Poque essa empresa decidiu parar de focar em currículos para escolher estagiários
Atrair jovens talentos e preparar a próxima geração de profissionais se tornou um desafio estratégico para empresas que buscam inovação e sustentabilidade nos negócios.
Na Amanco Wavin, companhia com cerca de 2.300 colaboradores no Brasil, a área de Recursos Humanos decidiu redesenhar completamente o modelo de estágio da empresa.
A iniciativa deu origem a um programa estruturado que prioriza potencial, diversidade e desenvolvimento profissional, substituindo critérios tradicionais de seleção que muitas vezes limitavam o acesso de novos talentos.
Um estágio que deixou de ser pontual para se tornar estratégico
Durante anos, a contratação de estagiários na empresa acontecia de forma descentralizada. Gestores podiam abrir vagas a qualquer momento, sem uma estrutura formal de acompanhamento ou desenvolvimento.
Esse formato gerava inconsistências na experiência dos estudantes e pouca previsibilidade no processo.
Segundo Mariana Navarro, coordenadora da área de Talentos da Amanco Wavin, a mudança começou a partir da percepção de que o modelo não estimulava o desenvolvimento dos jovens profissionais.
“A gente tinha contratação de estagiários, mas não era um programa estruturado. Se um gestor contratava e em dois ou três meses dizia que não queria mais, a troca podia acontecer a qualquer momento”, afirma.
Esse cenário levou o RH a repensar completamente o formato da iniciativa.
A empresa passou a estabelecer janelas fixas de entrada no programa, com duas turmas por ano, e criou uma estrutura de acompanhamento mais robusta.
Tutores passaram a acompanhar os estagiários no dia a dia
Um dos primeiros ajustes foi a criação da figura do tutor dentro do programa.
A percepção do RH era de que o gestor direto nem sempre tinha disponibilidade para acompanhar o desenvolvimento do estagiário no cotidiano. Na prática, quem orientava o trabalho diário era frequentemente um analista ou profissional mais experiente da equipe.
A solução foi formalizar essa função.
“Quem passa a maior parte do tempo com o estagiário não é o gerente ou o coordenador, mas um analista sênior. Então estruturamos a figura do tutor e definimos claramente qual é o papel de cada um nesse acompanhamento”, explica Mariana.
A empresa também passou a exigir que cada área apresente um plano de estágio antes de abrir uma vaga.
Se o plano não demonstrar potencial de aprendizado, a posição não é liberada.
“A ideia do programa de estágio não é ter alguém apenas para atividades operacionais. O estagiário precisa desenvolver competências e aprender coisas novas”, diz.
O processo seletivo mudou para ampliar o acesso
A reformulação do programa revelou um desafio importante no processo seletivo.
Mesmo sem exigir experiência prévia, a seleção acabava privilegiando estudantes de universidades consideradas de elite ou candidatos que já tinham algum repertório profissional.
Mariana percebeu que essa lógica criava barreiras antes mesmo de os candidatos terem a chance de mostrar seu potencial.
“Apesar de não exigir experiência, o processo ainda privilegiava quem já tinha algum repertório ou vinha de contextos mais tradicionais”, afirma.
Para mudar esse cenário, a empresa simplificou os critérios iniciais de seleção.
Hoje, o único requisito obrigatório é estar matriculado em uma faculdade reconhecida pelo Ministério da Educação.
“O único requisito é o candidato estar estudando em uma faculdade reconhecida pelo MEC. A gente eliminou outros filtros”, explica.
Um painel que revela potencial e capacidade de análise
O ponto central do processo seletivo passou a ser um painel de apresentação.
Nessa etapa, os candidatos desenvolvem um material em que apresentam sua trajetória pessoal, um momento de superação e uma proposta relacionada a um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
A dinâmica permite avaliar competências analíticas, pensamento crítico e capacidade de estruturar ideias.
“O que a gente avalia é a capacidade de estruturar o pensamento, conectar ideias e propor soluções”, afirma Mariana.
Os candidatos também podem relacionar suas experiências pessoais ao tema escolhido.
Segundo ela, esse formato elevou significativamente o nível das candidaturas.
“Isso elevou muito o nível dos candidatos. A gente percebeu uma mudança muito grande na qualidade das apresentações”, diz.
Decisão em banca reduz vieses na seleção
Outro elemento importante do novo modelo é a avaliação coletiva.
Em vez de uma única entrevista conduzida por um gestor, os candidatos apresentam suas ideias para uma banca formada por diferentes profissionais da empresa.
A prática reduz decisões baseadas apenas em afinidade ou impressões subjetivas.
“Ter uma banca avaliando ajuda a trazer múltiplos olhares e reduz decisões baseadas apenas em afinidade, que era algo que acontecia antes”, afirma Mariana.
Comunicação não é o único critério de avaliação
Durante a implementação do programa, o RH também percebeu a necessidade de ajustar os critérios de análise.
Inicialmente, candidatos com maior desenvoltura na comunicação acabavam se destacando mais.
Com o tempo, a equipe refinou o processo para garantir que a avaliação considerasse diferentes perfis.
“No começo, os candidatos que se saíam melhor eram os que tinham mais facilidade de comunicação. Mas percebemos que existem perfis diferentes e que isso não pode ser o principal critério”, explica.
Hoje, o foco da análise está na consistência das ideias e na capacidade de raciocínio.
Um programa voltado ao desenvolvimento
O programa de estágio da Amanco Wavin tem duração de dois anos e inclui uma trilha estruturada de desenvolvimento.
Durante esse período, os estagiários participam de job rotation, treinamentos e projetos práticos dentro da empresa.
Eles também recebem formação em ferramentas e competências importantes para a carreira, como Excel e gestão de projetos.
“O foco do estágio não é necessariamente a efetivação. O foco é o desenvolvimento. A efetivação pode acontecer, mas o objetivo principal é preparar esses jovens profissionais”, afirma Mariana.
Um olhar mais inclusivo para os talentos
Para a coordenadora de talentos, o principal aprendizado da transformação do programa foi perceber que muitas barreiras estavam na forma como as empresas analisavam os candidatos.
“O problema não eram os candidatos, era a forma como a gente estava olhando para eles”, afirma.
A mudança permitiu ampliar o acesso a oportunidades dentro da empresa.
“Hoje damos acesso a pessoas que certamente não estariam aqui se o processo continuasse como era antes. Esse é o grande ganho”, conclui.
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