'PIB fantasma': avanço de IA será mais lento no Brasil, diz professor
Um relatório da Citrini Research, que mexeu com os mercados nos últimos dias, aponta um cenário em que a inteligência artificial avançaria rapidamente nos próximos dois anos e, junto com ela, reduziria empregos em grande escala, gerando um efeito chamado "PIB fantasma".
Neste cenário, a produtividade seria gerada a baixos custos pela IA, o que aumentaria os lucros das empresas, mas travaria a economia. Afinal, sua adoção levaria a demissões em massa e a uma redução do poder de compra das pessoas, que não conseguiriam se recolocar no mercado com o mesmo nível de renda de antes.
Para Álvaro Massad, professor da FGV e pesquisador de novas tecnologias, esta aceleração da IA e de seus efeitos demorará mais para chegar ao Brasil. "Reconhecendo que somos um país em desenvolvimento, existe um atraso natural na adoção plena da IA pelas empresas. Isso não vai acontecer em dois anos de forma generalizada", diz, em entrevista à EXAME.
Massad, 61 anos, é doutor em administração pela FGV, onde coordenou cursos na área de tecnologia. Além da carreira acadêmica, teve posições de direção em empresas como American Express, Xerox, Embratel e Intelbras. Atualmente é diretor executivo da IT by Insight, consultoria na área de TI, e viaja pelo Brasil orientando empresas sobre como adotar IA. Veja a seguir mais trechos da conversa.
Uma das principais questões do relatório é uma previsão de que a velocidade de avanço da IA nas empresas será muito acelerada, com mudanças profundas em cerca de dois anos. O senhor acha que esta adesão pode ser rápida assim, ou está um pouco exagerada?
Falar disso ajuda a gente a sair um pouco de uma visão apocalíptica. Há cerca de dois anos se falava muito que iam acabar profissões como advogado, professor, entre outras, e isso não é verdade. Não é assim que funciona.
Ao mesmo tempo, a competição hoje é feroz, principalmente entre as big techs. Quando falamos de IA, precisamos entender que o motor dos LLMs, que são a base da maioria das aplicações que vemos no mercado, é dominado por grandes empresas de tecnologia. E não são só empresas ocidentais; há também empresas chinesas e de outras partes do mundo. A cada semana ou mês, vemos mudanças significativas na capacidade desses modelos.
Como consequência, surgem cada vez mais aplicações específicas, focadas em tarefas que hoje são feitas por humanos. Um exemplo claro são os antigos contact centers, com várias pessoas em salas atendendo consumidores. Isso já vem sendo substituído há bastante tempo por bots e RPA, que são formas de IA mais restrita. Agora começamos a ver tarefas mais sofisticadas sendo realizadas por aplicações de IA.
Claro que quando falamos em números — milhões, bilhões de empregos — corremos o risco de errar. Mas o movimento em si é real. O relatório propõe um cenário, não algo apocalíptico. Ele serve para nos fazer refletir sobre o que pode ser feito. E quem pode agir? Cada um de nós como indivíduos, a educação, as empresas e o Estado. Todos têm um papel.
O texto aponta que empresas mais afetadas pela IA acabam investindo menos em funcionários e mais em tecnologia, gerando um ciclo de demissões. Qual tem sido a velocidade desta mudança?
Essa discussão não é nova. Em 2016, no Fórum Econômico Mundial, o tema era a Quarta Revolução Industrial. Já se falava que a automação poderia gerar desemprego, como ocorreu em revoluções anteriores. Hoje, a mesma discussão se aplica à IA.
Primeiro, nem todas as empresas estão no mesmo estágio. Falando especificamente do Brasil, sem complexo de inferioridade, mas reconhecendo que somos um país em desenvolvimento, existe um atraso natural na adoção plena da IA pelas empresas. Isso não vai acontecer em dois anos de forma generalizada.
Além do meu papel como professor e pesquisador, coordeno cursos e faço workshops de IA para empresas. Faço isso há pelo menos dois anos, e achei que diminuiria no ano passado, mas aumentou. Este ano começou ainda mais aquecido.
O que tem observado nestes cursos?
Existem três tipos de pessoas: as que usam muito IA, as que usam muito pouco e as que usam apenas para tarefas básicas. Isso mostra que ainda vai levar um tempo até que cheguemos a um cenário de desemprego massivo causado pela IA. Mas isso não significa que podemos ficar parados esperando.
O que cada um pode fazer é buscar letramento em IA. O Estado, as empresas, as instituições de ensino e até ONGs precisam oferecer esse letramento. Existem também questões de segurança e outros problemas associados ao uso da tecnologia que nem sempre entram na discussão.
As empresas buscam lucro, isso é um fato. Elas vão tentar melhorar a relação entre investimento e custo. O conceito de “PIB fantasma” é interessante justamente por isso. Quem não buscar entender e trabalhar com IA pode ficar de fora primeiro da empresa e, depois, do próprio mercado. A única saída é aprender a usar essa tecnologia no dia a dia, tanto para empresas quanto para profissionais.
O relatório prevê um cenário em que as empresas gastarão mais com IA do que com funcionários. O quão distante estamos disso?
Sobre o investimento das empresas em IA versus funcionários, ainda vejo muita febre e pouco planejamento. Muitas empresas estão gastando dinheiro em IA sem saber exatamente para quê, algo que não fariam em outras áreas do negócio. Ainda não vejo, de forma clara, um cenário em que o investimento em IA supere de maneira significativa o investimento em pessoas. Então, a resposta direta é: ainda não chegamos a esse ponto.
O relatório também fala da redução de barreiras de entrada. Com IA, é possível criar aplicativos, estratégias de marketing e resolver problemas que antes exigiam muito mais equipes o que ameaça players tradicionais. Isso já está acontecendo no Brasil?
Isso já não é distante, mas está concentrado em alguns silos. Existem hubs de inovação e startups em lugares como São Paulo, Recife, Vitória, entre outros. Esses ambientes, com mentalidade ágil e foco em inovação, conseguem aproveitar muito bem essa redução de barreiras.
Por outro lado, quando você vai para o interior do Brasil, essa realidade não existe. A falta de barreiras de entrada é positiva porque cria oportunidades, mas também pode aumentar desigualdades.
O Estado deveria ter um papel mais forte em levar equidade por meio da educação. Caso contrário, vamos criar ainda mais abismos. Há regiões no Brasil que sequer têm infraestrutura básica; imagina discutir IA nesses contextos.
Outro ponto levantado pelo artigo é a taxação da IA. Com menos pessoas trabalhando, como fica a arrecadação de impostos? Existe alguma luz nesse sentido?
Essa discussão está acontecendo, principalmente no âmbito da regulamentação. Isso me preocupa, porque muitas vezes quem discute não tem conhecimento técnico suficiente. A regulamentação de IA já passou pelo Senado e está na Câmara, e há discussões sobre taxação, mas ainda não vejo uma solução clara. Fórmulas rápidas podem inibir inovação e empreendedorismo.
Que saídas são possíveis para lidar com os efeitos negativos que a IA pode trazer, como o desemprego?
Eu gosto de correr maratona, e maratona é sobre ritmo. A economia e a vida são uma maratona. A IA está funcionando como um sprint de 100 metros. O problema é achar que isso, sozinho, vai resolver tudo. Produtividade recorde sem ajuste de suporte social e modelos de negócio não se sustenta.
Precisamos discutir suporte social, educação e o papel do Estado. Algumas pessoas veem a IA como mágica e gastam muito dinheiro sem retorno. Outras já conseguem resultados reais. E há quem esteja completamente fora desse processo. Precisamos discutir mais o suporte social e a mudança dos modelos de negócio para que empresas e pessoas não fiquem para trás.
Qual o tamanho da revolução atual?
Estamos vivendo uma revolução. Houve três grandes momentos na humanidade em que a tecnologia impactou profundamente a vida das pessoas. O primeiro em 1977, quando, com Steve Jobs, surgiu a ideia de oferecer o computador pessoal às pessoas. Depois veio a internet, com a bolha no final do século passado. E agora temos a inteligência artificial, que apesar de ser estudada há mais de 70 anos, só se tornou massivamente disponível para todo mundo há dois ou três anos.
Essa é uma revolução sem dúvida, mas muito diferente das anteriores. A primeira grande diferença é que não estamos falando de uma revolução focada no operário da fábrica, mas sim em trabalhadores qualificados. Quando vemos a IA realizando tarefas muito mais rápido — e às vezes melhor — do que nós, especialmente em atividades repetitivas, é inegável que há ganhos tangíveis. Isso é um fato. Muita coisa está acontecendo em muito pouco tempo.
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