Pequenos negócios de Porto Alegre temem novo El Niño: 'sem fôlego para outra enchente'

Por Daniel Giussani 23 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Pequenos negócios de Porto Alegre temem novo El Niño: 'sem fôlego para outra enchente'

É difícil achar localização melhor para uma livraria em Porto Alegre do que a da Taverna.

A loja fica numa das entradas do Centro de Cultura Mário Quintana, ponto turístico da cidade, numa das ruas mais charmosas do centro histórico porto-alegrense, a poucos metros do Guaíba.

Em condições normais, a circulação de turistas e moradores por ali é constante, e o fato de funcionar dentro de um centro cultural ajuda a puxar público.

Em 2024, porém, a mesma localização que costuma ser trunfo virou risco. A Taverna ficou debaixo d'água nas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em maio daquele ano — a pior tragédia climática da história do estado, com 184 mortes, 478 municípios atingidos e 2,4 milhões de pessoas afetadas.

Na livraria, a água chegou à altura da cintura. Móveis foram perdidos, centenas de livros viraram lixo, e o prejuízo passou de 200.000 reais.

Dois anos depois, a Taverna reabriu, retomou eventos e voltou a operar com agenda cheia. Mas as notícias das últimas semanas voltaram a tirar o sono de André Günther, um dos fundadores.

Livraria taverna de Porto Alegre (Leandro Fonseca /Exame)

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) confirmou em abril o retorno do El Niño — fenômeno climático causado pelo aquecimento das águas do Pacífico Equatorial e que, no Sul do Brasil, costuma intensificar as chuvas. A previsão da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, indica probabilidade acima de 90% de formação do fenômeno a partir de setembro, com intensidade que pode chegar a "forte" ou "muito forte". O auge é previsto para a primavera — entre setembro, outubro e novembro — quando o fluxo de umidade vindo da Amazônia tende a se direcionar para o Sul do país. Até lá, o inverno gaúcho já deve ser mais úmido e chuvoso do que a média histórica.

"Estamos muito apreensivos, com bastante medo. Já faz parte da nossa rotina fazer um monitoramento de tudo que sai sobre previsão do tempo, sobre questões climáticas, qualquer notícia sobre o El Niño, a gente está acompanhando", diz Günther.

Mesmo num cenário em que a água não suba (o El Niño, por si só, não é garantia de enchente), o problema persiste. "Uma semana de chuva intensa aqui no centro da cidade já é suficiente para a rotina ser modificada. As pessoas não saem de casa, os autores também vão querer cancelar atividades, então fica tudo um pouco caótico", afirma.

A preocupação já mexe com o planejamento da livraria, que trabalha com agenda de médio a longo prazo.

Günther organiza um festival e uma série de debates para os próximos meses, mas sem saber se conseguirá executar o que está marcado. Para tentar reduzir a exposição, prepara um lançamento de cursos e oficinas em formato híbrido, com forte ênfase no online — garantindo uma frente de receita que não dependa do espaço físico caso uma nova cheia, ou uma simples sequência de chuvas, interrompa as atividades presenciais.

"A gente está se organizando e se mobilizando, mas ao mesmo tempo com uma incerteza de se a gente vai realmente conseguir executar e fazer tudo que está planejado", diz.

"Não temos mais fôlego para queimar"

A poucas quadras da Taverna, o Mercado Público enfrenta o mesmo dilema em escala maior. Inaugurado em 1869, o equipamento é o mais antigo mercado público em funcionamento no Brasil e abriga cerca de 110 lojas — açougues, peixarias, restaurantes, bancas de bebidas, fruteiras, lojas de erva-mate e produtos religiosos.

Em condições normais, recebe dezenas de milhares de pessoas por dia e é uma das principais referências de gastronomia e comércio popular da capital gaúcha.

Em maio de 2024, a água do Guaíba invadiu o prédio histórico e atingiu 1,80 metro no andar térreo, marca superior à da enchente de 1941, até então a maior já registrada no local. O equipamento ficou fechado por 41 dias. As perdas foram estimadas em cerca de 30 milhões de reais. Maquinários, estoques de alimentos refrigerados e congelados e mobiliário foram, na maioria dos casos, perda total.

A reabertura veio em ritmo gradual, sustentada pelo esforço coletivo dos comerciantes e por doações. Mas a recuperação, dois anos depois, ainda não está concluída — e é justamente esse o ponto que liga a tragédia de 2024 ao cenário de 2026.

"Muitos lojistas ainda enfrentam as consequências daquele período extremamente difícil, convivendo com dívidas acumuladas, queda de receita, redução no faturamento e os impactos econômicos de uma recuperação que ainda está em andamento", afirma Rafael Sartori, presidente da Associação Comercial dos Permissionários do Mercado Público Central (Ascomepc) e sócio da Casa de Carne Santo Ângelo, com banca no mercado.

"O comércio local já não possui mais fôlego ou gordura para queimar diante de tantos impactos consecutivos", diz Sartori.

Em cinco anos, os mercadeiros enfrentaram a pandemia, a enchente histórica e agora a perspectiva de um novo evento climático extremo.

Ao contrário da Taverna, o Mercado Público aposta em outra leitura para o futuro próximo: confiar nas obras públicas. A associação cita os investimentos realizados pela prefeitura desde 2024 como um avanço importante na proteção do patrimônio histórico e do comércio do centro.

"Reconhecemos os esforços realizados pelos agentes públicos, equipes técnicas e órgãos competentes ao longo dos últimos dois anos no fortalecimento das ações de prevenção, contenção e combate a novas cheias", afirma Sartori.

Comportas, franquias no Nordeste e um plano de fuga geográfico

Fundada em maio de 2016 como parceria entre as cervejarias Diefen Bros e Polvo Loco, a 4Beer foi o primeiro bar cervejeiro do 4º Distrito, em Porto Alegre — antiga região industrial da capital gaúcha que, na última década, se transformou em polo cervejeiro e gastronômico.

Caio de Santi e Rafael Diefenthäler, da 4Beer: “Com apoio dos nossos clientes, conseguimos seguir produzindo” (Leandro Fonseca/Exame)

A matriz da rede, onde também funciona a fábrica que abastece as unidades, fica na avenida Polônia, no bairro São Geraldo. Hoje a 4Beer soma sete restaurantes, cinco deles operados por franqueados, todos na capital.

O 4º Distrito foi uma das áreas mais castigadas pelas enchentes de 2024. A fábrica e o bar da 4Beer ficaram mais de 20 dias debaixo d'água, e a operação industrial chegou a passar 120 dias parada. Os prejuízos diretos superaram dois milhões de reais. Sem acesso a crédito bancário no ritmo necessário, os sócios criaram um sistema próprio de financiamento com apoio da clientela. "Em poucos dias, mais de 30 pessoas nos ajudaram", diz Rafael Diefenthaler, sócio-fundador da 4Beer. O movimento salvou a fábrica.

O impacto financeiro, porém, ainda não foi totalmente revertido. O faturamento da rede caiu de 20 milhões de reais em 2023 para 16 milhões em 2024 — uma queda de 20%. Em 2025, a empresa recuperou parte do terreno, chegando a 18 milhões, patamar que deve se manter em 2026.

A possibilidade de uma nova cheia preocupa Diefenthaler justamente por isso: a operação ainda não voltou ao nível pré-enchente, e um novo evento extremo encontraria a empresa em recuperação.

"A cidade de Porto Alegre ainda não se recuperou da devastação de 2024, uma nova enchente seria calamitosa sem dúvida", afirma.

A resposta da 4Beer combina duas frentes. No 4º Distrito, onde a matriz foi mantida apesar do risco, a empresa estuda instalar um sistema de comportas nos portões do prédio — uma barreira física para tentar conter a água em caso de nova cheia.

A segunda frente é geográfica. Em abril, a 4Beer anunciou a abertura de sua primeira franquia fora do Rio Grande do Sul, em Vitória da Conquista (BA), com investimento de 1,2 milhão de reais e capacidade para 300 pessoas.

A unidade deve abrir até o fim de 2026, e a meta da empresa é chegar a 10 franquias fora do estado até 2027, com negociações já em andamento em São Paulo e no Paraná. O movimento, planejado antes da enchente, ganhou outra urgência depois dela.

Do lado do poder público, a prefeitura de Porto Alegre afirma ter investido, desde 2024, 2,3 bilhões de reais no sistema de proteção contra cheias e drenagem urbana, em uma combinação de recursos próprios, financiamentos e repasses emergenciais dos governos federal e estadual. As obras foram conduzidas pela gestão do prefeito Sebastião Melo.

Entre as intervenções concluídas estão a recuperação do Muro da Mauá — a barreira de concreto que separa o centro histórico do Guaíba e que, em 2024, foi superada pela água —, a recomposição do dique da avenida Assis Brasil e a reconstrução dos diques da Fiergs e dos trechos 1 e 2 do dique do Sarandi.

A prefeitura informa também que o Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae) ganhou um sistema de dupla alimentação de energia elétrica, para reduzir o risco de paralisação das estações de bombeamento em situações de emergência — uma das falhas mais graves apontadas durante a tragédia de 2024. A prefeitura também desenvolve ações nos pôlderes 7 e 8, áreas estratégicas para a proteção da Zona Norte da cidade e do Aeroporto Internacional Salgado Filho, que ficou fechado por sete meses depois da enchente.

A Defesa Civil municipal, segundo a prefeitura, quintuplicou sua estrutura técnica nos últimos cinco anos e passou a contar com o Centro de Monitoramento e Alerta da Defesa Civil (Cemadec). Em nota, a gestão afirma que "a cidade está mais preparada e resiliente para enfrentar eventos climáticos extremos".

É o que esperam pequenos negócios como a Taverna, os do Mercado Público e a 4Beer.

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