Para onde vai o ouro? BCs veem perda de espaço do dólar em cinco anos

Por Ana Luiza Serrão 17 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Para onde vai o ouro? BCs veem perda de espaço do dólar em cinco anos

O ouro continua consolidando seu papel como um dos principais ativos estratégicos, ao mesmo tempo em que cresce entre os bancos centrais a percepção de que o dólar estadunidense, embora ainda dominante, deve perder grande parte de sua participação nas reservas internacionais nos próximos anos.

A conclusão aparece na edição de 2026 da Central Bank Gold Reserves Survey, pesquisa anual realizada pelo World Gold Council com 76 bancos centrais de economias desenvolvidas e emergentes.

Hoje, o dólar representa cerca de 42% das reservas internacionais mundiais, enquanto o ouro responde por 26%. O euro possui participação de 15%, e o yuan chinês, de 1%. Embora a pesquisa não trate explicitamente de uma "desdolarização", as respostas indicam um movimento gradual de diversificação das reservas globais.

Questões geopolíticas e a busca pelo ouro

O impulso disso está atrelado a questões geopolíticas, sanções econômicas, disputas comerciais e preocupações fiscais nas principais economias do mundo. Um dos bancos participantes, cujo anonimato foi mantido, espera uma redução gradual da exposição ao dólar devido ao ambiente político internacional.

"Esperamos que haja uma redução da participação das reservas totais mantidas em dólares americanos. Essa diminuição virá principalmente de países cujas relações com os Estados Unidos possam ser afetadas pela política externa e pelas relações políticas americanas", esclareceu.

Outro entrevistado destacou que a moeda dos EUA deve continuar liderando o sistema monetário, mas com espaço menor. "Em cinco anos, o dólar continuará dominante, embora em nível inferior ao atual. Ouro, yuan e outras moedas podem ampliar sua participação (no período)", disse.

O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) acredita que há uma janela de entrada rara para comprar o ouro após uma queda de 25% do metal de janeiro, quando atingiu a máxima de US$ 5.595 por onça, a junho. E o papel dos bancos centrais como compradores é uma das teses mais fortes para a compra.

O ouro spot opera estável, a US$ 4.331,23 por onça, e o futuro para agosto, -0,07%, a US$ 4.350,97, por volta das 9h39 (horário de Brasília).

Ouro ganha importância diante de incertezas

Se a confiança no dólar dá sinais de erosão gradual, o ouro segue fortalecendo sua posição entre as autoridades monetárias. A pesquisa mostra que 89% dos bancos centrais acreditam que as reservas globais de ouro continuarão crescendo nos próximos 12 meses. Já 45% afirmaram que pretendem ampliar suas próprias reservas no próximo ano. Este é o maior percentual já registrado pelo levantamento.

O movimento ocorre após quatro anos consecutivos de compras superiores a mil toneladas anuais por bancos centrais, o dobro da média observada na década anterior. O levantamento mostra também que eles enxergam o ouro, cada vez mais, como um instrumento de proteção.

O desempenho da commodity em períodos de crise, sua capacidade de preservar valor no longo prazo, a ausência de risco de inadimplência e seu papel como diversificador de portfólio são importantes fatores que favorecem o ouro. A própria demanda dos bancos tem contribuído para sustentar a tendência de valorização do metal.

Emergentes puxam a demanda pelo ouro

O apetite pelo ouro é, particularmente, forte entre os bancos centrais de mercados emergentes. Eles demonstram preocupação maior com juros elevados, inflação e instabilidade geopolítica, vendo o metal precioso como uma ferramenta importante para fortalecer a segurança de suas reservas internacionais.

Historicamente, boa parte das reservas mundiais foi armazenada em centros financeiros como Londres e Nova York. Nos últimos anos, porém, alguns BCs passaram a aumentar a parcela em seus próprios territórios. Hoje, 59% das instituições mantêm suas reservas locais, enquanto 9% ampliou essa prática nos últimos 12 meses.

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