Papa Leão XIV pede regulação da IA: 'quem a controla impõe sua visão'
O Papa Leão XIV usou sua primeira encíclica para formalizar o posicionamento do Vaticano no debate global sobre inteligência artificial. Publicada nesta segunda-feira, 25, ela é intitulada "Magnifica Humanitas: Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial".
No documento, o Papa alerta líderes para que protejam a humanidade dos efeitos mais disruptivos da tecnologia. A encíclica, uma carta aberta dirigida "a todas as pessoas de boa vontade", tem cerca de 42.300 palavras em sua versão em inglês.
A publicação formaliza uma série de manifestações do Papa sobre o tema.
Um ano atrás, em seu segundo dia como pontífice, Leão XIV já havia sinalizado ao Colégio de Cardeais que, sob sua liderança, a Igreja enfrentaria os riscos que a IA representa para "a dignidade humana, a justiça e o trabalho", segundo o New York Times.
Na semana passada, o Vaticano havia anunciado a criação de uma comissão de altos funcionários católicos para discutir os desafios impostos pela IA, segundo o Vatican News.
Leão XIV apresentou "Magnifica Humanitas" ao lado de Christopher Olah, cofundador da Anthropic, uma das principais empresas de desenvolvimento de IA.
O que o Vaticano propõe sobre IA
Dividida em cinco capítulos, a carta parte de uma premissa: a tecnologia não é "uma força antagônica à humanidade" nem "intrinsecamente má".
Ao mesmo tempo, "a tecnologia nunca é neutra, porque assume as características de quem a concebe, financia, regula e utiliza". Para o Papa, "uma IA mais moral não é suficiente se essa moralidade é determinada por poucos".
Entre os principais pedidos da encíclica se destacam:
Sobre as crianças, o Papa foi particularmente detalhado.
Ele escreveu que "a literatura psicológica e psiquiátrica documentou com crescente insistência como a exposição precoce e sem supervisão a dispositivos digitais e redes sociais pode impactar negativamente" a saúde dos jovens.
Já sobre as armas autônomas, para o Papa, "não há algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável". A IA, escreveu Leão XIV, "não elimina a desumanidade intrínseca do conflito; ao contrário, só pode provocar o conflito mais rapidamente e torná-lo mais impessoal, reduzindo o limiar para recorrer à violência".
A encíclica também aponta para o que chama de novas formas de colonialismo: o uso de informações vitais sobre saúde e demografia, por exemplo, para orientar estratégias econômicas transforma aspectos íntimos da vida humana em ativos exploráveis
O documento ainda condena o trabalho de extração de "elementos de terras raras" necessários para a tecnologia, denunciando as condições dos corpos "marcados, feridos e desgastados" dos trabalhadores envolvidos nessa cadeia produtiva.
O Papa "renova a firme condenação da Igreja a toda forma de escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas."
Uma resposta à Revolução Industrial do século 21
Embora o Papa tenha apresentado publicamente a encíclica nesta segunda-feira, ele a assinou formalmente em 15 de maio, no 135º aniversário da publicação da Rerum Novarum, ou "Das Coisas Novas", em português, uma importante encíclica redigida em 1891 pelo papa Leão XIII.
A Rerum Novarum, escrita em meio à Revolução Industrial, defendeu proteger os direitos e a dignidade da classe trabalhadora e tornou-se um dos textos fundadores do ensino social católico moderno.
Na nova encíclica, Leão XIV adota tom semelhante ao alertar sobre a ameaça que a inteligência artificial representa aos trabalhadores.
O trabalho, escreveu o Papa, é mais do que uma forma de obter renda: é "uma exigência da condição humana, um caminho normal para a maturidade, o desenvolvimento e a realização pessoal."
Ele advertiu que sindicatos e entidades de proteção ao trabalhador criados durante a primeira revolução industrial não serão suficientes para proteger os trabalhadores durante uma transição tecnológica que pode deixar milhões de pessoas desempregadas.
IA pode 'entrar em conflito com fazer a coisa certa', diz CEO da Anthropic
Na ocasião, Christopher Olah, da Anthropic, defendeu que o desenvolvimento da inteligência artificial não pode ser deixado exclusivamente nas mãos das empresas de tecnologia, pedindo maior supervisão por parte de líderes religiosos, governos e sociedade civil, de acordo com a agência Reuters.
Ele admitiu que companhias como a sua operam sob fortes pressões comerciais, geopolíticas e pessoais, que podem entrar em conflito com os interesses mais amplos da sociedade.
"Todo laboratório de IA de fronteira opera dentro de um conjunto de incentivos e restrições que às vezes podem entrar em conflito com o que é certo", afirmou ele na cerimônia, acrescentando que mesmo pesquisadores bem-intencionados ainda são influenciados por essas forças.
A Anthropic, empresa americana criadora das ferramentas de IA Claude, já entrou em conflito com o governo do presidente Donald Trump ao insistir em restrições que limitam o uso de seus modelos para fins militares, como o direcionamento autônomo de armas e a vigilância doméstica.
A posição da empresa converge com o apelo de Leão XIV por "salvaguardas rigorosas" no uso bélico da IA.
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