Os próximos passos da brasileira que vendia remédio para hospital e agora movimenta R$ 45 bilhões
No início dos anos 2000, comprar remédio para hospital no Brasil era um problema caro. Os preços vinham altos, a oferta de fornecedores era pequena e a negociação rodava no telefone, no fax e em planilhas que ninguém entendia direito.
Foi nesse cenário que um empreendedor chamado Maurício Barbosa teve uma ideia simples: e se hospitais e fornecedores se encontrassem em um único lugar, pela internet, e disputassem preço ali mesmo?
A empresa que nasceu dessa ideia é a Bionexo. Foi fundada há 25 anos em São Paulo, atravessou a bolha da internet, sobreviveu a três crises econômicas brasileiras e chegou a 2026 com um feito que pouca empresa de tecnologia nacional alcançou: virou a maior plataforma de tecnologia em saúde da América Latina, com 11.000 hospitais e clínicas conectados, 1,2 milhão de usuários ativos e 45 bilhões de reais movimentados por ano dentro do sistema.
O salto mais recente aconteceu na última sexta-feira, quando a Bionexo concluiu a compra do Tasy, software de gestão hospitalar e prontuário eletrônico que pertencia à Philips.
Foram 940 milhões de reais para fechar o negócio — a maior aquisição já feita pela companhia, que agora passa a se chamar Bionexo Tasy. Com a operação, a empresa amplia a presença geográfica de cinco para sete países, somando República Dominicana e Bolívia ao mapa que já incluía Brasil, México, Argentina, Colômbia e Equador.
"Não é todo dia que duas histórias de mais de 25 anos na saúde se unem com esse nível de complementaridade", afirma Solange Plebani, CEO da Bionexo Tasy. "Estamos trazendo 800 talentos de software do Tasy para dentro da Bionexo, com um centro de desenvolvimento em Blumenau, um dos polos mais fortes de tecnologia do país, para acelerar uma plataforma realmente integrada."
O próximo capítulo da Bionexo Tasy não é mais sobre conectar comprador e vendedor de medicamento. É sobre transformar 25 anos de dados acumulados — de compras hospitalares, de prescrições médicas, de prontuários de pacientes — em combustível para a próxima geração de inteligência artificial aplicada à medicina.
É uma corrida cara, global, e a Bionexo quer chegar na frente na América Latina.
Da bolha da internet à plataforma latino-americana
Quando a Bionexo começou a operar, na virada do milênio, o Brasil ainda engatinhava no comércio eletrônico e a maioria dos hospitais nem tinha um departamento de tecnologia.
A proposta de criar um marketplace — um ambiente digital onde várias empresas vendem para várias outras — voltado exclusivamente para o setor de saúde parecia ousada demais.
Funcionou. Nos primeiros anos, o sistema da Bionexo conseguiu reduzir em até 30% o custo de compra de medicamentos e materiais hospitalares, segundo a empresa. Hospitais que demoravam dias para fechar um pedido passaram a comparar preços de dezenas de fornecedores em minutos.
A operação cresceu, atravessou fronteiras e foi se transformando em algo maior do que o marketplace original.
Hoje a Bionexo Tasy reúne 30.000 fornecedores conectados ao seu sistema e mais de 20 categorias de produtos circulando pela plataforma, de remédio a equipamento médico, de material de escritório a serviço de manutenção predial. Tudo o que um hospital precisa comprar passa, de alguma forma, por ali.
Empresa já fez 11 aquisições
Crescer organicamente não era suficiente para a tese da Bionexo.
Para virar uma plataforma de verdade — daquelas que controlam vários pedaços do sistema, não apenas um — a empresa decidiu, há alguns anos, entrar em modo de aquisição. Foram 11 compras antes do Tasy, todas focadas em resolver problemas específicos do dia a dia do hospital.
Uma das frentes mais relevantes é a chamada glosa, termo que define quando o convênio recebe a fatura do hospital e se recusa a pagar parte do valor.
As justificativas variam: o procedimento não foi autorizado, o medicamento não estava no acordo, o paciente estava em carência. O resultado é sempre o mesmo: meses de negociação, pressão no caixa do hospital, parte do dinheiro que nunca chega.
A Bionexo comprou empresas que tentam evitar a glosa antes que ela aconteça, verificando se a receita médica está correta e se o paciente tem cobertura para aquele atendimento. E comprou empresas que entram em ação depois, quando a glosa já bateu na porta, para negociar com a operadora e acelerar o pagamento.
"Quando você pensa nos desafios do setor, o primeiro grupo são os altos custos e a ineficiência. O negócio da glosa é um", diz Solange. "Médico e enfermeiro gastam muito tempo que poderiam usar com coisas que não cuidar do paciente."
Por que o Tasy era a peça que faltava
Das 11 compras anteriores, nenhuma se compara em tamanho ao Tasy. O software foi desenvolvido em Santa Catarina, comprado pela Philips anos atrás e colocado à venda no ano passado. Está instalado em mais de 2.000 instituições de saúde, algumas com mais de 20 anos de uso acumulado.
A diferença é que o Tasy não é mais um produto periférico. É o sistema central que muitos hospitais usam para registrar tudo o que acontece com o paciente — da entrada na recepção à alta médica. Comprar o Tasy é, na prática, comprar acesso ao núcleo da operação hospitalar.
Para a Bionexo, isso resolve um problema antigo. Todos os produtos que ela vinha comprando dependiam de se conectar a sistemas de gestão hospitalar para funcionar. Agora ela tem o sistema dentro de casa.
"Soluções de gestão, ciclo de suprimentos e receita, para existirem, precisam integrar o sistema de gestão hospitalar. E um dos sistemas é o Tasy", afirma Solange. "Ter um produto base dentro de casa vai fazer com que a gente avance muito."
A grande tese por trás da compra, no entanto, não está na operação imediata. Está nos dados.
A Bionexo acumula há 25 anos o histórico de compras hospitalares no Brasil e na América Latina: o que foi comprado, por quem, a que preço, com que frequência. O Tasy carrega o histórico clínico de milhares de instituições: prescrições médicas, exames realizados, procedimentos feitos, evoluções de prontuário.
O que vem pela frente
A integração entre as duas empresas será gradual.
No curto prazo, contratos seguem como estão e clientes continuam usando os sistemas que já usavam. A Bionexo Tasy quer evitar o erro clássico do M&A na tecnologia: forçar uma fusão acelerada que quebra produto e perde cliente.
A primeira frente concreta será o cross-sell, jargão que descreve a venda cruzada entre as bases das duas empresas. A Bionexo tem clientes que não usavam o Tasy. O Tasy tinha clientes que não usavam a Bionexo. O plano é oferecer o portfólio completo para os dois lados. Lá fora, onde a Bionexo já tem operação, a empresa vai começar a comercializar o Tasy.
A segunda frente é o desenvolvimento de novos produtos a partir da combinação dos dois sistemas. A terceira, e talvez a mais ambiciosa, é a aplicação prática de inteligência artificial em produtos que possam ser vendidos para hospitais e operadoras. O Tasy vinha crescendo a taxas de dois dígitos por ano, segundo Solange, e a expectativa da Bionexo é manter esse ritmo.
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