Parabéns, trabalhador brasileiro. Você fez isso tudo sozinho

Por Rodrigo Dib 1 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Parabéns, trabalhador brasileiro. Você fez isso tudo sozinho

Existe um brasileiro que acorda cedo todo dia sem ter certeza de que vai dar conta. Que aprendeu a negociar salário errando.

Que descobriu o que era ser CLT sozinho.

Que entendeu o que era FGTS quando precisou sacar ou seguro saúde quando estava no limite da sua saúde.

Que virou autônomo porque não tinha outra saída, preencheu tudo sozinho, sem orientação, e foi em frente assim mesmo.

Esse brasileiro fechou 2025 sustentando algo que nunca tinha acontecido antes. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a população ocupada chegou a 103 milhões de pessoas, batendo o recorde da série histórica iniciada em 2012.

A taxa de desemprego anual caiu para 5,6%, também a menor já registrada — chegando a 5,1% no último trimestre do ano.

Não foi o acaso que fez isso. Foi ele.

Mas a homenagem verdadeira não é a do elogio fácil. É a da honestidade. Porque esse mesmo trabalhador vive num país que cobra muito e prepara pouco.

Segundo o Boletim do Tesouro Nacional, a carga tributária bruta do Brasil atingiu 32,4% do PIB em 2025, o maior nível da série histórica iniciada em 2010.

Grande parte dessa arrecadação vem de tributos indiretos — que incidem sobre o consumo e atingem de forma desproporcional as pessoas de menor renda. Quem ganha menos, paga proporcionalmente mais.

Com esse dinheiro, o que o país devolveu?

Há um discurso recorrente de que o brasileiro é pouco produtivo. Antes de aceitar essa tese, vale uma pergunta simples: como comparar produtividade entre trabalhadores que vivem em condições radicalmente diferentes?

Na Alemanha, o trabalhador vai ao médico e é atendido. Leva o filho a uma escola com infraestrutura de dar inveja e ensino de ponta. Chega ao trabalho num transporte que funciona. Come bem porque seu salário permite. Aqui, a realidade é outra.

Segundo o INEP e o MEC, no PISA 2022 — maior avaliação educacional do mundo (e ainda válida) — apenas 27% dos estudantes brasileiros de 15 anos atingiram o nível mínimo de proficiência em matemática, contra 69% na média dos países da OCDE. O Brasil ficou na 64ª posição entre 81 países avaliados.

A escola que não forma bem o jovem forma mal o trabalhador de amanhã.

Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria com mais de 2.000 trabalhadores em todas as regiões do país, 51% afirmam que a produtividade é impactada negativamente pelo tempo de deslocamento, e 36% passam mais de uma hora por dia apenas no transporte.

E a renda média de R$ 3.560 que os números celebram é, nas grandes cidades, o que resta depois de aluguel, transporte e alimentação básica.

Um corpo cansado, mal atendido, que passa horas no ônibus e calcula cada compra no supermercado não vai render menos por falta de vontade. Vai render menos porque é humano.

Produtividade não nasce do nada. Ela precisa de condições. E comparar o trabalhador brasileiro com o alemão sem comparar o que cada país entregou a eles não é análise — é injustiça.

O Brasil tirou educação, saúde, transporte e boa alimentação, ao mesmo tempo, por décadas, da maioria dos seus trabalhadores. E mesmo assim, eles foram trabalhar. O resultado de décadas sem essas condições aparece na informalidade.

Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a taxa de informalidade em 2025 foi de 38,1% da população ocupada, com o contingente de trabalhadores por conta própria chegando ao maior nível da série histórica: 26,1 milhões de pessoas.

O próprio IBGE registra que a taxa de desocupação para quem tem ensino médio incompleto é de 8,7% — quase o dobro da média nacional — e que os estados com menor escolaridade concentram as maiores taxas de informalidade do país.

A linha é direta: menos escola, menos acesso ao mercado formal, menos proteção.

Informalidade não é preguiça. É a solução de quem o sistema nunca incluiu formalmente, mas que precisava trabalhar de qualquer jeito.

E agora vem a próxima onda

A inteligência artificial está reescrevendo funções inteiras em meses — exatamente as que concentram esse perfil de trabalhador. Quem avisa? Quem prepara? Quem reconverte?

Ninguém. Como sempre.

O trabalhador brasileiro chegou até aqui do jeito que pôde: sem mapa, sem rede, sem sistema do lado. Sustentou recordes históricos num país que cobra imposto de primeiro mundo e entrega infraestrutura de mera sobrevivência.

Honrar esse trabalhador de verdade não é fazer discurso no Dia do Trabalho. É parar de tratar como normal o fato de ele ter chegado até aqui sozinho. E começar a construir o país que ele merecia ter tido o tempo todo.

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