Política fiscal 'agressiva' de Lula deve manter Selic alta mesmo sem guerra, diz economista
A possibilidade de um acordo entre Estados Unidos e Irã e o consequente alívio das tensões no Oriente Médio podem reduzir uma das principais fontes recentes de incerteza para os mercados globais. Para o economista-chefe da Genial Investimentos, José Camargo, porém, esse não é o principal fator que explica a deterioração das perspectivas para os juros no Brasil.
"O problema, na nossa avaliação, é um pouco mais complexo do que apenas a guerra no Oriente Médio", afirma Camargo em entrevista à EXAME.
O Comitê de Política Econômica (Copom) se reúne nesta quarta-feira, 16, para definir a taxa básica de juros.
Na avaliação do economista, o Banco Central segue diante de desafios domésticos para trazer a inflação de volta à meta. Entre eles estão a expansão dos gastos públicos em ano eleitoral, programas de crédito subsidiado e um mercado de trabalho aquecido, que pressionam as expectativas de inflação, que estão desancoradas.
Camargo afirma que medidas de estímulo adotadas pelo governo, que somam cerca de R$ 200 bilhões, aumentam a demanda da economia em um momento em que a inflação de serviços segue pressionada e o desemprego permanece próximo das mínimas históricas.
"O presidente Lula está com uma política fiscal e uma política parafiscal extremamente agressivas", diz.
Camargo diz que, mesmo que o aumento de gastos em ano eleitoral fosse esperado, o volume surpreendeu. Nas últimas semanas, a gestão petista anunciou pacote de crédito com juros menores para motoristas de Uber e taxistas, entregadores e caminhoneiros.
O economista cita ainda o fenômeno climático El Niño, que deve impactar a produção do agronegócio brasileiro e pressionar a inflação de alimentos.
A avaliação contrasta com as projeções do início do ano. Em janeiro, parte do mercado esperava que a taxa básica de juros encerrasse 2025 próxima de 12%.
Agora, bancos e gestoras passaram a revisar suas estimativas para cima diante da persistência da inflação e do aumento das incertezas fiscais. Na Genial, a projeção para a Selic no fim do ano subiu de 12,5% para 14%.
Apesar desse cenário, Camargo avalia que o Banco Central deve promover mais um corte de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom desta quarta-feira.
Na visão do economista, porém, a autoridade monetária deveria interromper o ciclo de flexibilização neste momento para avaliar melhor os impactos de fatores como as expectativas de inflação, o comportamento do câmbio e os riscos associados ao clima e à atividade econômica.
"Nossa avaliação é que o Banco Central deveria interromper o ciclo de cortes agora. Apesar da melhora provocada pelo arrefecimento do conflito, ainda existem muitas incertezas: preço dos alimentos, El Niño e expectativas de inflação", afirma.
Leia a entrevista completa com o economista-chefe da Genial Investimentos, José Camargo
Como a possível trégua entre Estados Unidos e Irã pode afetar as perspectivas para inflação e juros no Brasil?
O problema, na nossa avaliação, é um pouco mais complexo do que apenas a guerra no Oriente Médio. Se você observar, temos a perspectiva de um El Niño que provavelmente vai gerar inflação de alimentos. Em 2025 e no primeiro semestre de 2026, tivemos uma forte valorização do real frente ao dólar, o que fez a inflação de produtos industriais cair sistematicamente, porque ela depende muito da taxa de câmbio. Além disso, tivemos uma deflação na China que foi exportada para o Brasil e reforçada pela valorização cambial ao longo do período. Ao mesmo tempo, temos expectativas de inflação desancoradas. As projeções estão acima da meta e seguem em trajetória de alta.
Mas e a guerra?
A guerra é mais uma fonte de incerteza. E é difícil dizer que essa incerteza já foi eliminada. Pelo menos por enquanto, o acordo anunciado gira em torno da abertura do Estreito de Ormuz e do desbloqueio dos portos iranianos. Mas questões centrais, como a capacidade do Irã de desenvolver uma arma nuclear, continuam sem solução. Além disso, o estreito já não estava completamente fechado antes do conflito. Portanto, não se trata propriamente de uma vitória definitiva. Há ainda a questão do urânio enriquecido armazenado no Irã, que precisa ser resolvida de alguma forma. Ou seja, os pontos realmente importantes ainda não foram enfrentados.
Nesse cenário, o Banco Central deveria fazer o quê na reunião desta quarta?
Nossa avaliação é que o Banco Central deveria interromper o ciclo de cortes agora. Apesar da melhora provocada pelo arrefecimento do conflito, ainda existem muitas incertezas: preço dos alimentos, El Niño e expectativas de inflação. Na nossa visão, interromper os cortes agora ajudaria a reancorar as expectativas e abriria espaço para voltar a reduzir os juros mais adiante, talvez no fim do ano. No entanto, acreditamos que o Banco Central ainda fará um corte de 25 pontos-base e deverá divulgar um comunicado bastante duro. Se houver corte sem uma comunicação firme — por exemplo, sem um balanço de riscos claramente apontando inflação mais alta — existe uma probabilidade relevante de pressão sobre o dólar, o que acabaria gerando mais inflação. A taxa de câmbio é um dos principais formadores da inflação brasileira. Nós vimos isso no fim de 2024, quando o dólar chegou a R$ 6,30. Naquele momento, o Banco Central precisou vender cerca de US$ 30 bilhões no mercado e elevar a Selic para 15% ao ano. Ou seja, a questão cambial continua relevante.
E como a eleição entra nessa equação?
Também há a questão eleitoral. O país entrou muito cedo no debate sobre 2026, e isso tende a gerar mais incerteza. O governo Lula mantém uma política fiscal e parafiscal bastante expansionista, com crédito subsidiado para compra de caminhões, carros e motocicletas, o que aumenta a demanda e gera pressão inflacionária. A inflação de serviços está caminhando para 7% ao ano. O mercado de trabalho segue muito apertado, com desemprego próximo de 5,8%. Soma-se a isso o debate sobre o fim da jornada 6 por 1. Uma mudança dessa natureza aumenta o custo da hora trabalhada e tende a ser repassada para os preços. Como o mercado de trabalho está aquecido, os trabalhadores provavelmente conseguirão repassar esses custos para os salários. Isso pode gerar um processo de indexação salarial e ampliar ainda mais as pressões inflacionárias. Considero bastante alta a probabilidade de termos uma inflação de salários relevante caso essa mudança avance.
O que mudou internamente desde o início do ano para que as expectativas para inflação e Selic piorassem tanto? Em janeiro, muitos agentes projetavam uma Selic de 12% no fim do ano.
A guerra é importante, mas ela não é o único fator. Os especialistas em clima passaram a projetar um El Niño muito mais forte do que se imaginava no início do ano. Isso provavelmente vai pressionar os preços dos alimentos. Outro ponto importante é a política fiscal expansionista e a política parafiscal baseada na ampliação do crédito subsidiado. A inflação de serviços está caminhando para 7% ao ano, algo incompatível com uma meta de inflação de 3%. Essa pressão dos serviços está aumentando em vez de diminuir, apesar de uma taxa de juros próxima de 15% ao ano. Isso acontece porque a política fiscal e parafiscal continua bastante agressiva.
Não eram esperados mais gastos em ano eleitoral?
É verdade que o mercado já esperava que o governo gastasse mais, mas a magnitude surpreendeu. Em 2026, os gastos adicionais podem chegar a algo próximo de R$ 200 bilhões, considerando programas como Desenrola, Pé-de-Meia, Vale-Gás e outras iniciativas de estímulo à demanda. Além disso, existe outro fator importante: com juros em torno de 15% ao ano e uma dívida pública próxima de 80% do PIB, o país gasta aproximadamente R$ 1,5 trilhão por ano com pagamento de juros. Isso representa uma transferência significativa de renda para a economia e pode também estimular a demanda e pressionar a inflação. Todos esses fatores contribuíram para a revisão das nossas projeções. No início do ano, estimávamos uma Selic de 12,5% ao final de 2025. Hoje, nossa projeção é de 14%.
Mesmo com juros próximos de 15% ao ano, o mercado de trabalho continua muito aquecido. O que mudou na economia brasileira para explicar essa resistência?
A questão do mercado de trabalho é mais complexa. Um fator muito importante foi a reforma trabalhista implementada pelo presidente Michel Temer em 2017. A reforma aumentou significativamente a flexibilidade do mercado de trabalho. Um exemplo foi a liberação ampla da terceirização. Antes, era possível terceirizar apenas atividades-meio. Hoje, é possível terceirizar praticamente qualquer atividade. Isso reduziu custos para as empresas, já que a estrutura tributária sobre trabalhadores terceirizados é diferente da aplicada aos contratos tradicionais. Outro ponto importante foi a introdução da sucumbência, que reduziu significativamente o número de ações trabalhistas. Posteriormente, decisões do Supremo Tribunal Federal limitaram esse mecanismo, o que contribuiu para um novo aumento da litigiosidade. Além disso, a reforma ajudou a formalizar modalidades mais flexíveis de trabalho, incluindo atividades ligadas aos aplicativos. Quando um trabalhador perde o emprego formal, muitas vezes consegue uma ocupação temporária em aplicativos. Isso reduz o desemprego e altera o funcionamento do mercado de trabalho. Na nossa avaliação, a taxa de desemprego neutra caiu cerca de 1,5 ponto percentual após essas mudanças. Antes, ela estava próxima de 9%; hoje, estimamos algo em torno de 7%. O problema é que a taxa efetiva de desemprego está perto de 5,3%, bem abaixo desse nível neutro. Isso continua gerando pressão salarial e, consequentemente, inflação de serviços. Portanto, há menos pressão inflacionária do que existia antes da reforma, mas ela continua presente porque o desemprego está muito abaixo da taxa considerada neutra.
Como o Banco Central pode equilibrar o combate à inflação sem correr o risco de provocar uma desaceleração excessiva da economia?
O que mais me preocupa hoje é a situação financeira das empresas. Estamos vendo um número crescente de grandes companhias entrando em recuperação judicial, recuperação extrajudicial ou vendendo ativos para reduzir endividamento. Essas empresas se alavancaram muito e agora enfrentam um ambiente de juros elevados por um período prolongado. O risco é termos uma crise de crédito no setor produtivo. Não estamos falando de pequenas empresas. A Raízen, por exemplo, é uma companhia extremamente relevante. O Grupo Pão de Açúcar também enfrenta dificuldades. Outras empresas estão vendendo ativos para reduzir dívida porque simplesmente não conseguem sustentar o custo financeiro. Esse é um problema muito importante. Não sei exatamente como ele será resolvido, mas, enquanto tivermos uma política fiscal e parafiscal tão expansionista, o risco de uma crise de crédito continuará elevado. Estamos caminhando para uma situação complicada. Por um lado, podemos repetir episódios de estresse cambial como os observados no fim de 2024. Por outro lado, podemos enfrentar uma crise de crédito relevante. Essas são as duas grandes preocupações que deveriam estar no centro das discussões de política econômica.
Pensando já em 2027, o mercado discute a necessidade de um ajuste fiscal, independentemente de quem vencer a eleição presidencial. Como essa perspectiva influencia as projeções econômicas?
O mercado trabalha hoje com a percepção de que, caso a oposição vença a eleição, haverá algum tipo de ajuste fiscal logo no início do próximo governo. A expectativa é que seja criada uma estrutura capaz de reduzir gastos, seja por meio da revisão de programas sociais, da redução do crédito subsidiado ou de outras medidas. Se qualquer um dos principais candidatos da oposição vencer, acredito que a probabilidade de um ajuste fiscal é elevada. Já em caso de reeleição do presidente Lula, a expectativa é de continuidade das políticas atuais. Vale lembrar que a única contenção fiscal mais significativa durante os governos Lula ocorreu no primeiro mandato, quando Antonio Palocci era ministro da Fazenda. Depois da saída de Palocci, os demais ministros adotaram uma postura mais expansionista. O atual ministro da Fazenda, por exemplo, costuma argumentar que o déficit fiscal é elevado principalmente por causa do custo dos juros, e não porque o governo gasta demais. Se essa lógica prevalecer, acredito que o cenário fiscal poderá se deteriorar ainda mais. Por isso, na minha avaliação, uma eventual reeleição do presidente Lula seria recebida de forma negativa pelos mercados, especialmente considerando as declarações e sinalizações recentes na área econômica.
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