Panarea, a menor ilha das Eólias e o segredo mais bem guardado do Mediterrâneo
Chegar a Panarea já é uma aventura por si só. Não existe aeroporto e os iates precisam ancorar ao largo, porque o fundo do mar não permite aproximação. O único jeito de visitar o local é de barco, geralmente saindo de Milazzo ou de Nápoles, e cruzando o Mar Tirreno até essa pedra vulcânica de 3,4 km² que fica entre Lipari e Stromboli, no arquipélago das Ilhas Eólias, ao norte da Sicília.
A ilha tem cerca de 280 moradores o ano inteiro. No verão, esse número explode.
A ilha é descrita como "o epicentro da cena de verão mais chique do Mediterrâneo". A frase ficou e circula até hoje em qualquer artigo sobre o lugar. A princesa Alessandra Borghese tem uma casa numa antiga sede militar na Via Vincenzella. Os vizinhos dela incluem um Bulgari, um Visconti e o príncipe Laurent da Bélgica. O Hotel Raya, aberto nos anos 1960 pelo casal de artistas Myriam Beltrami e Paolo Tilche, recebeu Gianni Agnelli, Aristotle Onassis e Francis Bacon nas primeiras décadas.
Nas décadas seguintes, Uma Thurman e Heidi Klum. O hotel mantém até hoje sua classificação modesta de duas estrelas, sem televisão nos quartos.
Uma aldeia de 3.300 anos de idade
O promontório de Punta Milazzese, na ponta sul de Panarea, onde fica o sítio arqueológico da Idade do Bronze com ruínas de 23 cabanas do século XIV a.C. A enseada abaixo é a Cala Junco (Wikimedia Commons)
O que diferencia Panarea de outros destinos que também atraem o jet set mediterrâneo é o que está embaixo de tudo isso. No promontório de Punta Milazzese, na ponta sul da ilha, existe um dos sítios arqueológicos mais importantes do arquipélago das Eólias: as ruínas de uma aldeia da Idade do Bronze, do século XIV a.C., com fundações de 23 cabanas de pedra seca ainda visíveis, de formato oval, dispostas num platô de acesso único por uma estreita faixa de terra.
Durante as escavações do século XX, os arqueólogos encontraram fragmentos de cerâmica miceniana no interior de uma das cabanas, a única retangular do conjunto. A presença desses materiais gregos numa ilha siciliana de 3,4 km² confirma o papel das Eólias como ponto de passagem das rotas comerciais mediterrâneas já na Idade do Bronze. A fase arqueológica local recebeu o nome de Milazzese em homenagem ao sítio. Estima-se que a aldeia foi abandonada de forma abrupta, provavelmente após um episódio violento.
Os gregos chegaram ao arquipélago por volta de 600 a.C., com colonos vindos de Cnidos, na Ásia Menor. Antes deles, entre os séculos VII e VI a.C., as ilhas foram alvejadas periodicamente por piratas etruscos. Em 252 a.C., passaram para controle romano. A sequência de ocupações é o tipo de estratigrafia que faz os historiadores ficarem acordados à noite, e é essa acumulação que o escritor escocês William Dalrymple foi buscar quando visitou a ilha recentemente, depois de uma semana rastreando tumbas etruscas na Úmbria. O texto dele foi publicado no Financial Times na semana passada.
Sem carro, sem flat screen
O transporte interno é feito por carrinhos de golfe elétricos, o que inclui a polícia e os táxis. A construção é regulada com rigor, em parte porque o arquipélago das Eólias é Patrimônio Mundial da Unesco desde 2000. Os três núcleos habitados, San Pietro, Ditella e Drauto, ficam todos no lado leste da ilha, enquanto as partes oeste e norte são de paredões de lava solidificada inacessíveis pelo mar.
San Pietro é o centro da vida social no verão, com restaurantes, lojas e a discoteca do Hotel Raya. A temporada vai de meados de julho até o fim de agosto. Fora desse período, boa parte da ilha fecha. Maio, junho e setembro são os meses preferidos dos frequentadores antigos, que evitam a ilha justamente no auge da temporada.
As sandálias de couro artesanal com tiras coloridas que sobem pela perna viraram item de reconhecimento entre quem frequenta outras praias do Mediterrâneo. A Dior lançou uma tote batizada de Panarea. A Ferragamo, um chinelo com o mesmo nome. Os moradores tradicionais encaram isso como mais uma tentativa do mundo de chegar a um lugar que foi construído, deliberadamente, para ser difícil de alcançar.
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