Pop Mart chega ao Brasil em meio a dúvidas sobre dependência do Labubu
A Pop Mart, fabricante chinesa do boneco Labubu — que virou febre global no ano passado — abriu uma subsidiária no Brasil na virada de 2025 para 2026. Listada na Bolsa de Hong Kong e com valor de mercado superior a US$ 25 bilhões (R$ 129 bilhões), a companhia prepara o lançamento de um site de vendas nos próximos meses, seguido pela abertura de lojas físicas no segundo semestre. Antes disso, o grupo pretende retirar do mercado brasileiro versões falsificadas do Labubu e de outros personagens da marca.
Para isso, a Pop Mart ingressou, no dia 30 de março, com um pedido de tutela de urgência na Justiça de São Paulo para barrar a comercialização de itens piratas. Na ação, os advogados citam a rede AllMini por suposta violação de direitos de marca e autorais envolvendo versões falsas do Labubu e outros produtos do grupo chinês.
“Os consumidores muitas vezes não têm ciência de que estão adquirindo produtos falsificados, especialmente quando esses são comercializados em grandes shopping centers”, afirma Diogo Squeff Fries, sócio do Souto Correa Advogados, escritório que representa a Pop Mart no Brasil.
Procurada pela Folha de S.Paulo, a AllMini, que opera em cinco estados por meio de 25 lojas, afirmou não ter conhecimento formal da ação e disse que se manifestará após receber a intimação oficial.
O movimento ocorre após a Pop Mart protocolar, em 2021, o pedido de reconhecimento de sua marca junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), concedido em 2023. No ano seguinte, a companhia solicitou também o registro de produtos como o Labubu e a linha The Monsters.
Labubu: fabricante chinesa do boneco chega ao Brasil combatendo produtos falsificados da marca. (Sawayasu Tsuji / Colaborador/Getty Images)
Expansão global chega ao Brasil
A chegada ao país faz parte de um plano mais amplo de expansão internacional. Depois de ganhar escala com megalojas na Ásia, Europa e Estados Unidos, a companhia avançou sobre a América Latina, onde já opera no México, Colômbia e Bolívia.
No Brasil, o Labubu ganhou visibilidade em 2025: segundo o Google, foi o produto mais desejado nas buscas da plataforma no país. Até agora, as versões originais eram vendidas somente por importação direta e em poucas lojas físicas, como a Ri Happy. Com a operação local, a empresa pretende centralizar e ampliar a distribuição.
Criado há mais de uma década pelo artista de Hong Kong Kasing Lung, o personagem é um elfo inspirado na mitologia nórdica e integra a série de livros “Os Monstros”, também de sua autoria. O boneco se tornou o principal motor de crescimento da Pop Mart, companhia fundada em 2010 por Wang Ning.
O sistema de "caixa de surpresa" é considerado como um dos fatores de sucesso da marca. Os compradores não sabem qual modelo do boneco receberão ao adquirir o produto na embalagem. Nos Estados Unidos, a versão pequena do personagem é comercializada a partir de US$ 30 (R$ 156), enquanto outras opções do bicho de pelúcia podem ser encontradas por mais de US$ 1.200 (R$ 6.000). Essa estratégia combina estabelecimentos tradicionais com máquinas automáticas.
Em 2024, a empresa operava 130 lojas físicas e 192 máquinas de venda automática fora da China continental. Esses números praticamente duplicaram no ano passado, com a inauguração de outros 109 pontos de venda.
Crescimento acelerado e dependência do Labubu pressionam ações
A Pop Mart registrou faturamento de 37,1 bilhões de yuans (R$ 28 bilhões) em 2025, alta de 185% em relação ao ano anterior. Desse total, 39% vieram de vendas fora da China, reforçando o perfil internacional da empresa.
A série Monsters, liderada pelo Labubu, respondeu por cerca de 40% da receita total em 2025 — o equivalente a 14,2 bilhões de yuans, cerca de R$ 10 bilhões —, ante 23% em 2024. A concentração reforçou preocupações do mercado sobre a capacidade da companhia de sustentar o crescimento com base em uma única propriedade intelectual.
Após a divulgação dos resultados em março deste ano, as ações caíram quase 23% no dia 25, registrando a maior queda diária da história da empresa na Bolsa de Hong Kong, segundo dados da Bloomberg. O movimento de baixa continuou na sequência: os papéis acumularam recuo superior a 30% em cinco sessões até 31 de março e cerca de 60% desde o pico histórico em agosto, eliminando aproximadamente US$ 33 bilhões em valor de mercado. A queda veio acompanhada de revisões de preço-alvo, aumento de posições vendidas e incertezas sobre a trajetória futura da companhia.
Em entrevista à Bloomberg, o analista Sammi Xu, do Deutsche Bank AG, explicou que a empresa enfrenta pressões relacionadas à queda nas vendas, aumento de estoques e revisões negativas de lucro. O giro de estoques avançou 21%, para 123 dias ao final de 2025, movimento atribuído pela empresa à expansão internacional e à abertura de novas lojas.
Nem mesmo recompras de ações — que somaram cerca de HK$ 1,3 bilhão desde março — foram suficientes para conter a pressão sobre os papéis, negociados no início deste mês a 10,3 vezes o lucro projetado, abaixo da média histórica de 24 vezes. Dados da S3 Partners apontam ainda aumento de 16% nas posições vendidas após o balanço, com 123 milhões de ações em operações de short selling, prática de venda a descoberto.
Analistas também destacaram risco de revisão negativa das expectativas caso haja desaceleração da receita ou estabilização das margens. “Sinais de crescimento mais lento, normalização das margens ou desgaste da propriedade intelectual podem levar a uma compressão significativa dos múltiplos”, disse Melinda Hu, da Bernstein.
Expansão internacional segue como aposta estratégica
Apesar da reação negativa do mercado, a empresa mantém planos de diversificação. A Pop Mart ampliou o portfólio com personagens como Skullpanda e Twinkle Twinkle e firmou colaborações com a Sanrio Co. — empresa dona da Hello Kitty —, além de iniciativas ligadas à Copa do Mundo FIFA de 2026.
Buscando se firmar como uma versão chinesa da Disney, a companhia opera, desde 2023, o parque temático Pop Land, em Pequim, e anunciou, em parceria com a Sony Pictures Entertainment, um filme baseado no Labubu.
Nas Américas, região em que a empresa está em "período de expansão", a empresa abriu 42 novas lojas em 2025 e elevou a receita local em 748%, para 6,8 bilhões de yuans — o equivalente a 18,3% das vendas totais. Ainda assim, o aumento da oferta e a proliferação de produtos falsificados reduziram os ágios no mercado de revenda e arrefeceram parte do entusiasmo em torno do Labubu.
O desafio agora, na leitura de analistas, é demonstrar que a companhia consegue sustentar uma trajetória de crescimento baseada em múltiplas franquias — e não apenas em um fenômeno isolado.
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