Por que a IA está derrubando ações do setor imobiliário nos EUA

Por Ana Luiza Serrão 16 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Por que a IA está derrubando ações do setor imobiliário nos EUA

Um nervosismo do mercado está atingindo gigantes do setor imobiliário comercial. Nos últimos dias, investidores correram para vender ações de empresas como CBRE Group, Jones Lang LaSalle (JLL) e Cushman & Wakefield devido ao medo de que a inteligência artificial comece a tomar espaço do trabalho humano.

Analistas ouvidos por veículos como Bloomberg e CNBC classificaram o movimento como “AI scare trade”, traduzindo em uma onda de vendas motivada pelo pânico em torno da IA. Em um único pregão, na quarta-feira, 11, CBRE e JLL chegaram a cair 12%. A Cushman foi além e despencou 14%.

O dia seguinte também foi turbulento, com a CBRE voltando a afundar quase 9%. Este tombo de quinta-feira, 12, foi generalizado, já que a JLL encerrou a sessão com queda de 7,6%, a Hudson Pacific perdeu quase 4%, enquanto nomes como Newmark, BXP e SL Green Realty também fecharam no vermelho.

O que está assustando tanto?

Isso acontece porque os investidores optaram por sair de modelos de negócios voltados à forte mão de obra e mais vulneráveis à exposição da IA. A preocupação ganhou força após o lançamento recente de ferramentas capazes de executar tarefas desempenhadas por humanos, como análises jurídicas e programação.

Startup norte-americana de IA, a Anthropic foi a responsável por esse gatilho, com o avanço de instrumentos voltadas à automação de tarefas, fazendo o mercado reagir negativamente, tendo em vista que a tecnologia começou a entrar em áreas tradicionalmente ocupadas por profissionais altamente qualificados.

O analista da Keefe, Bruyette & Woods, Jade Rahmani, resumiu o sentimento: "acreditamos que os investidores estão abandonando modelos de negócios com altas taxas e uso intensivo de mão de obra, considerados potencialmente vulneráveis ​​à disrupção impulsionada pela IA", disse à Bloomberg.

Musk colocou mais lenha na fogueira

Além disso, declarações do empresário multibilionário Elon Musk ajudaram a deixar o debate acalorado. Em entrevista ao Dwarkesh Podcast, Musk afirmou que empresas formadas puramente por IA e robótica poderão superar companhias que dependem de pessoas na operação.

"Antigamente, ser computador era uma profissão humana. Você conseguia um emprego como ‘computador’, onde fazia cálculos. Havia arranha-céus inteiros repletos de pessoas, 20 a 30 andares, só fazendo cálculos. Agora, todo esse arranha-céu (...) pode ser substituído por um laptop com uma planilha", segundo fala de Musk divulgada pela CNBC.

Um ensaio do CEO da OtherSide AI, Matt Shumer, projetou também forte impacto da IA sobre empregos de nível iniciante e ampliou a sensação de que o mercado de trabalho pode estar entrando em uma fase de transformação profunda, com um impacto maior que o da covid-19, afirmou a CNBC.

Resultados financeiros continuam sólidos

Apesar da queda acentuada e a mais expressiva em anos para algumas dessas companhias, os analistas ponderam que a reação pode ter sido exagerada, pois grandes transações imobiliárias comerciais envolvem uma complexidade grande, negociações estratégicas e redes de relacionamento consolidadas.

Executivos da CBRE também minimizaram à Bloomberg o risco de disrupção estrutural imediata. A companhia afirmou que vem incorporando ferramentas de IA como suporte às operações, e não como substituição da força de trabalho. Esses fatores não seriam, assim, facilmente substituídos pela tecnologia no curto prazo.

Enquanto as ações derretem, os resultados financeiros dessas empresas continuam sólidos. A CBRE, por exemplo, divulgou lucro acima das expectativas no quarto trimestre e apresentou projeções consideradas robustas, com o CEO Bob Sulentic rebatendo que o negócio é movido por pensamento estratégico, criatividade e relacionamento.

Analistas de investimento pedem calma

Todavia, analistas ouvidos pela Bloomberg pedem calma. Da Jefferies, Joe Dickstein argumentou que a ameaça imediata é limitada; ao passo que o especialista do Barclays, Brendan Lynch, seguiu na mesma linha, relatando que a venda de ativos exagerada e desconectada dos fundamentos.

Já o analista da Macquarie, Thierry Wizman, ponderou à CNBC que empresas que demorarem a incorporar a IA ao seu núcleo operacional podem sofrer. Como a tecnologia pode assumir fluxos de trabalho inteiros, quem ficar parado pode perder relevância. E o mercado está precificando agora o futuro, talvez com razão ou não.

É notório, assim, que o setor imobiliário comercial está no meio de uma encruzilhada, que, de um lado, mostra balanços fortes e negócios ainda resilientes; e, do outro, sofre com o receio de que a próxima grande transformação tecnológica esteja apenas começando. E o mercado mostrou que ignorar isso não é uma opção.

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