PIB deve desacelerar em 2025 e reduzir impulso neste ano, dizem economistas
O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve encerrar 2025 com crescimento de 2,3%, após expansão de 3,4% em 2024, consolidando um ciclo de desaceleração registrado desde o terceiro semestre, segundo estimativas de economistas e relatórios consultados pela EXAME.
Os dados oficiais serão divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na próxima terça-feira, 3 de março.
As projeções indicam estabilidade ou leve alta da economia no quarto trimestre. Na comparação com o terceiro trimestre, já com ajuste sazonal, as estimativas variam entre 0,1% e 0,3%.
Na comparação anual — quarto trimestre de 2025 frente ao mesmo período de 2024 — os economistas estimam avanço entre 1,6% e 1,8%.
Se confirmado, o resultado marca a menor taxa de crescimento anual desde 2020, excluído o período mais agudo da pandemia.
Mais do que o número fechado de 2025, o mercado olha para o chamado “carregamento estatístico” — o quanto o desempenho do fim do ano impulsiona automaticamente o ano seguinte, segundo os economistas.
O que subiu e o que caiu no quarto trimestre
Segundo relatório do Itaú BBA, assinado pelas economistas Natalia Cotarelli e Marina Garrido, o PIB deve ter crescido 0,1% no quarto trimestre ante o terceiro, com alta de 1,8% na comparação anual. A avaliação é de que a economia “ficou de lado” no fim do ano.
Pelo lado da oferta, o banco aponta desaceleração da indústria, sobretudo na indústria de transformação e na construção civil, segmentos mais sensíveis ao ambiente de juros elevados.
A produção doméstica de bens de capital recuou no período, o que afetou o desempenho do setor.
Em contrapartida, as economistas afirmam que a indústria extrativa voltou a registrar resultado robusto no ano, apoiada pela produção recorde de petróleo e gás natural, o que ajudou a compensar parte das perdas nos demais segmentos industriais.
No setor de serviços, o Itaú BBA espera aceleração para 2,1% na comparação anual, após 1,3% no terceiro trimestre.
O avanço deve ter sido puxado principalmente por Administração Pública e Outros Serviços, categoria que inclui serviços profissionais e prestados às famílias, sustentados pelo mercado de trabalho aquecido.
Na agropecuária, o banco projeta perda de ritmo, com crescimento estimado em 7,0% no quarto trimestre frente ao mesmo período de 2024, abaixo dos 10,1% registrados no terceiro trimestre.
Pela ótica da demanda, o Itaú BBA estima que o consumo das famílias tenha acelerado para 1,6% na comparação anual, ante 0,4% no trimestre anterior.
Já os investimentos, medidos pela formação bruta de capital fixo (FBCF), devem ter crescido 1,0% em 12 meses, abaixo dos 2,3% do terceiro trimestre.
O relatório destaca que o trimestre anterior foi favorecido pela importação de uma plataforma de petróleo e que, no fim do ano, houve recuo da produção doméstica de bens de capital.
Em relatório, a consultoria 4intelligence projeta crescimento de 1,7% na comparação anual e estabilidade em relação ao trimestre anterior.
Os analistas da consultoria estimam que a agropecuária mantenha crescimento relevante em relação a 2024, mas registre queda frente ao terceiro trimestre, já que o efeito mais intenso da safra recorde ficou concentrado no início do ano.
Para a indústria, a consultoria também prevê desempenho negativo na margem, com perdas em transformação e construção.
A extração mineral deve ter sido o principal destaque positivo. Nos serviços, a expectativa é de manutenção de comportamento predominantemente positivo, com destaque para informação e comunicação e segmentos ligados ao mercado de trabalho.
Pela ótica da demanda, a 4intelligence espera evolução positiva do consumo das famílias e do setor externo, com exportações crescendo acima das importações.
A FBCF, por outro lado, deve ter sido pressionada pela construção e pela fabricação de bens de capital, além da ausência de importação de plataforma de petróleo no trimestre.
Já Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter, estima crescimento de 0,3% no quarto trimestre frente ao terceiro e alta de 1,7% na comparação anual.
Segundo ela, o resultado deve ter sido puxado pelo desempenho da agropecuária. Ao mesmo tempo, os dados de serviços, incluindo o varejo de dezembro, confirmam a tendência de desaceleração do consumo das famílias, em um cenário de menor oferta de crédito.
O que as projeções indicam para 2026
Segundo a 4intelligence, se o cenário para o quarto trimestre se confirmar, o carregamento estatístico — taxa de crescimento que o ano seguinte já “herda” apenas pelo desempenho do fim do ano anterior — para 2026 seria de apenas 0,1%.
Mesmo com esse ponto de partida, a consultoria mantém projeção de alta de 2,0% para 2026. A estimativa considera crescimento marginal em torno de 1% no primeiro trimestre, impulsionado por estímulos governamentais, como ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda e nova liberação excepcional de saldo do FGTS, além de uma queda interanual pequena da agropecuária, com expectativa de outra safra recorde de soja.
Segundo Rafaela Vitoria, do Banco Inter, a tendência de desaceleração deve continuar neste ano, ainda como efeito da política monetária restritiva.
A economista afirma que novos impulsos fiscais e redução na taxa de juros podem contribuir para uma retomada mais lenta no segundo semestre. O banco estima avanço de 0,5% no primeiro trimestre de 2026 frente ao quarto trimestre de 2025.
Como mostrou a EXAME, a maioria das projeções aponta para um crescimento econômico entre 1,5% e 1,8% no próximo ano, mas com riscos como o cenário da economia nos Estados Unidos, a piora da percepção fiscal pelo mercado em um ano eleitoral e a inevitável necessidade de ajuste fiscal para 2027 podem agravar o resultado.
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