Por que a fusão com a Mobly não salvou a Tok&Stok
A Tok&Stok foi fundada em 1978 com um conceito que ainda não existia no varejo brasileiro: móveis e decoração de design acessível, prontos para levar, em lojas amplas com atmosfera de showroom europeu.
O casal francês, Régis e Ghislaine Dubrule, chegou ao Brasil nos anos 1970 e identificou um mercado sem referência no segmento que ocupariam.
Quase cinco décadas depois, a empresa que construíram (e da qual nunca conseguiram se desapegar) acumula dívidas de R$ 1,12 bilhão e está, pela segunda vez em menos de dois anos, sob proteção judicial.
O Grupo Toky, a holding que controla a Tok&Stok e a Mobly desde a fusão das duas redes em 2024, protocolou pedido de recuperação judicial na terça-feira, 12, na Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo.
O processo corre sob segredo de justiça.
As ações TOKY3, listadas na B3, caíram 41,38% no pregão, chegando a R$ 0,17 — mínima histórica. No acumulado de 2026, a desvalorização supera 80%.
O valor de mercado da empresa antes do anúncio era de aproximadamente R$ 50 milhões. Às 8h54, no horário de Brasília, a empresa era avaliada em cerca de R$ 32 milhões.
"Apesar dos esforços empregados pela administração na negociação da reestruturação do endividamento junto aos credores da controlada Tok&Stok, o alto endividamento do grupo persiste e vem se agravando", afirmou a empresa em comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) assinado pelo diretor financeiro Marcelo Rodrigues Marques.
A primeira crise: como a Tok&Stok chegou à beira do abismo
Para entender o que aconteceu em 2026, é preciso voltar a 2012, quando os Dubrule venderam 60% da Tok&Stok ao fundo americano de private equity Carlyle por R$ 700 milhões — o valor, se corrigido pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), fica próximo de R$ 1,8 bilhão.
A família manteve os 40% restantes. A intenção era crescer com o suporte de capital institucional, abrir o capital na bolsa e eventualmente monetizar a participação restante, mas nada aconteceu como planejado.
Em 2021, o Carlyle transferiu sua operação de private equity no Brasil para a gestora SPX Capital e a Tok&Stok foi junto. Foi nesse momento que a relação entre os Dubrule e o controlador financeiro começou a se deteriorar com mais velocidade.
A família, que nunca deixou de participar ativamente da empresa — Ghislaine como CEO por quase cinco anos, Régis como conselheiro —, tinha uma visão diferente sobre o rumo da companhia. A SPX queria encontrar uma saída para o investimento, enquanto os Dubrule queriam reconquistar o controle.
A pandemia acelerou os problemas operacionais. Mais de 17 lojas foram fechadas durante o período e a inflação corroeu margens.
Os juros altos encareceram o crédito — insumo fundamental para o consumidor que compra móveis parcelados e para a empresa que financia estoques.
A Tok&Stok começou 2023 com uma dívida bancária estimada em R$ 600 milhões e uma situação de caixa precária o suficiente para contratar a consultoria Alvarez & Marsal para avaliar alternativas.
Em fevereiro de 2023, o fundo imobiliário Vinci Logística revelou ao mercado, por fato relevante, que a Tok&Stok havia deixado de pagar o aluguel do Extrema Business Park I, em Minas Gerais, um de seus principais galpões de armazenagem.
Era a primeira vez que a empresa inadimplia o compromisso. O fundo entrou com ação de despejo. O pagamento só foi regularizado em março, com R$ 2,09 milhões depositados em juízo.
O episódio expôs publicamente o que o mercado já desconfiava: a Tok&Stok estava em crise profunda.
Em abril de 2023, o Carlyle injetou R$ 100 milhões para sustentar a operação, cifra que analistas imediatamente apontaram como insuficiente diante de um passivo estimado em R$ 600 milhões.
A família Dubrule também aportou R$ 100 milhões. As lojas em shoppings começaram a ser fechadas. A empresa negociou em 2023 um reperfilamento da dívida bancária, então em R$ 339 milhões, com carência até 2024 e pagamentos escalonados até 2029.
Parecia estabilizado. Mas, o que parecia, não era bem a realidade.
A disputa que consumiu energia
Em julho de 2024, o conselho de administração da Tok&Stok destituiu Ghislaine Dubrule do cargo de CEO.
Votaram pela saída Fernando Borges, chairman que representava a SPX, e o conselheiro independente Roberto Szachnowicz. A família ficou furiosa. Régis Dubrule disse ao NeoFeed, em setembro de 2024, que a "a fusão com a Mobly era o abraço dos afogados."
A SPX não queria colocar dinheiro novo, mas sim sair do negócio.
E saiu — vendendo os 60% que detinha na Tok&Stok para a Mobly em agosto de 2024, em operação que foi anunciada sem o consentimento dos Dubrule e com a qual eles discordavam frontalmente.
A Mobly era uma empresa 100% digital fundada em 2011 por Victor Noda, Marcelo Marques e Mário Fernandes, que havia aberto capital na B3 em 2021 e acumulava prejuízos consecutivos desde então.
A combinação de dois varejistas de móveis em dificuldade, numa operação que precisava ser aprovada pelo Cade e pelo BNDESPAR, foi vista pelo mercado com ceticismo imediato.
A fusão foi concluída em novembro de 2024. O plano de recuperação extrajudicial da Tok&Stok (com dívida bancária de R$ 399 milhões, convertida em parte em ações e reperfilada com carência até 2027 e pagamentos até 2035) havia sido homologado pela 2ª Vara de Falências de São Paulo em novembro do mesmo ano.
A nova holding passou a se chamar Grupo Toky e a ser negociada na B3 sob o ticker TOKY3 a partir de maio de 2025.
Os Dubrule não aceitaram passivamente. Em fevereiro de 2025, lançaram uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) para tentar retomar o controle da companhia.
A administração do Grupo Toky considerou a proposta "inviável" e moveu ação judicial para contestá-la. A CVM foi acionada.
Em abril de 2025, a maioria dos acionistas votou pela manutenção de uma cláusula de poison pill no estatuto — mecanismo que dificulta aquisições hostis. Em maio, os Dubrule desistiram da OPA, citando exatamente essa cláusula como obstáculo intransponível.
Durante meses, enquanto juros corriam sobre uma dívida bilionária e consumidores reclamavam de atrasos nas entregas e dificuldades no atendimento, os recursos da gestão foram drenados por uma guerra societária que não tinha vencedores claros.
A fusão que não fechou as contas
O Grupo Toky nasceu com alavancagem de 16 vezes o Ebitda — o resultado operacional da empresa antes de juros, impostos e depreciação.
É um número que especialistas em reestruturação descrevem como "incompatível com a sobrevivência em ambiente de juros altos". Com a Selic a 14,75% ao ano, cada real de dívida ficou exponencialmente mais caro de carregar.
A fusão gerou sinergias reais. A Tok&Stok migrou sua logística de Extrema para o centro de distribuição da Mobly em Cajamar, com economia anual projetada de R$ 30 milhões.
A empresa mapeou 59 processos de eficiência operacional e capturou R$ 100 milhões em economias desde a integração. No primeiro trimestre de 2025, a Tok&Stok cresceu 4% em receita. Mas a Mobly caiu 12,2% no mesmo período.
No front financeiro, os números não fechavam. A expectativa era reduzir R$ 227 milhões da dívida líquida até o fim de 2025.
A empresa encerrou o ano com dívida líquida de R$ 401 milhões, abaixo dos R$ 592 milhões de 2024, mas distante da meta. Em janeiro de 2026, conseguiu prorrogar o vencimento de debêntures para junho.
O prazo não foi cumprido. No primeiro trimestre de 2026, o grupo registrou prejuízo líquido de R$ 55,2 milhões.
No dia 11 de maio, um dia antes do pedido de recuperação judicial, a SPX Capital vendeu todas as ações que ainda detinha no Grupo Toky. Um conselheiro renunciou e o mercado interpretou o movimento como o sinal mais claro de que o pedido vinha a seguir.
O que vem depois
Com 63 lojas físicas e mais de 2.200 funcionários, o Grupo Toky sustenta que a recuperação judicial é o caminho para uma reestruturação ordenada — e não um sinal de insolvência definitiva.
O grupo solicitou a antecipação dos efeitos da recuperação por 180 dias, período de proteção durante o qual credores não podem tomar medidas de execução contra a empresa.
Os principais credores financeiros são Banco do Brasil, Santander e Bradesco. Adicionalmente, R$ 77 milhões em recebíveis de cartão foram bloqueados pela SRM Bank, segundo o EBC Financial Group.
O plano de recuperação precisará ser apresentado ao juízo em até 60 dias após o deferimento. Esse documento determinará se o grupo tem condições reais de honrar seus compromissos, ou se seguirá o caminho da falência.
O contexto não ajuda. O Brasil encerrou 2025 com 5.680 empresas em recuperação judicial, recorde absoluto da série histórica, alta de 13% em relação a 2024 e quase cinco vezes mais do que durante a pandemia de 2020, segundo a RGF & Associados.
A Selic a 14,75%, famílias superendividadas e consumo de alto ticket sob pressão formam o ambiente que quebra varejistas dependentes de crédito e parcelas longas.
A Tok&Stok tem 46 anos de história. Sobreviveu à abertura econômica dos anos 1990, à crise de 2008 e à pandemia.
A pergunta que o mercado aguarda resposta — no plano de recuperação a ser apresentado em breve — é se vai sobreviver à combinação de uma dívida que nunca foi resolvida de verdade, uma fusão que chegou tarde demais e juros que não perdoam quem adia a conta.
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