Payroll fraco nos EUA aumenta incerteza sobre próximos passos do Fed

Por Clara Assunção 7 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Payroll fraco nos EUA aumenta incerteza sobre próximos passos do Fed

A divulgação do relatório de emprego dos Estados Unidos, conhecido como payroll, trouxe uma surpresa negativa para o mercado nesta sexta-feira, 6, e ampliou a aversão ao risco nos ativos globais.

Segundo analistas, os dados mostraram fechamento líquido de vagas em fevereiro, sinalizando enfraquecimento do mercado de trabalho americano e aumentando as incertezas sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).

A economia do país fechou 92 mil empregos em fevereiro, de acordo com os dados divulgados pelo Departamento do Trabalho. O resultado veio na contramão das expectativas de analistas, que projetavam a criação de cerca de 50 mil vagas no período.

A taxa de desemprego também mostrou deterioração. O indicador subiu de 4,3% em janeiro para 4,4% em fevereiro, enquanto a estimativa do mercado apontava para estabilidade, em 4,3%.

Por outro lado, os salários continuaram avançando em ritmo relativamente forte. O salário médio por hora subiu 0,4% de janeiro para fevereiro, para US$ 37,32, acima da expectativa de alta de 0,3%. No acumulado de 12 meses, o indicador avançou 3,8%, também ligeiramente acima da projeção do mercado, de 3,7%.

Reação negativa nos mercados

A reação dos mercados foi negativa. No Brasil, o dólar mudou de direção após a divulgação dos dados. Depois de abrir em alta e recuar no início da manhã, a moeda americana voltou a subir. Por volta das 11h08, avançava 0,38% frente ao real, cotada a R$ 5,308.

Nos Estados Unidos, os futuros das bolsas também operavam em queda. Segundo Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue, o movimento reflete tanto o dado mais fraco do mercado de trabalho quanto o aumento das tensões no Oriente Médio, que impulsionam o preço do petróleo.

"Quando a gente olha para a Bolsa, ela tem caído nessa abertura do mercado. Entre os principais fatores estão justamente a alta do preço do petróleo por causa do conflito no Oriente Médio e agora também esse dado de mercado de trabalho vindo bastante abaixo da expectativa", afirmou.

Os contratos futuros apontavam queda de mais de 1% do S&P 500, Dow Jones e Nasdaq após a divulgação do indicador.

O cenário também provocou movimentos na renda fixa americana. "Quando a gente olha para a renda fixa, a gente acompanha a curva de dois anos com leve queda nos yields, mostrando uma perspectiva de corte de juros do Fed ainda ao longo desse ano", disse Yamashita.

Payroll coloca Fed em 'posião delicada'

Segundo o especialista, antes da divulgação do payroll o mercado trabalhava com apenas um corte de juros em 2026, diante da pressão inflacionária associada ao petróleo. Com o dado mais fraco do emprego, a expectativa voltou a apontar para dois cortes, um em julho e outro em dezembro do próximo ano.

Apesar da fraqueza do mercado de trabalho, analistas avaliam que o cenário para a política monetária americana segue complexo.

Para Ellen Zentner, do Morgan Stanley, os dados colocam o Fed em uma posição delicada. "Números de hoje podem ter colocado o Fed numa situação difícil, dado o risco de que preços do petróleo elevados por tempo prolongado possam desencadear outra onda inflacionária. O Fed pode se sentir compelido a permanecer em compasso de espera", afirmou.

Na mesma linha, Ira Jersey, da Bloomberg Intelligence, avalia que choques de oferta ligados à energia devem continuar influenciando o comportamento das taxas de juros no mundo. "O receio de choques na oferta relacionados à energia pode continuar a influenciar os mercados de juros globalmente", disse.

Para Christopher Hodge, da Natixis, o dado reforça a visão de integrantes mais moderados do Fed. Segundo ele, o resultado "reforçará a posição dos mais moderados, principalmente Christopher Waller, de que os dados recentes mais fortes eram uma ilusão", afirmou.

Já Lindsay Rosner, do Goldman Sachs, vê o resultado como um alerta para o banco central americano. "Indícios de fragilidade no mercado de trabalho servem de alerta ao Fed de que pode haver um preço a pagar pelo adiamento dos cortes", afirmou. Ainda assim, ela avalia que o curto prazo da política monetária continua sendo influenciado pela geopolítica no Oriente Médio.

Rosner acrescenta que a expectativa é de que o Fed ainda realize dois cortes de juros no processo de normalização da política monetária, embora o momento exato permaneça incerto.

A ferramenta FedWatch, do CME Group, que monitora as expectativas para as decisões do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), indica que mais de 95% dos agentes financeiros apostam na manutenção da taxa de juros na próxima reunião, no intervalo entre 3,50% e 3,75%.

Já André Valério, economista sênior do Inter, avalia que o resultado reforça sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho americano e aumenta a probabilidade de cortes nos juros ao longo do ano. Mas a tarefa do Fed "continua difícil", segundo o especialista.

Ele aponta que os salários continuam crescendo a ritmo robusto. Além disso, o dado pior que o esperado do índice de preços ao produtor  implica que o PCE virá mais alto que o esperado inicialmente. E o impacto da guerra no Irã também se torna um fator de preocupação, com o preço do petróleo se aproximando dos US$ 90, o que pode se tornar uma pressão de alta na inflação americana nos próximos meses, caso o conflite perdure além do esperado ou se intensifique

"Portanto, para a reunião de março ainda esperamos que o Fed opte por manter a taxa de juros inalterada devido à elevada incerteza, mas o dado de hoje aumenta a probabilidade de cortes nos juros ao longo do ano. Por ora, mantemos expectativa de que novo corte só deve ocorrer na reunião de junho", disse Valério.

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