Ponto de inflexão: por que a escalada da IA depende dos ativos naturais?

Por Colunistas EXAME 10 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Ponto de inflexão: por que a escalada da IA depende dos ativos naturais?

*Por Onara Lima e Filipe Alvarez

De repente, geopolítica entra no centro da equação de todos os negócios, sendo inevitável uma abordagem mais ampla sobre os temas que estão na “crista da onda”.

E não estamos falando de uma marolinha - a reflexão cabe sobre temas como datacenters, disponibilidade de energia, terras raras para minerais críticos, e entra na conversa a lua e a possibilidade de exploração de todo potencial que por ali está.

No IA Summit 2026, realizado pela EXAME Saint Paul, no dia 2 de junho, em São Paulo, trouxe logo na abertura uma palestra provocativa do geofísico Sérgio Sacani, o “Triângulo do Futuro” – Como a Inteligência Artificial, as Terras Raras e a Exploração da Lua se conectam para definir a próxima era da civilização.

O avanço da IA chegará ao ponto onde será impulsionado pela disputa por recursos lunares. Ainda de acordo com Sacani, "a continuidade do que estamos vivendo está na Lua”.

A palestra também abordou o custo ambiental do processamento das terras raras, pois há que se considerar nesta equação o fato de que, a produção de uma tonelada de minerais críticos pode gerar duas mil toneladas de rejeito tóxico, ou seja, a discussão não se limita à disponibilidade do recurso.

Ela envolve tecnologia, política industrial, impacto ambiental e capacidade de processamento para agregar valor, e não correr o risco de ser tratado apenas como “commodities”.

Minerais e metais são fundamentais para a vida moderna, fornecendo a base para indústrias, comunidades sustentáveis e progresso social.

Dos dispositivos que nos conectam aos sistemas de energia limpa que alimentam nossas casas e empresas, esses recursos são cruciais para a construção de um futuro mais sustentável e equitativo.

Neste sentido, o esforço global para combater as mudanças climáticas e alcançar uma economia de baixo carbono, trouxe os minerais críticos para o centro das atenções.

Esses minerais são indispensáveis para tecnologias de energia limpa e inovação industrial, ambas essenciais para atingir as metas climáticas internacionais. No entanto, destravar seu potencial exige enfrentar os desafios relacionados ao seu fornecimento e produção.

Capital natural: o Brasil na era dos minerais críticos

O Brasil possui uma enorme oportunidade econômica em minerais críticos e raros.

Responsável por cerca de 23% dos depósitos globais de terras raras e 94% das reservas mundiais de nióbio, o país pretende alavancar esses recursos para ampliar o potencial na cadeia de suprimentos.

O desafio e o potencial residem na ampliação da extração local e no desenvolvimento de manufatura de alta tecnologia.

È necessário estruturar um plano estratégico quanto as oportunidades e os desafios para o Brasil liderar a transição energética global e fortalecer seu papel em tecnologias estratégicas para atrair investimentos internacionais.

Entretanto, transformar potencial em liderança, exige mais do que riqueza mineral. O Brasil ainda enfrenta desafios logísticos, regulatórios e tecnológicos, além da necessidade de gerar valor internamente e fazer a transição para um modelo que não dependa exclusivamente da exportação.

O Ministério de Minas e Energia, publicou em 2026 um documento chamado "Minerais Críticos do Brasil: Um Guia para Investidores Estrangeiros". E destaca:

“A transição para uma economia global de baixo carbono dita o ritmo da mitigação das mudanças climáticas e a urgência das estratégias de transição energética"

Para que as metas globais de descarbonização sejam atingidas, o mercado precisa urgentemente de novas fontes minerais e de uma diversificação geográfica robusta nas etapas de processamento e refino, mitigando assim os riscos de concentração nas cadeias de valor.

O guia traz o seguinte cenário: “Para apoiar essa expansão, o ecossistema brasileiro oferece um capital humano abundante e adaptável, respaldado por uma rede consolidada de laboratórios, institutos e universidades voltados para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D&I) no setor mineral".

O documento aponta ainda que o país está estrategicamente aberto ao Investimento Estrangeiro Direto (IED) que promove a transferência de tecnologia, a geração de riqueza e a integração da cadeia de valor.

Esse desenvolvimento ocorrerá em estrita conformidade com as diretrizes ESG (Ambiental, Social e de Governança), garantindo a segurança e a dignidade ocupacional, o respeito e o desenvolvimento das comunidades locais e um compromisso absoluto com a preservação ambiental.

Reservas, fluxos comerciais e tendências geopolíticas

Compreender onde as reservas estão localizadas, quem controla a produção, quem depende de importações e quais tendências globais estão emergindo é essencial para posicionar o Brasil estrategicamente nesse cenário.

Os minerais críticos estão distribuídos de forma desigual globalmente.

Países com vantagens geológicas e uma tradição de mineração consolidada detêm reservas significativas e atraem o interesse geopolítico das grandes potências.

A concentração pode se tornar um risco ou oportunidade, diante de um cenário que pode criar dependência e vulnerabilidade a choques externos.

Por exemplo, em 2023, a China implementou restrições à exportação de grafite refinado e gálio, insumos estratégicos para baterias e semicondutores – em resposta a disputas comerciais com os Estados Unidos e a União Europeia.

Em 2025, a China impôs restrições às exportações de terras raras, essenciais para tecnologias avançadas – em retaliação às novas tarifas americanas.

Com 91% do refino global de terras raras concentrado na China em 2024, a questão tornou-se um tópico estratégico nas negociações entre os Estados Unidos e o Brasil.

Isso ressalta como o controle sobre estágios mais avançados da cadeia de valor mineral pode ser usado como uma ferramenta geopolítica.

Apesar dos obstáculos existentes, o Brasil ocupa uma posição única no mapa global de minerais críticos. Com sua notável diversidade geológica e vasta extensão territorial, o país possui um sólido portfólio de recursos naturais.

Em lítio, o Brasil já está entre os cinco maiores produtores mundiais, com destaque para o Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. A produção nacional deverá crescer exponencialmente até 2030.

O mesmo se aplica ao grafite natural, cujas reservas brasileiras estão entre as maiores mundiais, embora a industrialização local, como a produção de grafite esférico, ainda esteja em estágio inicial.

No entanto, a abundância de recursos não se traduz automaticamente em liderança geopolítica ou industrial. O potencial deve ser convertido em estratégia.

A transição energética e a reestruturação das cadeias de suprimentos globais criaram uma enorme oportunidade, mas também um ponto de inflexão: o Brasil precisa decidir se continuará sendo um exportador de commodities ou se posicionará como um protagonista industrial na economia verde.

E é exatamente aqui que o triângulo se fecha. A exploração da Lua, com seus depósitos de metais e a promessa do Hélio-3, é a fronteira que Sacani aponta quando diz que a continuidade do que vivemos está lá fora, mas é uma aposta de prazo longo, medida em décadas e não em ciclos de investimento.

Tratá-la como saída para o gargalo de hoje é adiar a conversa que importa, porque a curva de demanda da IA é agora, a pressão sobre energia e minerais é agora, e a resposta de curto e médio prazo continua sendo terrestre, nas mãos de quem controla não apenas a jazida, mas o refino e a manufatura que agregam valor.

A China entendeu isso primeiro, e por isso concentra a maior parte do processamento global de terras raras e converte esse controle em instrumento de barganha geopolítica.

O Brasil chega a essa mesa com um ativo que poucos têm, a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mais de 90% do nióbio conhecido, lítio e grafite em expansão, mas recurso no subsolo não é estratégia, é só potencial.

A pergunta que define a próxima década não é se temos o mineral, e sim se vamos vendê-lo barato como commodity ou adensar a cadeia até capturar o valor que hoje escapa para fora.

Essa é uma decisão de negócio e de soberania antes de ser uma pauta ambiental. Enquanto a conversa pública mira a Lua, a corrida que vai definir quem lidera a economia de baixo carbono está sendo disputada no chão de fábrica e na geologia que o Brasil já possui debaixo dos pés.

O ativo está aqui. Falta a decisão de transformá-lo em poder econômico, antes que a janela se feche.

*Onara Lima é fundadora da ESG Advisory. Atua há 23 anos em Gestão Ambiental e Sustentabilidade e trabalhou em empresas como Gerdau, Suzano e CCR

Filipe Alvarez é Diretor de Sustentabilidade na Ubrabio e professor na Fundação Getúlio Vargas

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