Petrobras: 'uma das poucas petroleiras do mundo que se preocupa quando o petróleo sobe', diz Ryo

Por Mitchel Diniz 27 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Petrobras: 'uma das poucas petroleiras do mundo que se preocupa quando o petróleo sobe', diz Ryo

Desde o início da Guerra no Irã até o fechamento da última sexta-feira, 24, as ações da Petrobras acumulam alta de mais de 20%. A companhia, segundo maior peso na carteira do Ibovespa, tem acompanhado a valorização do preço do barril do petróleo no mercado internacional com o Estreito de Ormuz praticamente fechado há quase dois meses. Mas o fato de ter o governo como principal acionista impede a companhia de repassar livremente essa alta para os preços de venda no mercado interno, deixando-a numa situação peculiar em relação aos seus pares internacionais.

"A Petrobras é uma das poucas petroleiras do mundo que fica preocupada quando o petróleo sobe", diz Luiz Constantino, sócio-fundador da Ryo, gestora de ações que chegou a R$ 3,3 bilhões em ativos sob gestão. "Isso mostra o quão sensível politicamente a empresa é", complementa. A avaliação do gestor é que essa condição limita o potencial de valorização da Petrobras enquanto que uma volta à normalidade nos preços do petróleo seria sentida pela empresa da mesma forma que os seus pares.

A preferência da casa é por PRIO (PRIO3), "uma história mais limpa", na visão de Constantino e que a Ryo enxerga mais chance de valorização do que na estatal. No ano, PRIO3 acumula alta de quase 50% e, desde que a Guerra começou, avança mais de 19%. "Ela estava mais descontada depois da valorização deste ano", admite Constantino. O papel faz parte do grupo seleto de empresas do fundo Ryo Compound, lançado no ano passado, e que monta posição em no máximo 15 nomes — aquelas que a casa considera terem o maior potencial de crescimento.

A produção da PRIO alcançou número recorde de 161,3 mil barris por dia em março. No primeiro trimestre cheio, a média foi de 155,4 mil barris diários, 42,1% a mais que um ano antes. A companhia projeta que o custo de extração fique abaixo de US$ 10 por barril ainda este ano, um ponto que torna a empresa mais atrativa no cenário de petróleo em alta, diz Constantino.

A companhia também extraiu o primeiro óleo do campo de Wahoo em março e iniciou a campanha de perfuração em Frade. Além disso, consolidou sua participação de 80% no Campo de Peregrino. Constantino diz que reduziu um pouco a participação na PRIO após a forte valorização deste ano e entende que um revés no preço do petróleo pode impactar a visão de valor sobre as empresas do setor, a depender do patamar que vier a alcançar.

Cautela no meio da guerra

Em 2025 todos os fundos da casa superaram o CDI e o Ibovespa. Já no primeiro trimestre de 2026, o desempenho ficou abaixo dos benchmarks. A guerra no Oriente Médio trouxe volatilidade e embaralhou as previsões. Ainda assim, Constantino afirma que a Ryo atravessou o período melhor posicionada do que a média da indústria, sem fazer grandes apostas em nenhuma direção.

A cautela tem raiz numa lição aprendida na crise de 2008, durante a crise do subprime, época em que Constantino era analista no Opportunity. O time havia reduzido o risco no começo daquele ano, escapou das primeiras quedas mas foi com muita sede ao pote ao voltar a comprar risco.

"Depois 'tomei' uma queda muito maior. Ficou a lição do cuidado para não exagerar achando que o pior já passou"

Hoje, com guerra, juros ainda altos e eleição presidencial no horizonte, o gestor prefere manter espaço para reagir. "A correção ainda foi pequena e o nível de incerteza ainda é muito alto. Não é hora de posicionar os fundos de forma muito agressiva."

Para o segundo semestre, Constantino enxerga dois fatores que podem mudar esse equilíbrio: a velocidade do corte de juros e o resultado das eleições. A Ryo acredita que a Selic será reduzida entre 150 e 200 pontos-base. E se vier uma mudança no campo político, a avaliação é que as condições para a bolsa melhoram de forma mais estrutural.

"Se a gente tiver uma inflexão política, que faça o mercado acreditar que teremos gastos públicos mais controlados, é possível pensar em juros ainda mais baixos no futuro".

Para Constantino, a retomada de captações na indústria de fundos de ações deve se intensificar apenas no final de 2026 ou em 2027, num cenário de eleição bem resolvida. O problema, segundo ele, é que o investidor brasileiro tem o hábito de tomar a decisão tarde. Espera o fundo render, espera o CDI cair, espera o cenário ficar mais claro — e quando age, os preços já subiram.

"Talvez o investidor não esteja pronto para antecipar muito esse ciclo — o que é uma pena, se tiver um ciclo bom mesmo. Vai acabar não capturando o retorno inteiro. Mas é o que é."

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