Por que a IA pode acelerar o número de mulheres líderes em tecnologia?
Por Anaterra Oliveira*
A ascensão da inteligência artificial não está apenas transformando processos e modelos de negócio, mas redesenhando o próprio conceito de liderança. E, nesse novo desenho, a presença de mulheres em posições de decisão encontra um terreno fértil para crescer, especialmente na tecnologia.
Na minha visão, se por décadas a alta liderança em tech foi marcada por um perfil mais técnico e orientado à execução racional, o avanço da IA começa a deslocar esse eixo. Os algoritmos passam a assumir, com cada vez mais eficiência, tarefas estruturadas, analíticas e repetitivas. O que ganha centralidade, agora, é a capacidade de decidir em ambientes ambíguos, interpretar contextos humanos e sustentar visões de longo prazo com sensibilidade e responsabilidade.
A liderança - como acredito que deve ser - passa a ser profundamente relacional, ética e sistêmica. Esse movimento ajuda a explicar por que cresce o número de mulheres em posições sêniores de tecnologia. Exemplos recentes incluem mulheres à frente de iniciativas de IA em empresas globais de tecnologia e executivas brasileiras que hoje comandam transformações digitais em setores como saúde, varejo e serviços financeiros.
À medida que a IA nivela o acesso ao conhecimento, reduzindo barreiras técnicas históricas, o foco deixa de estar no “saber tudo” e passa para o “saber integrar”. Ferramentas generativas permitem que profissionais acessem metodologias, organizem análises complexas, estruturem apresentações estratégicas e simulem cenários com rapidez inédita.
O capital técnico torna-se mais distribuído. E as mulheres já estão se apropriando dessa transformação. Segundo o Skillsoft Women in Tech Report 2024¹, levantamento global realizado com mulheres que atuam na área de tecnologia, 40% das profissionais entrevistadas afirmam utilizar inteligência artificial em suas atividades de trabalho. Entre aquelas que já usam essas ferramentas, 73% relatam aumento de produtividade e 19% apontam maior eficiência nos fluxos de trabalho. O dado é relevante porque demonstra protagonismo: as mulheres não estão apenas inseridas no setor, estão incorporando ativamente a IA às suas rotinas profissionais e colhendo ganhos concretos com isso.
Ao mesmo tempo, 63% das profissionais que respobderam à pesquisa reconhecem que ainda falta formação adequada para explorar plenamente o potencial dessas tecnologias. Essa informação revela uma oportunidade estratégica evidente. Se já há ganhos concretos de produtividade com o uso atual, o impacto pode ser exponencial com investimento estruturado em capacitação.
A IA, portanto, não apenas transforma o trabalho. Ela pode funcionar como aceleradora de ascensão profissional. Ao reduzir parte da dependência de estruturas hierárquicas tradicionais e democratizar acesso à informação, cria condições para que competências historicamente subvalorizadas ganhem espaço.
Entre essas competências estão o pensamento sistêmico, a leitura de contexto, a capacidade de articulação, a construção de ambientes de confiança e a gestão de conflitos em cenários complexos. Em um ambiente onde algoritmos entregam respostas técnicas, a diferença passa a estar na qualidade das perguntas, na interpretação dos resultados e na tomada de decisão responsável.
A liderança contemporânea exige habilidade para lidar com paradoxos: inovação e risco, eficiência e ética, velocidade e prudência. Exige sensibilidade para compreender impactos humanos em meio à automação crescente. Exige capacidade de escuta em um ambiente saturado de dados.
Isso não significa atribuir características essenciais a homens ou mulheres. Porém, é inegável que muitas mulheres, ao longo de suas trajetórias, desenvolveram repertórios amplos de adaptação, negociação e integração de múltiplas responsabilidades. Em um cenário tecnológico que valoriza justamente essa capacidade de articulação complexa, esses repertórios deixam de ser invisíveis e passam a ser estratégicos.
Há também um aspecto simbólico. À medida que mais mulheres ocupam posições de liderança em tecnologia, as referências para as próximas gerações se ampliam.
A era da IA não elimina desafios estruturais. Persistem assimetrias de oportunidades ligadas a gênero, vieses inconscientes nos processos de promoção e avaliação, além de barreiras culturais que historicamente limitaram o acesso de mulheres às áreas técnicas e às posições de decisão. Mas o contexto mudou.
Se a inteligência artificial redefine o que é trabalho, redefine também o que é liderar. E, nesse novo cenário, a liderança feminina não é apenas desejável, é estratégica.
O crescimento da presença de mulheres na tecnologia não será automático. Dependerá de políticas organizacionais, investimento em formação e compromisso real com diversidade. Mas os sinais estão aí: quando a tecnologia resolve o racional, o humano ganha centralidade.
Não se trata apenas de uma agenda de diversidade ou de uma correção histórica necessária. A transformação digital é, também, uma transformação cultural. As barreiras que limitam a presença feminina não estão só nas áreas técnicas. Elas começam muito antes, no próprio acesso e na permanência das mulheres no mercado de trabalho e acabam aparecendo com ainda mais força nos campos de tecnologia.
Nesse contexto, a era da inteligência artificial pode ser o momento em que liderança feminina e tecnologia deixam de ser exceção e passem a se tornar parte estruturante do futuro.
*Anaterra Oliveira é CIO da Dasa. Formada em Administração com ênfase em Gerenciamento de Tecnologia da Informação pela FASP, tem mais de vinte anos de experiência na área de tecnologia e mais de uma década dedicada à liderança e gestão de equipes. Ao longo de sua carreira, passou por empresas como Nubank, Banco BV e Rede.
Referências
1- SKILLSOFT. Women in Tech Report 2024. [S.l.]: Skillsoft, 2024. Disponível em: https://www.skillsoft.com. Acesso em: 24 fev. 2026
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