as duas estratégias vão ser submetidas ao mesmo julgamento ao mesmo tempo.

A Anthropic depositou seu S-1 confidencial na SEC na segunda, 1º, mirando IPO em outubro. A CNBC confirmou em 20 de maio que a OpenAI se preparava para fazer o mesmo, com estreia prevista para setembro.

O mercado público vai ter que escolher qual narrativa acredita — e o preço que está disposto a pagar por cada uma.

A Anthropic vai pedir que os investidores paguem por um negócio que já se aproxima da rentabilidade, mas com crescimento que depende de continuar dominando o mercado corporativo.

A OpenAI vai pedir que paguem por uma aposta de dominância global que só começa a se pagar no fim da década.

Nenhuma das duas estratégias é obviamente errada.

O que é certo é que o IPO vai forçar uma resposta para uma pergunta que o mercado privado nunca precisou fazer: qual modelo de construir uma empresa de IA os investidores estão, de fato, dispostos a financiar com seu próprio dinheiro.

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