Pais aproveitam maior retorno do IPCA+ em 'pé de meia' para os filhos

Por Rebecca Crepaldi 26 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Pais aproveitam maior retorno do IPCA+ em 'pé de meia' para os filhos

Foi em uma lavoura em Teresópolis (RJ), onde seu pai trabalhava, que Walter Flores aprendeu as primeiras lições sobre como poupar dinheiro, guardando o que ganhava com a colheita de agrião. “Meu pai me levava para a lavoura às 4h da manhã e me deixava naqueles caixotes, sabe? Era sofrido, mas ele conseguia juntar um bom dinheiro. Apesar dele ter somente a segunda série, ele era bom de economia. Não tinha tanto conhecimento assim, mas fazia de tudo para sempre estar poupando”.

Naquela época, ele abriu para ele uma conta na Caixa Econômica Federal — que possui até hoje. Apesar da crise do Plano Collor ter levado boa parte das economias do pai de Flores, o hábito de poupar continuou. A mãe, hoje com 80 anos, ainda guarda dinheiro. “O que eu tenho é para distribuir entre meus filhos quando eu morrer”. Segundo Flores, ela também tinha receio de investir em banco, por conta do Plano Collor, mas aos poucos foi aprendendo e hoje tem uma conta conjunta para seus investimentos.

O aprendizado com os pais foi passado para os filhos. Flores, hoje CEO em um startup, faz um ‘pé de meia’ para sua menina de 15 anos e seu filho de 4 meses. Entre as aplicações, está o Tesouro IPCA+, que está negociando próximo aos 9%, taxa não vista desde a crise de 2008. “Há um argumento forte para que pais olhem com mais atenção para o Tesouro IPCA+ e principalmente para o Educa+ [título voltado a financiamento de estudos] num momento de taxas reais muito altas”, explica João Henrique Delibaldo, planejador financeiro CFP pela Planejar.

Dados da B3 mostram que o número de investidores no Tesouro IPCA+ subiu de 1.088.264, em dezembro de 2024, para 1.322.009 no último mês de maio, um aumento de 21,5%. O estoque mais que dobrou em cinco anos. Em abril de 2022, o valor era de R$ 38,21 bilhões. No mesmo mês em 2026, o número passou a R$ 85,8 bilhões, uma alta de 125%.

Por que o IPCA está pagando tanto?

O ‘mais’ depois do IPCA é o prêmio de risco exigido pelo mercado para aplicar naquele título. E por que ele está tão alto? Pressão inflacionária, incertezas com a dívida pública, desconfiança com o fiscal e ano eleitoral são os responsáveis. “É um patamar fora do comum”, aponta Rafael Winalda, especialista em Renda Fixa do Inter.

O Tesouro IPCA+ remunera o investidor em duas partes: a variação da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — atualmente em 4,72% no acumulado dos últimos 12 meses — e uma taxa de juros real, definida no momento da compra do título. Quando o mercado passa a exigir uma remuneração maior para emprestar dinheiro ao governo, essa parcela de juros reais sobe, elevando o retorno oferecido pelos papéis.

No cenário atual, diversos fatores têm pressionado essas taxas para cima. A Selic em 14,25% ao ano mantém o custo do dinheiro elevado em toda a economia, enquanto as incertezas em relação às contas públicas, ao cumprimento das metas fiscais e ao crescimento da dívida pública fazem os investidores exigirem uma compensação maior para financiar o governo por prazos mais longos.

Tesouro IPCA+ está pagando taxas altas (Carmen Fukunari/Exame)

Ao mesmo tempo, a inflação segue resistente e acima da meta perseguida pelo Banco Central (BC), aumentando a preocupação com a preservação do poder de compra ao longo dos anos. No último Boletim Focus, os analistas consultados pelo BC elevaram a estimativa do IPCA para 2026 de 5,30% para 5,33% ao final de 2026, a 15ª revisão altista.

“No comunicado de junho de 2026, o Comitê de Política Monetária (Copom) destacou que a inflação cheia e os núcleos aceleraram, que as expectativas de inflação para 2026 e 2027 continuam acima da meta, e que o cenário externo segue incerto”, destaca Delibaldo.

Ele completa: “O Tesouro IPCA+ está pagando muito porque o mercado enxerga juros reais elevados por mais tempo e pede mais retorno para carregar prazo longo. Isso normalmente acontece quando há combinação de inflação resistente, incerteza macro/fiscal e curva de juros elevada.”

O ambiente externo também contribui para esse movimento. As tensões geopolíticas, como a Guerra no Irã, e a manutenção dos juros nos Estados Unidos pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano) aumentam a aversão ao risco e reduzem a disposição dos investidores de aplicar recursos em países emergentes sem uma remuneração adicional.

Tesouro IPCA+ entra no radar dos pais

Com os títulos pagando juros reais recordes, o Tesouro IPCA+ entra no planejamento de algumas famílias. A psicanalista Ana Lisboa, está grávida de quase 5 meses e já olha para o investimento com carinho. ‘Cogitaria, sim, investir com essas taxas”, conta à EXAME.

Para ela, a grande angústia de toda mãe e pai é saber se irá conseguir manter os filhos. “Esse é, inclusive, um dos maiores motivos de as mulheres não estarem mais gestando hoje em dia. A taxa de fertilidade está cada vez mais baixa. Existe essa decisão entre o trabalho, a carreira, o sucesso. Eu vou abrir mão disso? Como vou fazer para sustentar essa criança?

Neste sentido, entra a importância dos investimentos. “Foi aí que eu vi realmente a necessidade de olhar ainda mais para o dinheiro investido. E não apenas por uma questão de oportunidade, negócio ou mercado, mas também pela previsibilidade, pela tranquilidade e por esse direito que nós, mulheres, muitas vezes nem sabemos que temos”, conta.

Segundo ela, mesmo sabendo que é importante aprender a fazer o próprio dinheiro, a ideia da família é, sim, fazer um fundo de investimento destinado para ela. “Para que desde pequena ela tenha uma educação financeira muito diferente da que eu tive e da que toda a nossa geração, os millennials e as anteriores, tiveram”.

A EXAME conversou com um pai que aplicou quase todo o pé de meia da filha pequena no Tesouro IPCA+.

“Investimos pensando no futuro da nossa filha e na sua transição para a vida adulta. Não tive isso dos meus pais. Pelo contrário. Vim de um contexto familiar com menos organização financeira e optei por quebrar esse ciclo através do planejamento estruturado. Nosso patrimônio ainda é pequeno, mas considero que conseguimos nos estabilizar e guardar um pouco para o futuro", diz ele, que prefere não ter o nome revelado.

Os investimentos em Tesouro IPCA+ têm como principal objetivo garantir mais autonomia e oportunidades para a criança no futuro. "Quero construir um patrimônio que dê a ela um ponto de partida melhor e a liberdade de fazer as próprias escolhas, sem precisar assumir responsabilidades financeiras com os pais", diz o investidor.

Segundo ele, a estratégia poderá incluir o Tesouro Educa+, já que os pagamentos mensais oferecidos pelo título coincidem com o período em que os jovens costumam enfrentar maiores gastos, como a faculdade e o início da carreira profissional.

Segurança é a prioridade

Para os pais, ter segurança nos investimentos para os filhos é crucial. Flores conta que é um grande adepto à renda fixa. “Já apliquei na bolsa, mas é muito volátil”, comenta. A jornalista Gabrielle Monice, mãe de uma menina de 8 e um menino de 4 anos, investe no Tesouro Prefixado, mas também considera investir no IPCA+.

Em sua visão, tanto um quanto o outro são considerados um ótimo investimento, principalmente para quem não tem conhecimento sobre o assunto. “Foi onde comecei a investir e aprender mais e ainda é onde me sinto mais segura em fazer aportes.”

No que diz respeito ao risco de crédito, Paula Sauer, economista, planejadora Financeira CFP e professora de Economia da ESPM, destaca que os títulos públicos federais são considerados os ativos de menor risco da economia brasileira, justamente por serem emitidos pelo governo federal. “Até o governo quebrar, outros emissores de títulos já quebraram antes”, afirma.

Em termos mais técnicos, explica, o emissor é o governo federal brasileiro, considerado a principal referência de segurança de crédito no mercado doméstico, ou seja, quem compra um título do Tesouro, está ‘emprestando’ dinheiro ao governo, que pagará de volta com juros. “O risco de calote existe teoricamente em qualquer investimento, mas, no caso do Tesouro Nacional, ele é extremamente baixo quando comparado à maioria dos títulos privados”, diz.

Por outro lado, Sauer ressalta que muitos investidores confundem segurança de crédito com ausência de volatilidade. Embora o risco de inadimplência seja reduzido, o preço dos títulos pode oscilar significativamente ao longo do tempo. Segundo o especialista, um investidor que aplique R$ 100 mil hoje pode, alguns meses depois, visualizar um saldo de R$ 90 mil ou R$ 95 mil na tela, sem que isso represente uma perda definitiva.

Mas, desde que o investidor mantenha o título até o vencimento, ele continua tendo direito à rentabilidade contratada. “O problema é quando decide vender antes, porque nesse caso o papel será negociado pelo preço de mercado”, explica. Esse movimento é resultado da chamada marcação a mercado, mecanismo que ajusta diariamente o valor dos títulos de acordo com as condições vigentes de juros e expectativa dos investidores.

Curto, médio ou longo prazo?

Para Sauer, a adequação do Tesouro IPCA+ depende menos do produto em si e mais do perfil e dos objetivos de quem investe. Segundo ela, o título foi concebido para horizontes mais longos, o que torna fundamental avaliar se o prazo da aplicação está alinhado aos planos financeiros do investidor.

Para objetivos de curto prazo, de até dois anos, Sauer considera que o título geralmente não é a opção mais indicada. Isso porque as oscilações de preço podem ser mais relevantes do que o benefício oferecido pela proteção contra a inflação. "Se o investidor precisar resgatar o dinheiro antes do vencimento, pode acabar sendo impactado pela volatilidade. Nesses casos, o Tesouro Selic costuma ser uma alternativa mais adequada", explica.

Já para metas com prazo entre três e sete anos, o Tesouro IPCA+ pode fazer bastante sentido, desde que a data de vencimento esteja alinhada ao objetivo financeiro. Entre os exemplos citados pela especialista estão o planejamento de um intercâmbio para os filhos, a formação de recursos para a entrada de um imóvel ou o pagamento de mensalidades universitárias.

É no longo prazo, porém, que o título mostra todo o seu potencial. De acordo com Sauer, garantir por décadas essa rentabilidade real elevada é uma oportunidade rara na história econômica do país.

"Travar uma taxa de IPCA mais 8% ao ano por 10, 20 ou 30 anos é algo que aparece poucas vezes na economia brasileira. É nesse horizonte que o Tesouro IPCA+ realmente brilha", diz.

Uma simulação feita pela Planejar mostra como a combinação de tempo e disciplina nos aportes pode gerar um patrimônio relevante para os filhos ao longo dos anos. Considerando um investimento inicial de R$ 1.000, prazo de 18 anos, taxa real de 8% ao ano e inflação média de 4%, mesmo contribuições mensais relativamente modestas produzem resultados expressivos.

Um aporte de R$ 100 por mês, por exemplo, pode se transformar em cerca de R$ 102 mil nominais ao final do período, enquanto contribuições de R$ 200 mensais podem resultar em aproximadamente R$ 197 mil. Para quem consegue investir R$ 500 por mês, o patrimônio acumulado se aproxima de R$ 480 mil, e aportes de R$ 1.000 mensais podem levar a um montante próximo de R$ 951 mil.

Flores conta à reportagem que está conversando com seu gerente para realocar portfólio e investir no Tesouro IPCA+, enquanto Gabrielle pretente olhar para o IPCA+ tanto quanto os prefixados. “Em relação ao futuro, acredito que o ‘pé de meia’ traz para a criança a possibilidade de enxergar outros caminhos que não sejam apenas viver na base da pirâmide, sempre conectada à sobrevivência, ao medo e à falta, como a grande maioria de nós nasceu e cresceu”, conclui Lisboa. O mesmo acontece com Oliveira: com as taxas elevadas, deseja aumentar a posição.

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