Para quem vive do vinho, se parar o bicho pega, se correr o bicho come
A guerra no Irã bateu no mercado europeu de vinhos como um tsunami que ninguém queria, mas muitos temiam. Na Europa, não se trata de geopolítica distante — o choque da alta dos custos de energia foi mais imediato e devastador do que no Brasil. Cada subida no preço do barril do petróleo é, para os produtores de vinho, como um gancho certeiro do Mike Tyson. Tantos deles já caíram de pernas bambas nessa nova crise após vários rounds de duros golpes nos últimos anos: geadas sucessivas, canículas ardentes, perda de mercado para bebidas sem álcool, tarifas oscilantes de Trump etc.
Na França, os combustíveis subiram cerca de 14% desde o início do conflito. Como no mundo todo, o noticiário foca os consumidores furiosos enchendo seus tanques em postos de gasolina. Fala-se menos das trágicas consequências sentidas no campo. A viticultura depende de tratores e outros maquinários pesados. Passadas no vinhedo consomem diesel sem fim. Na adega, é a eletricidade que faz explodir custos: bombas, prensas pneumáticas, sistemas de controle de temperatura... Tudo consome energia.
Caixas, etiquetas e cápsulas chegam por estradas (as rolhas, quase sempre do Alentejo) e já vinham em trajetória de forte alta desde a pandemia. Nenhum insumo, no entanto, viu maior explosão de preço do que o vidro (cerca de 44% na França). Garrafas exigem enormes quantidades de calor e energia para sua fabricação e perigam tornarem-se um produto industrial de luxo.
A inflação permeia toda a cadeia logística. Transportadoras já reajustam seus preços para entregar pedidos. Importadores defrontam-se com fretes rodoviários encarecidos. Por via marítima, muito mais ainda, especialmente nas rotas para a Ásia e o Oriente Médio. Soma-se ao custo do tanque de diesel do navio cargueiro o custo da periculosidade, pressionando margens e desorganizando fluxos comerciais.
Para quem vive do vinho, se parar o bicho pega, se correr o bicho come. Repassar a alta de custos aos consumidores cada vez menos numerosos só os fará fugir. Absorvê-los, para a grande maioria, é insustentável. A tempestade lançará muitos marujos ao mar e naufragará naus cujos rombos no casco só insiders do mercado conseguem ver.
Já se fala há tempos da quebradeira entre pequenos produtores. O que quase ninguém conta é que vinícolas famosas também estão correndo risco de falência. Em regiões de grande prestígio, como Bordeaux e Champagne, várias propriedades renomadas foram postas à venda com desconto e muito discretamente, para não queimarem suas reputações. Herdeiros empobrecidos vêm fazendo caixa leiloando a adega da família, também sem alarde. A crise do vinho na Europa está mais turbulenta até do que os mares que levam a Ormuz…
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