Pele impressa e máquinas batizadas de divas pop: conheça o laboratório da Boticário

Por Letícia Ozório 17 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Pele impressa e máquinas batizadas de divas pop: conheça o laboratório da Boticário

Desde 2001, os produtos da fabricante de cosméticos Grupo Boticário não passam por testes em animais, que só foram proibidos por lei há cerca de um ano. Mas sem os animais, como são realizados os testes dos itens de beleza e higiene? A resposta envolve a criação de peles 3D, metodologias alternativas e investimentos em escala em pesquisa e desenvolvimento.

A EXAME visitou o centro de inovação da companhia em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba (PR), e conheceu de onde surgem os cremes, maquiagens e perfumes, entre centenas de produtos, utilizados em todo o Brasil.

A fabricante foi a primeira no país a desenvolver uma pele 3D a partir de modelos de tecidos reconstituídos, ou seja, replicando células de tecido humano descartado após cirurgias plásticas. O processo depende do consentimento do doador.

O modelo é desenvolvido in vitro desde 2012 e mimetiza a pele humana, possibilitando avaliar a performance e segurança dos produtos sem os testes em animais. No laboratório, a pele é replicada tal qual a humana: primeiro é feita a derme, que dá firmeza e elasticidade para a camada externa do corpo; em seguida é a epiderme, responsável pela barreira e proteção, mas também onde estão os melanócitos, responsáveis pela coloração da pele.

O teste com a pele 3D avalia desde um potencial de irritação de um produto sendo desenvolvido até a eficácia de produtos com colágeno e elastina, que combatem a flacidez. Como a tecnologia recria a pele em seis diferentes tons de pele e em várias idades, a inovação também ajuda a garantir que o produto funcione em grupos diversos.

Um dos benefícios é que uma mesma amostra de pele 3D pode ser usada em vários testes, sem que seja descartada.

Métodos alternativos para testes

A linha de cosméticos infantis, chamada Boti Baby, também passa por um teste diferenciado: o Grupo Boticário desenvolveu a Boti Baby Skin, pele 3D que replica células infantis. O objetivo é testar os produtos em peles sensíveis como de crianças, permitindo uma visão mais próxima da realidade.

Andrezza Canavez, gerente de segurança de produto e métodos alternativos da companhia, explica que a companhia desenvolveu outros métodos focados na biossegurança dos produtos, como um modelo de córnea humana reconstruída, para avaliar o potencial de irritação dos itens aos olhos. “Já temos mais de 59 metodologias alternativas para testes, desde a pele 3D até o uso de ferramentas digitais para avaliar moléculas”, conta.

Esse trabalho demanda investimentos em escala: em 2025, o Grupo Boticário captou R$ 2 bilhões em títulos sustentáveis, que conectam indicadores de desempenho ambiental e social às condições de financiamento. Do total, 1,625 bilhão de reais foram atrelados a criação de métodos alternativos de testes para produtos (expandindo  55 para 70 métodos até 2030) e a divulgação científica de 12 novos métodos. O valor ainda é focado na redução de 62% das emissões de escopos 1 e 2 até 2034.

Uma das formas encontradas para acelerar as testagens é a bioimpressão 3D, que funciona como uma grande impressora que substitui a tinta por materiais biológicos, como células, proteínas e fatores de crescimento. Assim, é possível recriar as estruturas da pele a partir da tecnologia. Um dos diferenciais desse método é que possibilita adicionar outras características nos testes, como folículos capilares, o que ajuda a garantir que todos os produtos cheguem ao cliente final funcionando exatamente do jeito idealizado em laboratório.

Bioimpressora 3D reproduz as características da pele humana com materiais biológicos, como células, proteínas e fatores de crescimento (Letícia Ozório/EXAME)

A tecnologia e digitalização de processos têm sido aliadas da inovação no Grupo Boticário, como explica a gerente de segurança de produto e métodos alternativos da companhia. “Usamos a inteligência artificial preditiva para avaliar o efeito sistêmico dos produtos, seja numa possível irritação a pele humana ou um risco ambiental”, conta.

Divas ‘pop’ no centro de inovação

Entre as soluções inovadoras e a tecnologia de ponta, o que mais chamou a atenção da reportagem durante a visita ao centro de inovação foram fotos coladas nos equipamentos de purificação. Não eram imagens dos produtos sendo testados nem o nome das cientistas responsáveis. Trata-se fotos de cantoras pop como Rihanna, Beyoncé, Anitta e Ariana Grande, vestidas com jaleco, que foram coladas ao maquinário utilizado para purificar novos ativos cosméticos.

A equipe de cientistas que acompanhou a visita explicou que as máquinas têm “nomes complexos e muito parecidos”, então, ao invés de citar o código completo da máquina para se referir a ela, a escolha mais prática (e divertida) foi nomeá-las a partir das divas pop. Clássicas como Madonna também fazem parte do maquinário. “A recém-chegada para a equipe é a Taylor Swift”, conta Canavez, entre risadas.

Imagens de Ariana Grande (esq.) e Anitta (dir.) vestidas de jaleco são coladas ao maquinário como forma de identificar as purificadoras no laboratório (Letícia Ozório/EXAME)

Beyoncé (esq.) e Madonna (dir.) são homenageadas em outros equipamentos (Letícia Ozório/EXAME)

Impacto ambiental dos produtos

A área de inovação do Grupo Boticário ainda avalia o risco de contaminação para os rios e mares após o uso dos produtos. Por meio da metodologia I.A.R.A. (Índice de Avaliação de Risco Ambiental), a fabricante estuda como os produtos enxaguáveis liberam substâncias — e quais delas podem prejudicar espécies de peixes, corais e outros animais.

"A plataforma determina o risco a partir de uma pontuação, já que não basta ser biodegradável. Os ingredientes não podem apresentar nenhum grau de ecotoxicidade ou de bioacumulação, processo em que um organismo retém e acumula substâncias químicas tóxicas", explica.

A partir de amostras digitais, a tecnologia avalia se os itens são seguros para diferentes espécies (Letícia Ozório/EXAME)

O Boticário conta com uma tecnologia que avalia o embranquecimento dos corais e destruição de algas sob o impacto de protetores solares do Grupo. O teste completo pode levar até 30 dias, mas determina a partir da coloração (entre transparente e verde escuro) qual o potencial de impacto: se a alga ficou transparente, o produto precisa ser repensado, já que destruiu as moléculas, mas pode seguir na produção se a coloração for esverdeada.

Por meio de computação, as pesquisadoras avaliam os riscos para os receptores de diferentes espécies de peixes. Por meio dele, entendem se o impacto da fórmula é prejudicial para a saúde dos animais.

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