Políticos pedem regulação de mercado de previsões após 'insider' sobre conflito no Irã

Por Ana Luiza Serrão 2 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Políticos pedem regulação de mercado de previsões após 'insider' sobre conflito no Irã

O mercado de previsões reagiu rapidamente à escalada do conflito envolvendo o Irã em plataformas como Kalshi e Polymarket. O avanço das apostas levantou críticas no Congresso dos Estados Unidos sobre possível uso de informações privilegiadas — o chamado insider trading — e abriu espaço para a discussão de um projeto de lei para proibir esse tipo de prática nesses mercados.

As suspeitas surgiram após relatos de que pessoas próximas ao presidente Donald Trump, com acesso a informações sensíveis, teriam lucrado com apostas relacionadas ao confronto entre EUA, Israel e Irã, intensificado nos últimos dias com a troca de mísseis e o assassinato do líder iraniano no sábado, 28.

O senador democrata Chris Murphy, de Connecticut, afirmou que uma conta na Polymarket identificada como “Magamyman” teria obtido US$ 515 mil em um único dia ao apostar que os Estados Unidos atacariam o Irã. Para Murphy, a situação evidencia uma brecha legal que permite que pessoas com acesso privilegiado a informações lucrem com eventos ligados à guerra. “É insano que isso seja legal. Pessoas próximas a Trump estão lucrando com a guerra e a morte”, escreveu Murphy em sua conta do X.

Murphy pretende apresentar um projeto de lei para proibir o uso de informações privilegiadas em mercados de previsão. O senador Ruben Gallego, do Arizona, também defendeu que a prática deveria ser considerada ilegal. A Casa Branca não comentou o caso.

It’s insane this is legal. People around Trump are profiting off war and death. I’m introducing legislation ASAP to ban this. https://t.co/iC0uPpaWC5

— Chris Murphy 🟧 (@ChrisMurphyCT) March 1, 2026

As plataformas continuam registrando volume relevante de apostas relacionadas ao conflito. De acordo com informações do MarketWatch, no Kalshi, por exemplo, já foram negociados US$ 3,5 milhões em contratos sobre quem será o próximo líder supremo do Irã e US$ 1,6 milhão em apostas sobre um eventual fechamento do Estreito de Ormuz. Outros US$ 588 mil giram em torno da possibilidade de um novo acordo nuclear.

Na Polymarket, questões como a probabilidade de queda do regime iraniano, novos ataques de EUA e Israel ou a chance de cessar-fogo movimentam cerca de US$ 5 milhões cada.

Debate ético no radar das apostas

As plataformas afirmam que não permitem apostas diretas sobre guerras ou assassinatos. Após a morte do líder iraniano, o CEO do Kalshi, Tarek Mansour, informou que posições abertas antes do evento seriam liquidadas pelo último preço negociado, com reembolso de taxas aos usuários — decisão que gerou críticas de parte dos participantes.

O Kalshi é regulamentado pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC). Ainda assim, o uso de informações sensíveis relacionadas a empresas listadas, operações militares ou decisões de Estado levanta questionamentos jurídicos e éticos. Diferentemente do mercado acionário, o insider trading em plataformas de previsão não é tipificado da mesma forma, o que amplia a zona cinzenta regulatória.

Defensores desses mercados argumentam que a presença de participantes com informação diferenciada pode ajudar na formação de preços e na antecipação de cenários. O problema surge quando o uso dessas informações pode incentivar manipulação, sabotagem ou colocar em risco a segurança nacional.

Segundo o MarketWatch, já há investigações em algumas jurisdições envolvendo o uso de dados sensíveis em apostas relacionadas a conflitos internacionais. Em Israel, reservistas chegaram a ser presos sob suspeita de utilizar informações militares em operações de apostas contra o Irã.

Mesmo com a controvérsia, o volume segue elevado — especialmente em momentos em que os mercados tradicionais estão fechados ou quando investidores buscam medir a percepção imediata sobre desdobramentos geopolíticos. Ainda assim, não há consenso sobre quais devem ser os limites para que esses mercados não ultrapassem fronteiras éticas e de segurança.

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