Pier lança app no ChatGPT e aposta em IA para antecipar nova disputa por clientes de seguros
A Pier Seguradora lançou um aplicativo dentro do ChatGPT, plataforma de inteligência artificial da OpenAI, tornando-se a primeira brasileira integrada diretamente ao ecossistema da ferramenta. A empresa quer usar o projeto para entender como plataformas de IA podem alterar a distribuição de seguros e a relação dos consumidores com produtos financeiros.
Na prática, usuários do ChatGPT podem fazer perguntas sobre seguros, entender coberturas e iniciar processos de cotação sem sair da interface conversacional. O movimento acontece enquanto o Brasil ocupa a terceira posição global em uso do ChatGPT, com 140 milhões de mensagens por dia, segundo dados divulgados pela OpenAI.
Para a Pier, porém, a aposta não está apenas no chatbot em si, mas em uma transformação maior na lógica de descoberta e contratação de serviços digitais.
"Talvez as pessoas parem de pesquisar clicando em links e passem a perguntar direto para a IA qual seguro contratar", afirmou Camila Kataguiri, fundadora e CEO da companhia. "A gente precisa aprender como esse novo comportamento funciona".
Camila Kataguiri: fundadora e CEO da Pier (Rafael Merino/Pier)
O lançamento acontece em meio a um novo ciclo de crescimento da insurtech. A empresa fechou 2025 com faturamento de R$ 250 milhões e projeta avançar 50% em receita neste ano. Até hoje, a companhia já captou mais de US$ 50 milhões de investidores como IFC, Monashees, Mercado Livre, BTG Pactual e Raíz.
A empresa tenta se diferenciar no mercado de IA menos pelo discurso de automação e mais pela estrutura tecnológica construída desde sua fundação, em 2018. Todos os sistemas da seguradora, incluindo cotação, vistoria, pagamento e análise de sinistros, foram desenvolvidos internamente.
Segundo a companhia, isso permite conectar rapidamente diferentes modelos de inteligência artificial sem depender exclusivamente de uma única plataforma. "A gente não pensa em IA como vitrine. A gente pensa em arquitetura e cultura", afirma Camila.
A estratégia surgiu antes mesmo da explosão recente da IA generativa. Em 2021, a Pier lançou seus primeiros agentes próprios de inteligência artificial e passou a estruturar uma camada tecnológica intermediária entre seus sistemas internos e ferramentas externas de IA.
Hoje, a empresa opera simultaneamente com tecnologias da OpenAI, Anthropic e outros fornecedores. A companhia afirma que sua estrutura foi desenhada justamente para evitar dependência tecnológica em um setor que muda rapidamente.
Fraude digital acelera corrida tecnológica no setor
A Pier também vê o avanço das fraudes digitais como um dos fatores que tornam a inteligência artificial estratégica para seguradoras.
Segundo a empresa, ferramentas de manipulação de imagens e automação já conseguem contornar processos tradicionais de vistoria usados pelo setor. Em resposta, a companhia passou a usar IA para detectar inconsistências visuais e automatizar análises.
"Os fraudadores já estão usando muita tecnologia. Se a seguradora não usar IA também, ela simplesmente não consegue acompanhar", diz Camila.
Hoje, cerca de 40% das vistorias automotivas da empresa já passam por automação parcial por meio do sistema Pier Scan, lançado em 2025. O agente conduz digitalmente a vistoria do veículo, orienta envio de fotos e identifica danos automaticamente.
No seguro celular, o sistema Pier Bolt automatiza parte dos reembolsos em menos de um segundo. Segundo a empresa, cerca de 30% dos sinistros já são processados dessa forma.
Internamente, a Pier afirma que áreas de engenharia e dados funcionam como núcleos permanentes de testes de IA. Segundo a companhia, todos os funcionários recebem treinamento obrigatório em inteligência artificial e o uso dessas ferramentas já faz parte das avaliações de desempenho.
A integração ao ChatGPT também coloca a empresa em uma tendência já observada fora do Brasil. A insurtech espanhola Tuio foi a primeira seguradora aprovada globalmente pela OpenAI para operar diretamente dentro do ChatGPT, permitindo cotação e contratação sem sair da conversa.
A expectativa do setor é que plataformas de IA passem a disputar espaço com buscadores tradicionais e aplicativos na intermediação da relação entre empresas e consumidores.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: