Petróleo a US$ 100 dólares: quando a gasolina vai ficar mais cara no Brasil?
Os conflitos envolvendo o Irã já surtiram efeitos concretos sobre os preços da gasolina nos Estados Unidos na última semana. Segundo reportagem do Financial Times, a escalada militar fez os preços nas bombas subirem e aumentou o receio de pressões inflacionárias, e o movimento reacende o debate sobre possíveis impactos do conflito no Brasil.
Na terça-feira, 3, o preço médio da gasolina comum subiu para US$ 3,109 por galão nos EUA, ante US$ 2,951 uma semana antes, segundo dados da associação automotiva americana citados pelo jornal. O valor também ficou acima do nível registrado no fim do governo do ex-presidente Joe Biden.
A alta reflete interrupções no fornecimento global de petróleo bruto após os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã e a contraofensiva de Teerã. Arábia Saudita, Iraque, Irã, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar estão entre os maiores produtores globais da commodity.
Cerca de 20% do consumo diário mundial de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz, uma faixa de aproximadamente 33 quilômetros em seu ponto mais estreito. A passagem foi declarada fechada pela Guarda Revolucionária do Irã, aumentando o risco de um choque de oferta.
De acordo com Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, o repasse rápido nos Estados Unidos está ligado à estrutura do mercado local. “Lá é um mercado bastante competitivo. Distribuidoras e redes de postos compram das tradings com base nos preços negociados, e isso é reajustado em horas ou dias”, afirma.
Mesmo que o combustível atualmente estocado tenha sido adquirido a preços mais baixos, os agentes antecipam o custo do produto que chegará nas semanas seguintes e já ajustam os preços nas bombas. “Não é que o combustível que está sendo abastecido agora esteja mais caro, mas o que vai chegar na semana que vem ou no mês que vem já será mais caro, então o repasse acontece antes”, diz.
Quando os preços caem, porém, o movimento costuma ser mais lento, o que tende a ampliar as margens dos agentes do setor.
O preço da gasolina pode subir no Brasil?
O funcionamento do mercado brasileiro é diferente do americano.
Enquanto nos Estados Unidos há várias empresas operando refinarias e distribuidoras e os preços acompanham rapidamente as cotações negociadas na Nymex, no Brasil o setor é concentrado na Petrobras. “Aqui você depende muito do que a Petrobras vai fazer. Não temos esse reajuste tão rápido”, afirma Cruz.
Na semana passada, a presidente da estatal, Magda Chambriard, afirmou que a empresa acompanha de perto o cenário internacional para entender qual será o comportamento do barril do Brent nos próximos meses. Segundo ela, por enquanto, a companhia não tem uma posição definida sobre eventuais reajustes nos preços dos combustíveis no Brasil.
Chambriard explicou que, caso a alta do petróleo observada nos últimos dias se intensifique, a Petrobras terá de reagir depressa. "Nesse momento, essa questão ainda não está respondida. Se essa volatilidade for tão grande assim, certamente, ela vai exigir respostas mais rápidas que exigiriam se a alta fosse mais lenta.", comentou a executiva.
Gustavo Cruz lembra que entre 2011 e 2015 a estatal segurou os preços dos combustíveis para conter a inflação doméstica, acumulando prejuízos bilionários. Desde o governo Temer, a empresa passou a adotar uma política de paridade internacional, ainda que com alguma defasagem para reduzir a volatilidade.
Com isso, mesmo que o petróleo suba rapidamente no exterior, o impacto na bomba tende a aparecer com atraso no Brasil.
Paulo Feldmann, professor da FIA Business School, explica que existe um intervalo entre a alta do petróleo e a chegada do combustível refinado ao consumidor. “Esse tempo varia de, na melhor das hipóteses, uma semana até três semanas”, afirma.
Do petróleo ao supermercado
O repasse também não ocorre de forma integral. Segundo Feldmann, se o petróleo subir entre 4% e 5%, o efeito final na gasolina tende a ficar entre 3,2% e 4%, cerca de 80% da variação original. Isso ocorre porque parte do custo do combustível não está diretamente ligada ao petróleo.
Ainda assim, gasolina e diesel têm impacto amplo na economia brasileira.
Um aumento nos combustíveis afeta o transporte de mercadorias, alimentos, medicamentos e praticamente toda a cadeia produtiva.
“E, portanto, isso acaba afetando o orçamento das famílias. Mas famílias de baixa renda sofrem muito mais”, afirma o professor.
Danilo Coelho, economista especializado em investimentos, pondera que, embora o Irã seja um grande exportador de petróleo, boa parte da produção do país tem como destino a China, o que pode limitar o impacto global inicial.
Ele também avalia que a Petrobras pode absorver parte do choque para evitar repasses imediatos ao consumidor.
“É provável, principalmente por ser um ano eleitoral, que o aumento do petróleo não seja repassado integralmente para a gasolina no Brasil. Parte disso pode ser absorvida pela própria Petrobras”, afirma.
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